Pedras para vender mais de uma vez

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Era 2002, eu morava no Rio de Janeiro quando ouvi falar pela primeira vez do Lajedo de Pai Mateus, na cidade de Cabaceiras, na Paraíba. Estava no Cervantes, restaurante tradicional em Copacabana, comendo um sanduíche com abacaxi (que, a princípio, achei estranho, mas depois adorei) e formava, na minha cabeça, a imagem dessa extensa laje de granito que sustenta imensas rochas arredondadas.

O cara que me trouxe todas essas novidades, morador de Natal, capital do Rio Grande do Norte, tinha uma bagagem cultural e um gosto pela vida admiráveis. Acabávamos de nos conhecer e, no dia seguinte, participaríamos juntos de uma oficina para dividir experiências e discutir os caminhos para o desenvolvimento do ecoturismo no Brasil.

Além disso, compartilhávamos a paixão pela fotografia, o que, obviamente, nos aproximou ainda mais. Por alguns anos, mantivemos contato por e-mail, falando de fotografia e viagens. Coisa que, com o tempo, diminuía de frequência, até acabar de vez.

Mas o desejo de visitar o Lajedo estava, definitivamente, enraizado em mim. Levou mais de dez anos para que pudesse conhecer essa paisagem única, no coração do sertão nordestino. Meu amigo, que tanto incentivara aquela viagem, era reconhecido no local como o grande influenciador da sua conservação.

Em meio a uma realidade em que os granitos da região eram sistematicamente explorados, para serem transformados em tampos de pias muito longe dali, ele convenceu o dono da fazenda de que “suas pedras poderiam ser vendidas mais de uma vez”. Dessa forma, um projeto de ecoturismo converteu um provável futuro de degradação ambiental em uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), com um hotel fazenda.

Cerca de dois anos antes dessa visita à região do Cariri, no interior da Paraíba, eu voltava de uma expedição ao Atol das Rocas, que aportaria em Natal. Claro que pensei em visitar aquele amigo, que tanto conquistara minha simpatia. Nesse dia, estive em sua casa que, na verdade, é uma pousada das melhores na cidade! Nas paredes, vi suas fotos das praias e do sertão nordestino, sempre em preto e branco. Mas já não pude compartilhar da sua companhia, para uma boa prosa com aperitivos, na beira do mar.

A imagem que ilustra este post é para o Eduardo Bagnoli. O Lajedo que você tanto se esforçou para conservar e divulgar continua lindo! E segue sendo vendido mais de uma vez. Queria que estivesse lá para ver…

Agora, os dados técnicos da foto:
– Câmera Nikon D800
– Objetiva Nikon AFS 16-35mm f/4 VR @ 16mm
– Filtro Infravermelho Hoya R72
– Tripé
– Exposição: ISO 100, Abertura f/11, Velocidade 120s.

A natureza sempre foi uma paixão para Marcos Amend que, ainda adolescente, passou a observá-la também pelas lentes de uma máquina fotográfica. Assim, aliando o talento fotográfico à conservação do meio ambiente, há 25 anos viaja do Norte ao Sul do Brasil e pelos cantos mais remotos do mundo. Colabora com livros, revistas e bancos de imagens e realiza expedições, cursos e workshops de fotografia outdoor.

Marcos Amend

A natureza sempre foi uma paixão para Marcos Amend que, ainda adolescente, passou a observá-la também pelas lentes de uma máquina fotográfica. Assim, aliando o talento fotográfico à conservação do meio ambiente, há 25 anos viaja do Norte ao Sul do Brasil e pelos cantos mais remotos do mundo. Colabora com livros, revistas e bancos de imagens e realiza expedições, cursos e workshops de fotografia outdoor.

4 comentários em “Pedras para vender mais de uma vez

  • 9 de dezembro de 2016 em 5:00 PM
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    Marcos, eu sempre achei que não adianta apenas ler bons livros, acompanhar jornais, assistir filmes, estudar nas melhores escolas e conviver apenas com pessoas de alto nível intelectual para se ter uma boa bagagem cultural. A nossa maior bagagem depende da nossa capacidade de observação e de absorção dos aprendizados e conhecimentos que nos são oferecidos, seja pelo processo que mencionei no início, ou das nossas experiências, desde as mais simples até as mais complexas. E tem mais, não existem duas experiências idênticas nessa vida. De forma única, sempre estamos aumentando nossa bagagem, e ironicamente, isso nos torna cada vez mais leves. Você teve a felicidade de encontrar alguém de conversa interessante e agradável, que pelo jeito conseguia discorrer, com certa profundidade, sobre diversos assuntos, certo? Como a prosa fica mais intensa e rica com pessoas assim, né mesmo?! E que mais pedras sejam repetidamente vendidas milhares de vezes.

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    • 23 de dezembro de 2016 em 7:48 PM
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      Pois é, minha amiga! Tanta coisa pra ver nesse mundão, né?! E tanto mundão para tentar salvar no meio dessas andanças. Seguimos juntos nesse empenho. Beijos

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  • 11 de abril de 2017 em 9:18 AM
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    Caro Marcos, bom dia. Primeiramente muito obg pela sensibilidade de capturar uma imagem tão linda da nossa região! Meu saudoso Padrinho Eduardo Bagnoli era um entusiasta das Potencialidades do nosso Cariri. Não é atoa que estão concorrendo a nos transformarmos no segundo Geopark Internacional do Brasil. Meu nome é Djair Fialho afilhado do Bagnoli e quero manter contato com vc. Segue fone com whatsap 083 98779-6720, segue tbm meu site sobre a região dos Lajedos http://www.caririexpedition.com

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    • 30 de abril de 2017 em 9:45 PM
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      Olá Djair! Que privilégio ser afilhado do Eduardo. Ele realmente era um cara especial. E que legal que vive nessa região tão linda. Bacana demais o trabalho que faz por aí!
      Vou mandar uma mensagem no seu whatsapp e ficamos em contato.
      Abração

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