Peixes fantasiados de lixo

exposição peixe na rede

A rede de pesca é também a cerca em que se emaranham os peixes. Eles são um lixo só. Em tons coloridos. Vibrantes. Carapaças de plástico que bem poderiam estar no estômago de nadadores sobreviventes à nossa inaceitável irresponsabilidade mergulhada em mares de poluição e sujeira. A obra iluminada chega até a ser bonita. Dependendo da luz a fotografia se mostra mais sombria. Em nossa dura realidade ambiental peixes engolem algo entre 12 mil e 24 mil toneladas de plástico dos sete milhões de toneladas que acabam nos oceanos, segundo pesquisadores da Universidade da Califórnia, em San Diego.

Como precisamos estatísticas para confirmar a absurda e surreal realidade, embora pareçamos imunes a elas, aí seguem mais números. Cientistas do Gyres Institute estimam que mais de 40% dos mamíferos marinhos e 86% das tartarugas marinhas têm plástico dentro deles. De acordo com estimativas da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), detritos plásticos matam 100 mil mamíferos marinhos, assim como milhões de aves e peixes.

Temos tantas estatísticas… Tantos dados deveriam soar algum alarme dentro de cada um de nós. Mas a impressão é que nos embolamos cada vez mais na nossa própria sujeira.  Não concorda comigo, Torsten Mühlbach? Você embaraça nossa raça ao gerar esse belo monte de lixo. Ao traduzir nosso ato.  Ao transformar a algoz poluição em criatura descartável.  Não seríamos nós a ter que sofrer nas nossas entranhas? Ou já não estamos sofrendo, ingerindo microplástico impregnado no estômago dos peixes que consumimos?

Lixo fantasiado de peixe. Um carnaval de resíduos de cestas, abadás, frascos de perfume, espelhos… Yemanjá, final de ano. O mar engole em seco nossas festas populares e culturais.

E mande também resíduos da pesca e das perdas acidentais. Lixo marinho fruto do completo descuido por parte da população que trabalha no litoral ou que frequenta e habita essas regiões. Em todo o mundo ouvem-se relatos de danos à fauna marinha causados por resíduos. Danos que podem ser químicos, físicos ou biológicos.  Mais do que óbvia, portanto, a importância do trabalho do artista alemão Torsten, que expôs sua obra no Festival de Inverno Tollwood, em Munique, no ano passado.

Engraçado que o trabalho continua reverberando dentro de mim e colocando minhocas na minha cabeça. Queria é ter uma cabeça de medusa, cheia de serpentes vivas, a mesma da mitologia…  Perseu lançou mão dela para transformar em pedra seus inimigos que não queriam deixá-lo casar com sua amada Andrômeda.  Olha que eu não hesitaria em transformar em pedra os inimigos do mar… Eu heim, você deve estar pensando…  Quer perguntar de onde saiu essa ideia de falar disso agora?  Pois é: não foi só da minha cachola, não. É que pesquisando mais sobre o trabalho do alemão Torsten Mühlbach, vi que em outras obras ele faz referência ao mito de Perseu para falar, olha só: de cowboys! Colocando tudo no liquidificador não sobra nem mocinho nem bandido nesse nosso mundo de irresponsabilidade com a natureza.

Para saber mais sobre o trabalho de Torsten Mühlbach acesse a página do artista.

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Foto: Marília Monteiro

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

Karen Monteiro

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

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