Peixe-espátula gigante é a primeira espécie declarada extinta em 2020

Nem bem começou e o novo ano já traz uma triste notícia para a conservação da biodiversidade: a extinção do peixe-espátula gigante, que não era visto desde 2009 em seu habitat natural, o rio Yangtzé, na China.

Os cientistas demoraram para confirmar seu desaparecimento porque aguardavam ter provas mais concretas. Liderados por Hui Zhang, da Academia Chinesa de Ciências da Pesca em Wuhan, escreveram artigo publicado na revista Science of the Total Environment para confirmar que a espécie Psephurus gladius não existe mais e que, provavelmente, foi extinta entre 2005 e 2010.

Conhecido como rei dos peixes de água doce, ele já foi muito comum no rio Yangtzé (o terceiro mais longo do mundo, com 6.300 km), mas a sobrepesca e a fragmentação de seu habitat o destruiram, mas não só. E não há qualquer esperança de reverter essa situação.

“Como nenhum indivíduo existe em cativeiro e nenhum tecido vivo é conservado para uma possível ressurreição, o peixe deve ser considerado extinto de acordo com os critérios da Lista Vermelha da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN)“, na qual a espécie figurava como em risco de extinção, desde 1996.

Pressão no rio Yantzé pode extinguir outras espécies

Os pesquisadores contam que o peixe-espátula era uma criatura impressionante e tinha um focinho grande e saliente, que lhe rendeu um de seus apelidos: xiang yu ou “peixe elefante” em mandarim. Era o maior peixe de água doce do mundo, podendo chegar a sete metros de comprimento.

Nos anos 70, ele era pescado regularmente no rio Yangtzé, mas tudo mudou quando uma grande barragem foi construída em 1981, a represa de Gezhouba, que bloqueou seus hábitos migratórios. Para se reproduzir, ele nadava rio acima, até os afluentes, e descia de volta para se alimentar.

Entre o ano da construção da barragem e 2003, o peixe-espátula foi visto apenas 201 vezes, com um detalhe: a maior parte dos registros são de antes de 1995. Em 1989, a espécie foi listada como um dos animais mais ameaçados do país, mas nada foi feito para impedir que o peixe-espátula desaparecesse, e ele foi visto, pela última vez, em 2003, quando uma nova barragem foi construída – a de Três Gargantas -, destruindo seus locais de incubação.

Por tudo isso, os cientistas acreditam que a espécie resistiu até por volta de 2005 ou talvez, o mais tardar, em 2010. Eles vasculharam registros de 1981 e realizaram pesquisas de campo em Yangtze e seus afluentes e lagos: nos rios Yalong, Heng, Min, Tuo, Chishui, Jialing, Wu, Han, e nos lagos Dongting e Poyang. Montaram redes de pesca para capturar espécies nessas hidrovias e pesquisaram os mercados de peixes locais para buscar evidências sobre pesca predatória. Identificaram 322 espécies de peixes, mas nenhuma delas era peixe-espátula.

Como destaca o artigo de Zhang e sua equipe, essa região tem mais de 40 cidades ao longo da margem do rio e sofre extrema pressão industrial desde 1950, com poluição crescente das águas. Hoje, representa 40% do PIB do país e sustenta 1/3 da população, por isso é urgente investir em esforços de conservação da fauna para evitar que o ecossistema do Yangtzé entre em colapso.

Ainda dá tempo de salvar o jacaré de Yantzé

Em seu artigo, os pesquisadores destacam que a perda do peixe espátula gigante chinês traz lições sobre como garantir a sobrevivência de outras espécies ameaçadas de Yangtzé.

É necessário investir em pesquisas frequentes naquela bacia hidrográfica que podem ajudá-los a identificar outras espécies em risco de extinção e que estão lutando para sobreviver. Antes da pesquisa realizada em 2017, a mais recente era de 1975!

Esforços de resgate devem ser realizados com mais rapidez. Boa parte do intenso trabalho realizado para salvar o peixe-espátula chinês começou depois de 2006, ou seja, provavelmente depois que o peixe desapareceu, ou já estava por um fio. Se a intenção era evitar sua extinção, o trabalho de resgate deveria ter começado antes de 1993, quando o peixe já estava na lista de animais em perigo de extinção – funcionalmente extintos.

Este é o caso do jacaré chinês (Alligator sinensis), que também vive no rio Yantzé, mas ainda pode ser salvo. Priorizar a sobrevivência das espécies que estão por um fio agora – antes que cheguem ao ponto de não retorno – pode ser a única maneira de salvar a fantástica biodiversidade do rio: existem mais de 70 animais aquáticos classificados como espécies que precisam ser protegidas. Só de peixes, o Yantzé já teve mais de 400 espécies diferentes, mas, como já contei, os pesquisadores encontraram apenas 322.

O pesquisador do Instituto de Biologia Evolutiva da Universidade Pompeu Fabra (UPF) e do Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC, na sigla em espanhol), Carles Lalueza-Fox, contou à reportagem do jornal El País, que esse tipo de alerta não o surpreende. “Temo que essas notificações serão cada vez mais frequentes e de certa forma mostram os limites dos esforços conservacionistas tradicionais”.

Ele destacou que, apesar de as águas dos rios chineses terem melhorado em qualidade nos últimos dois ou três anos, devido a esforços governamentais – como a proibição da pesquisa comercial durante dez anos -, a iniciativa chegou tarde demais não só para o peixe-espátula como, também, para o baiji, golfinho que vive no Yangtzé, declarado extinto em 2006, como tambem de outra especie de peixe: o sável chinês, em 2015.

Foto: Wikipedia/Creative Comuns / Ilustração: Muséum d’histoire Naturelle

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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