PepsiCo, Nestlé, Unilever, Procter & Gamble e McDonald’s são acusados de conivência com desmatamento, denuncia ONG internacional

PepsiCo, Nestlé, Unilever, Procter & Gamble e McDonald’s são acusados de conivência com desmatamento, denuncia ONG internacional

Um relatório divulgado pela organização Rainforest Action Network (RAN), na sexta-feira (21/07), acusa algumas das maiores empresas do mundo a serem cúmplices no desmatamento de florestas na ilha de Sumatra, na Indonésia, onde milhares de árvores estão sendo derrubadas e queimadas ilegalmente para dar lugar a plantações de óleo de palma, substância utilizada na fabricação de uma série de produtos que usamos diariamente, como sabonetes, xampus, cremes, sorvetes, barras de chocolate, margarina, entre muitos outros.

O documento “Leuser Watch” mostra imagens de satélite, fotografias e coordenadas geográficas em que aparecem extensas áreas de desmatamento, num local que é habitat de orangotangos, tigres, rinocerontes e elefantes. Segundo a RAN, PepsiCo, Mars, Kellogs, Nestlé, Unilever, Procter & Gamble e McDonald’s são algumas das multinacionais que compram óleo de palma de fornecedores da região.

Apesar da moratória, desmatamento está aumentando em Leuser, na Sumatra

A companhia PT. Agra Bumi Niaga (PT. ABN) já tinha sido denunciada em fevereiro deste ano pela Rainforest Action Network por estar desmatando a região para plantar palma. Três meses após o alerta dado pela entidade, a empresa foi flagrada em nova derrubada da mata, desobedecendo inclusive, uma moratória feita pelo governo da Indonésia, que proíbe o uso de novas áreas para o cultivo da planta. As imagens de satélite obtidas pela organização ambiental mostram que houve uma redução da floresta de 420 hectares em junho de 2016 para meros 88 hectares em abril de 2017.

Habit ameaçado

No chamado Ecossistema de Leuser, que engloba uma área de 2,6 milhões de hectares, está a maior floresta tropical da Sumatra. Declarado como Patrimônio Natural pela Unesco, nele estão localizadas duas cordilheiras de montanhas, três lagos, nove sistemas de rios e três parques nacionais. O local é habitat de 200 espécies de mamíferos, dezenas delas endêmicas dali, ou seja, não são encontradas em nenhum outro lugar do planeta. Dos 6 mil orangotangos restantes na Sumatra, 90% estão em Leuser. Só elefantes, que usam Leuser como um corredor migratório, estima-se que 35 foram mortos entre 2012 e 1015. O desmatamento não só fragmenta o habitat destes animais, como os torna alvos mais fáceis para caçadores. A degradação da floresta aumenta ainda a ocorrência de incêndios.

Em três anos, dezenas de elefantes foram mortos em Leuser

A cadeia de fornecedores que faz negócios com a PT. Agra Bumi Niaga é responsável por 60% do mercado global de óleo do palma. “Estes fornecedores, e muitas destas multinacionais, se comprometeram publicamente a não utilizar óleo de palma vindo de áreas de desmatamento”, afirma Gemma Tillack, diretora de campanhas da Rainforest Action Network. “O fato de que é preciso que continuamente organizações ambientais tragam estas denúncias à tona é simplesmente inaceitável e mostra que estas empresas não estão – sequer – obedecendo à moratória imposta”.

Gemma ressalta que, além da proteção do meio ambiente, o que está em risco é a própria reputação e integridade destas marcas. “Se ações e políticas imediatas não forem tomadas pelo Desmatamento Zero, estas empresas serão lembradas como as corporações responsáveis pela destruição do Ecossistema de Leuser, o último lugar no planeta onde elefantes, orangotangos, rinocerontes e tigres de Sumatra viveram lado a lado”.

A derrubada da floresta ameaça a biodiversidade da região

Questionadas pelo jornal britânico The Guardian, que publicou o relatório da RAN, as companhias citadas deram diferentes respostas. Pepsico e Nestlé afirmaram que já começaram uma série de investigações para apurar se seus fornecedores estão realmente envolvidos com o desmatamento apontado pela ONG. Unilever admitiu que havia comprado óleo de palma de uma das empresas acusadas pela denúncia, mas pediu uma posição imediata por parte da mesma. McDonald’s negou qualquer envolvimento com as madeireiras e refinadoras presentes no relatório da organização ambiental e Procter & Gamble, Mars e Kellogs reasseguraram comprometimento com suas políticas de responsabilidade ambiental e social.

Denúncias sobre a produção de óleo de palma em áreas de desmatamento e a conivência de grandes multinacionais não são novidade. Há anos o assunto já aparece nas manchetes dos principais jornais do mundo. Em 2014, por exemplo, o Greenpeace fez uma acusação semelhante contra a Procter & Gamble.

Plantio sustentável

O oléo de palma, chamado no Brasil de óleo de dendê, é extraído do fruto de uma palmeira originária da África.

Previsões apontam que a demanda mundial por este óleo deva dobrar até 2020. Malásia e Indonésia são os maiores produtores. Globalmente, as plantações cobrem uma área de 11 milhões de hectares. Em nosso país, elas ocupam cerca de 40 mil hectares e grande parte da produção está localizada na região amazônica.

Em 2005, em parceria com outras entidades, a Rede WWF lançou “Os Princípios e Critérios para Produção de Óleo de Palma Sustentável”. O documento é um guia para que agricultores e empresas façam o plantio de maneira socioambientalmente correta e responsável.

Abaixo, segue a lista dos princípios:

– Compromisso com a transparência;
– Obediência à legislação;
– Compromisso com a viabilidade econômica e financeira de longo prazo;
– Uso de melhores práticas por produtores e processadores;
– Responsabilidade ambiental e conservação dos recursos naturais e da biodiversidade;
– Respeito aos direitos de empregados, indivíduos e comunidades afetados pela produção e processamento;
– Responsabilidade na implantação e desenvolvimento de novas áreas para produção;
–  Compromisso para melhoria contínua nas áreas-chave da atividade

Fonte: WWF Brasil

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Foto: Rainforest Action Network/Creative Commons/Flickr

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou em Zurique, na Suíça, de onde colaborou para diversas publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Info, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Atualmente vive em Londres.

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou em Zurique, na Suíça, de onde colaborou para diversas publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Info, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Atualmente vive em Londres.

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