Pele de peixe não é lixo, é matéria prima

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A cada três meses, dez mulheres transformam 100 quilos de pele de peixe em bijuterias, objetos de decoração, peças de artesanato, bolsas, cintos, chaveiros, capas de agendas e cadernos ou mesmo quadros. Os resíduos são coletados junto a pescadores, peixarias e restaurantes de Itapoá, no extremo norte do litoral catarinense. Onde quer que se trabalhe com a filetagem de peixes, lá vão elas, buscar sua matéria prima, evitando o descarte.

As peles mais usadas são de robalos, linguados, miragaias, betaras e pescadas, espécies marinhas comumente pescadas na Baía da Babitonga e arredores. As mulheres levam tudo para o curtume da Associação dos Curtidores Artesanais da Pele de Peixe de Itapoá (ACAPPI), onde contam com um sistema de decantação e filtragem dos produtos químicos, cujos efluentes são destinados a uma central de resíduos industriais.

“A cidade não tem sistema de saneamento e muitas famílias usam água de poço. Não podemos permitir nenhum tipo de contaminação do lençol freático, de jeito nenhum”, resume a presidente da Accapi, a socióloga Maria Alzira Coneglian Vianna. Há dez anos ela se aposentou em Curitiba e foi morar em Itapoá. Há seis anos, lidera a associação e produz suas bijuterias. Maria Alzira tem uma quedinha por brincos, anéis, pulseiras e colares de pele de peixe. “Cada uma de nós tem uma preferência ou mais habilidade para fazer um tipo de peça. Eu gosto das bijuterias”, diz.

A associação mantém uma parceria com o Porto de Itapoá, que se encarrega de destinar os resíduos do curtume a um aterro químico apropriado. Além disso, a empresa acaba de adquirir uma máquina para bater as peles (fulão), aliviando o trabalho manual das artesãs. E também oferece cursos de capacitação e design, organizados pela Acquaplan. “Cuidamos de parte dos projetos socioambientais do terminal portuário”, explica a oceanógrafa e educadora ambiental Giseli Aguiar de Oliveira, da empresa de consultoria. “Contratamos professores para aprimorar a técnica de curtimento, permitindo a fabricação de produtos mais ecológicos, e para melhorar a qualidade do artesanato, conferindo às peças identidade local”.

Um dos resultados mais visíveis desses cursos foi o aumento do número de mulheres dispostas a buscar uma renda complementar por meio do artesanato com a pele de peixe. “Várias associadas vêm e vão porque preferem trabalhar para os turistas nas casas de temporada, durante o verão”, comenta Maria Alzira. Mas, depois do curso, até algumas jovens se interessaram e aderiram ao grupo.

“Aproveitamos as peles para produzir um artesanato típico com uma matéria prima local”, conta a artista plástica e gestora cultural Neusa Lopes. Além de pintar quadros usando as peles como textura, ela ministrou o curso de design. Foram 30 horas entre abril e julho, com a participação de 30 mulheres. “Trouxemos a percepção do olhar. Procuramos reforçar o resgate da história, da memória, imprimindo o cotidiano de Itapoá nas peças, na figura do pescador com sua rede, da casa caiçara, da fauna local. Quem viu se emocionou porque se identificou. Agora ainda vamos trabalhar o acabamento, dimensionar melhor as peças, inclusive para que o turista possa levá-las facilmente na bagagem”, conclui.

Nos feriados prolongados e nas férias de verão, a população do município de Itapoá – 15 mil habitantes – chega a quintuplicar. É tempo das artesãs colocarem à venda o estoque de peças produzidas durante o ano, em barraquinhas montadas nas praças ou no centro comunitário. “Estamos começando a nos organizar para iniciar também as vendas pela internet”, comenta Giseli. “E somos chamadas para várias feiras em outras cidades, como Joinville”, acrescenta Maria Alzira.

Graças ao empenho dessas mulheres, o lixo da cidade tem menos resíduos de pele de peixe e os turistas têm mais opções de consumo de peças com um toque da cultura local.

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Fotos: Neusa Lopes e divulgação/Grupo Acquaplan

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

2 comentários em “Pele de peixe não é lixo, é matéria prima

  • 29 de julho de 2016 em 5:08 AM
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    Parabéns pela iniciativa estas mulheres de Itapoã e parabéns pela reportagem. Se eu quiser usar a pele dos peixes mortos que ficam na beira d’água aqui na praia de Ipanema RJ onde moro, eu conseguirei fazer isso de modo corriqueiro e manual ou terá que comprar uma máquina (fulão) de difícil manuseio? E o meu propósito é fabricar brinquedos e não bijuterias, parecidos ao menino costurando a rede e a gaivota (primeira e terceira foto). E também almofada, lençol e caixa. Caixa acho que seria só o ornamento, que nem quando você cola filtro de café pintado ou não na caixa de madeira. Abraços e muito legal esta iniciativa, são coisas assim que precisamos para sair do subdesenvolvimento.

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  • 1 de Março de 2017 em 3:49 PM
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    Nossa, que legal essa ideia! Precisamos de mais iniciativas assim. Reconhecer que podemos usar elementos da natureza para nossa vida em sociedade, sem que haja exploração demasiada da mesma. Fantástico! Sem contar que bijuterias artesanais/artesanatos são produtos que nosso povo mais sabe fazer! #feitoamão é bom, bonito e bacana!
    http://www.etsy.com/pt/shop/AlecrimDesign

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