Pesquisadora baiana substitui agrotóxico por óleo das folhas do eucalipto contra fungo da macadâmia

A onda de agrotóxicos promovida pelo governo Bolsonaro – já são 400 os agrotóxicos liberados pelo Ministério da Agricultura e pela Anvisa, somente este ano! – é assustadora. Por isso, nada mais auspicioso do que ver pesquisadores incansáveis que trabalham para encontrar alternativas naturais que reduzam ou eliminem o uso desses venenos no ataque a pragas e fungos nas plantações.

Claro que a preocupação com o uso de agrotóxicos não é só nossa. Em março, mostramos aqui, no Conexão Planeta, uma incrível descoberta de pesquisadores alemães: uma molécula de açúcar que inibe o crescimento de plantas e microorganismos, é inofensiva aos seres humanos e pode substituir o agrotóxico mais usado no mundo, o glifosato. Um dos mais tóxicos e fatais. Não é à toa que sua fabricante, a Bayer/Monsanto, responde a inúmeros processos pelo mundo e já perdeu vários, além de já ter sido condenada pelo Tribunal de Haia.

Mas, agora, a descoberta vem da Bahia. A pesquisadora Cátia dos Santos Libarino, que cursa mestrado em Ciência Florestal na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), no campus de Vitória da Conquista, extraiu óleo a partir de folhas (descartadas) do eucalipto com a intenção de desenvolver um produto natural para combater fungo que causa manchas nas folhas da macadâmia – Neopestalotiopsis clavisporaconhecida como uma das nozes mais saudáveis que existem. Com essa descoberta, é possível eliminar o uso de agrotóxico, protegendo o meio ambiente e garantindo saúde a quem consome a noz. Não é sensacional?

Esse fungo ataca plantações frutíferas, principalmente, em especial as folhas, que acabam caindo prematuramente. Isso influencia “na comercialização da noz, que é o produto comercial de maior valor da planta”, conta ela.

Cátia costumava observar o crescimento do fungo nas folhas de pé de macadâmia , utilizou três espécies de eucalipto, conhecido por suas propriedades no controle de doenças na floresta, e extraiu óleos essenciais e extratos vegetais.

Seu projeto teve o apoio de um trio de professores: Quelmo Novaes e Dalton Júnior (doutor em ciência florestal), da UESB, e Patrícia Krepsky (doutora em farmácia), da Universidade Federal da Bahia (UFBa).

“A ideia é desenvolver alternativas ao uso dos agrotóxicos. Nessa pesquisa, extraímos o óleo essencial de várias espécies de eucalipto e fizemos também um extrato aquoso com essas diversas espécies, para fazer uma comparação em relação ao efeito fungicida (tão letal, que o fungo não cresce mais) e fungistático (inibe apenas o crescimento do microorganismo no meio em que se encontra, mas este pode voltar a crescer). Ou seja, um efeito no sentido de matar e diminuir o crescimento de fungos”, explicou Patrícia.

Em todas as dosagens testadas para inibir o crescimento do fungo, o óleo essencial mais eficiente foi o que é conhecido como eucalipto-limão. Trata-se da espécie Corymbia citriodora, que é uma das mais plantadas para produção de celulose no extremo sul da Bahia. A potência desse óleo é tão forte que a menor dose (0,03 ml) se mostrou suficiente para inibir totalmente o fungo. O óleo foi classificado como fungistático, quando usado em dosagens baixas, e fungicida, em altas dosagens.

Já os óleos das espécies Eucalyptus camaldulensis e Eucalyptus urophylla , em dosagens baixas, apresentaram pouca eficiência, e os resultados foram semelhantes. Foi necessário aumentar a dosagem de ambos para obter um bom resultado.

Por outro lado, na forma de extrato, nenhuma espécie de eucalipto se mostrou eficiente contra o fungo. E, neste caso, sua inibição foi semelhante com as três, aumentando quando a dosagem era maior.

Assim, os óleos essenciais fungicidas integram o projeto de conclusão de mestrado em Ciências Florestais da pesquisadora, na UESB. Para ela o produto fitossanitário natural pode ser de grande utilidade para pequenos produtores rurais ou para aqueles que praticam a agricultura de forma orgânica.

A professora Patrícia ressalta, também, que a descoberta ainda traz outras oportunidades: “Muitas vezes, a exploração nas florestas é voltada para a comercialização da madeira, e as folhas são descartadas. A utilização das folhas nesse projeto promove o incremento de receitas, além de parcerias com extratores de óleo, e o pequeno produtor ainda pode aproveitar as próprias plantas que já estão na propriedade para utilizar o óleo no controle de doenças locais”. 

E o professor Dailton lembrou, ao site G1, que a pesquisa ainda não terminou: “Como todo o trabalho foi realizado em laboratório, agora é preciso desenvolver experimentos em estufa ou, até mesmo, em campo, com mudas, para ver se a eficiência observada em laboratório se repete em campo e, se não for assim, quais são as novas dosagens e formas de aplicação para o óleo”.

Parabéns para Cátia! São descobertas como essa que nos animam e nos fazem ter esperança de que ainda chegará o dia em que usaremos apenas defensivos naturais nas lavouras.

Fotos: Arquivo pessoal

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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