Petição popular vira lei para proteger abelhas na Alemanha

Foram 1,7 milhão de assinaturas em pouco mais de um mês. Pessoas que apoiaram uma petição online, lançada em fevereiro, para salvar as abelhas da extinção. Elas têm consciência que esses insetos polinizadores são essenciais para garantir a segurança da produção de alimentos. A petição pedia que um plebiscito fosse organizado para discutir o assunto.

Todavia, devido à enorme pressão, o governo da Bavária, na Alemanha, desistiu de realizar um referendo sobre a questão e simplesmente transformou o anseio popular diretamente em lei. Palavra por palavra. A decisão foi anunciada pelo primeiro-ministro da Bavária, Markus Söder, e enviada ao Parlamento.

Além das assinaturas na internet, milhares de alemães foram às ruas, fantasiados de abelhas, para defender a campanha, que teve o apoio também dos Partidos Verde e do Democrático Ecológico da Bavária (ÖDP) e organizações que trabalham pela conservação ambiental.

Entre as medidas que entrarão em vigor estão a meta de, até 2025, ter 20% das terras agrícolas da região com cultivo de orgânicos, e 30% até 2030.

E não é só: 10% das áreas verdes da Bavária deverão ser transformadas em prados floridos para atrair mais abelhas e rios e córregos terão que ser protegidos de fertilizantes e pesticidas.

Post de agradecimento divulgado pelo Partido Verde no Twitter

O declínio da população das abelhas

Em 2014, o neurobiologista alemão Randolf Menzel apresentou um estudo em que afirmava que três tipos de neonicotinóides afetavam diretamente receptores do cérebro das abelhas, prejudicando o senso de direção e a memória delas, fazendo com que tivessem mais dificuldade para retornar à colmeia.

Derivados da nicotina, os neonicotinóides são pesticidas usados para controlar pragas. O grande diferencial deste agrotóxico é ser sistêmico, ou seja, ele se espalha por toda a planta: folhas, flores, ramos, raízes e até, néctar e pólen. Em geral, ele é colocado na semente e a partir daí, toda a planta fica com vestígios dele.

Em toda Europa, estima-se que já houve um declínio de 80% na população de insetos. Em outro artigo científico, do final de 2017, pesquisadores advertiram que estava em andamento um ‘Armagedon ecológico’, que colocava a humanidade em risco. Segundo eles, em 25 anos, cerca de 1/4 das espécies polinizadoras do mundo desapareceram.

Acontece que esse declínio tem impacto direto sobre agricultura. No Brasil, por exemplo, 90% de quase 5 mil municípios do país terão perdas de polinizadores em 30 anos, destacam especialistas. O serviço ambiental prestado por essas espécies foi estimado em R$ 43 bilhões, em 2018, e põe em risco não somente a produção de alimentos, mas a conservação da biodiversidade.

Na Europa, estudiosos já alertam como a diminuição da população das abelhas tem afetado diretamente a sobrevivência das aves no continente. Dados do European Bird Census Council indicam uma redução de 55% desde a década de 80. Das 39 espécies de aves “rurais” analisadas, 24 tiveram uma queda em seus números.

Leia também:
Abelha brasileira é capaz de compensar declínio de outros polinizadores
Abelhas e outros polinizadores são ameaçados pelo desmatamento e pelos agrotóxicos no Brasil
Ameaça a polinizadores coloca em risco produção global de alimentos, equilíbrio ambiental e saúde do ser humano
Amsterdam registra aumento da população de abelhas graças a projetos “bee friendly”

Foto: domínio público/pixabay

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

Deixe uma resposta