Perdas e danos do incêndio do Museu Nacional

Diante do Brasil e do mundo, o Palacete da Quinta da Boa Vista ardeu. Tão intensos quanto as chamas que varreram parte expressiva do Museu Nacional foram os sentimentos. Uma mescla de profunda tristeza, perplexidade e, por fim, vergonha se abateu sobre nós. Tragicamente, boa parte de um magnífico acervo deixou de existir. Por ironia do acaso, o incêndio começou no primeiro dia da semana da Pátria e ocorreu poucos meses após as comemorações de 200 anos de existência da instituição. Perdemos todos com a aversão dissimulada e o descuido explícito das autoridades públicas com nossa memória!

Um histórico recente – incluindo numerosas reportagens e documentos – mostra que não faltaram alertas e pedidos de ajuda. Para muitos, uma tragédia anunciada, dada a precariedade e desprezo com que o poder público lidou com nosso valioso patrimônio ao longo de décadas. Refletem o descuido com a cultura, a ciência e o patrimônio nacional. A burocracia, engessada por um labirinto de etapas legalistas, finalmente impediu que recursos emergenciais do BNDES chegassem a tempo para salvar o principal acervo de história natural do Brasil. Mover papeis eficientemente em instâncias governamentais parece mais difícil do que fazer um elefante se deslocar dentro de um pequeno apartamento… sem quebrar os móveis.

Em meio ao rescaldo, um novo incêndio

As chamas nem estavam controladas por completo na noite de 2 de setembro e um novo e incendiário drama se abateu sobre o Brasil. As redes sociais se inflamaram na busca imediata – por vezes, estouvada – por culpados. Parece que o esporte favorito do brasileiro já nem é mais o futebol e, sim, o arremesso de pedra. Legiões de “especialistas” em museus se formaram instantaneamente para proferir injúrias e condenar pessoas.

Não significa que não se deva apurar responsabilidades, compreender falhas e gerar aprendizado com essa tragédia. Como sabemos, este último não é o único museu a virar cinzas nos últimos anos no Brasil, seja pelo eloquente descaso, seja pela boçalidade de nossos mandatários. Contudo, dado o momento frágil e de extrema polarização que vive o país, não vejo como apropriado vitaminar os “tribunais” sumários nos quais se ajuízam e abrasam pessoas ou temas atuais.

Me parece mais acertado e fértil avaliar junto aos quase 100 especialistas que trabalham no museu maneiras de apoiar e recuperar a instituição. Defendo fortemente essa vertente, notadamente por respeito ao engajamento e, por que não dizer, ao heroísmo com que alguns pesquisadores no Museu Nacional lidam com seus cargos. Teve grande repercussão, por exemplo, a atitude intrépida do biólogo Paulo Bucukp em meio à catástrofe.

Por conhecer muito bem a edificação, com a anuência dos bombeiros, orientou e ajudou na retirada de materiais biológicos únicos em áreas que ainda não estavam tomadas pelas chamas. Declarações públicas do pesquisador revelam a um só tempo a paixão e o comprometimento com a instituição e colegas: “Estávamos pensando nos pesquisadores que nos antecederam. O que salvamos vai permitir a continuidade de pesquisas de colegas. Na hora só pensei que ali estavam a minha vida e a de colegas”.

Muito além das exposições

O que vemos quando visitamos um museu é a “ponta do iceberg”. Bem polida e tratada, as exposições configuram a parte mais tangível e atraente dos museus. Nas exposições são exibidos exemplares emblemáticos e chamativos… e não poderia ser diferente. Quantas crianças tiveram sua infância marcada pelo contato e sedução com espécimes dessas exposições e acabaram desenvolvendo sua vocação a partir desse tipo de experiência? O contato e interação com as exposições cria um canal de comunicação íntimo e educativo, sensibilizando indelevelmente o visitante, seja pelo conhecimento, seja por instigar a curiosidade ou pela reflexão estética.

Contudo, as coleções científicas – conhecidas também como reserva técnica – são a espinha dorsal dos museus. Ficam “escondidas” do público, mas é com base nelas que cientistas ampliam e aprofundam seus conhecimentos, interpretam dados, comprovam ou rejeitam hipóteses. É importante destacar que diversas coleções científicas do Museu Nacional, como a dos diferentes grupos de vertebrados e botânica, não foram atingidas pelo incêndio e compõem parte das muitas pesquisas em andamento na instituição.

Museus são “como bibliotecas de livros e artigos que ainda não foram escritos” afirmou publicamente o amigo Luiz Roberto Malabarba, presidente da Sociedade Brasileira de Ictiologia, destacando que a maior perda no incêndio do Museu Nacional foi o conhecimento que ainda estava para ser descoberto. Diferentemente do senso comum, museus “não são depósitos de coisas antigas e inúteis, mas fontes permanentes de informação que devem ser descobertas ou reinterpretadas sob novos paradigmas ou novas tecnologias”, reforça Malabarba que dedica sua vida à sistemática (classificação) e evolução de peixes.

O incêndio do Museu Nacional assombra a todos nós devido à extensão da perda, ainda sem avaliação precisa, mas seguramente colossal. Para muitos de nós, conectados por encantamento ou pela profissão às belezas do mundo natural, os prejuízos são insubstituíveis. Nada pode ser feito para recuperar parte do que foi incinerado.  É evidente que haverá lacunas profundas, que não permitirão construir narrativas nem recontar parte da história natural ou da humanidade.

Passado o primeiro momento, traumático, todos nós estamos genuinamente conectados com o valor do conhecimento, devemos propor caminhos e cobrar das autoridades uma política condizente com o valor que deve ser dedicado ao Museu Nacional, de modo específico, e à ciência e à preservação de nossa memória, de maneira geral. Somente dessa forma poderemos honrar os esforços de nossos antepassados que se empenharam tanto para criar e manter essa parte admirável da história do Brasil e da humanidade. Que a reconstrução do Museu Nacional, simbolicamente, seja um marco civilizatório que nos ajude a repensar nossa Nação.

Foto: José Sabino

Biólogo, doutor em Ecologia pela Unicamp e mestre em Zoologia pela Unesp. É professor e pesquisador da Universidade Anhanguera-Uniderp, onde coordena o Projeto Peixes de Bonito. Trabalha com comportamento animal e biodiversidade, além de dedicar especial atenção à divulgação e à compreensão pública da ciência. Desde 2000, vive no Mato Grosso do Sul – perto do Pantanal e de Bonito – com sua família e outros bichos

José Sabino

Biólogo, doutor em Ecologia pela Unicamp e mestre em Zoologia pela Unesp. É professor e pesquisador da Universidade Anhanguera-Uniderp, onde coordena o Projeto Peixes de Bonito. Trabalha com comportamento animal e biodiversidade, além de dedicar especial atenção à divulgação e à compreensão pública da ciência. Desde 2000, vive no Mato Grosso do Sul – perto do Pantanal e de Bonito – com sua família e outros bichos

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