Pause, ouça e enxergue


Precisamos pausar. Pausar, ouvir, enxergar. Simples como isso.

Eu sei que o resto do mundo não ajuda, mas você também é o resto do mundo pra outra pessoa. Então, que comecemos por nós.

Pausar para respirar, profundamente e oxigenar velhas ideias que reforçam os mesmos estereótipos.

Um alerta aos desavisados: discutir o papel da mulher é uma verdadeira jornada antropológica, que esbarra em temas estrategicamente silenciados.

Opressão, submissão, escravidão, violência, abuso, desigualdade, sobrevivência, privação, intersecção.

Não dá pra falar de mulher sem que haja a intenção genuína de ouvir a outra, o outro ou a si mesmo. Mas digo ouvir atentamente, acolher novas perspectivas e buscar compreendê-las. Uma escuta comprometida com o aprendizado que reside no diverso, no singelo ou no complexo que é o pensamento humano e não com a resposta necessária que se pretende ofertar a ele.

Reconte suas histórias para si mesma, revisite memórias e honre o que nasceu disso tudo. A quem lhe confiar a possibilidade de exercitar a escuta, receba com disponibilidade e respeito.

Colocar-se como ouvinte presente, nos liberta incondicionalmente dos limites do nosso próprio campo de visão e nos leva a um entendimento de nós mesmos, do outro e da vida de maneiras significativamente mais complexas e esclarecedoras.

Todo homem toma os limites de seu próprio campo de visão como os limites do mundo
– Arthur Schopenhauer –

Passamos a nos comprometer com causas de impacto coletivo, nos percebemos privilegiados, cada qual a sua maneira, e nos reconhecemos responsáveis por coloca-los a serviço de uma sociedade mais justa e digna.

Pleitear a ocupação do mercado de trabalho e dos espaços públicos por mais mulheres, implica contemplar a história de mulheres negras, que como escravas circulavam abertamente pelas ruas e trabalhavam ininterruptamente em casa, na lavoura e onde quer que seus senhores ordenassem.

Ditar tendências, criar moda, debater a beleza e a estética também nos apontam para aquelas que são invisíveis na cadeia de produção ou se tornam reféns de padrões alienígenas.

A pobreza extrema, o analfabetismo e a falta de oportunidades também atingem com mais intensidade as meninas e mulheres. Atualmente, são mais de 31 milhões de meninas fora da escola ao redor do mundo, que invariavelmente acabam expostas ao casamento infantil, à manutenção da pobreza, à gravidez precoce e à violência doméstica.

Em cada assunto proposto é possível encontrar intersecções entre o papel da mulher, direitos humanos, desigualdade social, racismo, violência, resistência, homofobia e segue a lista.

E é justamente a escuta interessada que nos permite adentrar os terrenos dos quais não fazemos parte, nos habilitando a enxergar o mundo com lentes combinadas e de amplo alcance. Nos livra da ignorância intencional de viver enclausurado e asfixiado pelas nossas próprias ideias.

É isso: seguindo a pausa e a escuta, enxergamos.

A visão apurada e em constante libertação, nos engaja a tentar novos voos, comportamentos, leituras, relacionamentos e ideias. Nos encoraja a abandonar velhos hábitos e superar preconceitos.

Simplesmente nos apresenta novas cores e novos amores. Mulheres negras, brancas, de descendências e ancestralidades diversas. Mulheres lésbicas, bissexuais e transexuais que nos ajudam a entender que esse tal de “feminino” e “masculino” não passam de construções sociais, políticas e culturais que nos emancipam para propor e ajustar novas estruturas. Mulheres únicas que, em sua individualidade, têm o poder de se reinventar, questionar, colaborar e co-construir.

Essa combinação de pausar + ouvir + enxergar nos inspira na tentativa desafiadora e constante de internalizar sentimentos e sensações vividos por outrem. Na busca por sermos não somente tolerantes ao alheio, mas também acolhedores em suas mais diversas peculiaridades.

A esse exercício de buscar o outro e trazer o possível para dentro de si, eu dou o nome de empatia.

Mulheres, cis, lésbicas, trans, bi, homens, gays e quaisquer que seja sua identidade de gênero e orientação sexual: sejamos empáticos com nossas batalhas e com as do outro.

Na dúvida, pause, ouça e enxergue. O resto do mundo agradece.

Foto: Gabriele Garcia/Filipinas

Sonhadora, feminista e apaixonada por pessoas e histórias. Trabalhou por dez anos como advogada e em 2014 deixou o escritório para empreender o Think Twice Brasil, cujo primeiro projeto – Experiência de Empatia – foi uma viagem de 400 dias por 40 países para se aprofundar no aprendizado e identificação de soluções para desigualdade social e de gênero. De volta ao Brasil, está à frente do Instituto Think Twice Brasil e de projetos ligados à justiça social e de gênero.

Gabriele Garcia

Sonhadora, feminista e apaixonada por pessoas e histórias. Trabalhou por dez anos como advogada e em 2014 deixou o escritório para empreender o Think Twice Brasil, cujo primeiro projeto – Experiência de Empatia – foi uma viagem de 400 dias por 40 países para se aprofundar no aprendizado e identificação de soluções para desigualdade social e de gênero. De volta ao Brasil, está à frente do Instituto Think Twice Brasil e de projetos ligados à justiça social e de gênero.

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