Paulo Freire e o poder do conhecimento inspiram a escola de samba Águia de Ouro, que ganha seu primeiro título de campeã

Tem gente que ainda diz que Carnaval é o ópio do povo. Acreditam que os brasileiros se alienam nessa época, esquecendo as tristezas por umas horas de folia. Sim, ele ainda pode ser uma fuga da realidade. Afinal, nada como cantar e dançar um samba com energia pra exorcizá-la e desanuviar. Mas essa imagem simplista tem se diluído a cada ano. Hoje, não se contam apenas boas histórias da História do Brasil em seus enredos e alegorias.

Nas ruas e avenidas, em blocos ou nas grandes escolas de São Paulo e Rio de Janeiro, são escancaradas insatisfações, indignações, desejos, e também são feitos protestos. Este ano, os carnavalescos capricharam. Cantaram a desigualdade, o preconceito, a injustiça social, a violência, mas também a força e o pioneirismo das mulheres negras, a importância do conhecimento, entre outros temas engajados. E, de forma direta ou indireta – também em ótimas metáforas -, criticaram o “polêmico” governo de Bolsonaro.

As escolas Mangueira, Salgueiro e Viradouro (campeã) “causaram” no Rio. Na capital paulista, a Águia de Ouro homenageou o educador Paulo Freire no enredo, contando a evolução do conhecimento (desde a Idade da Pedra), ambos alvos constantes do presidente, de seus ministros e aliados. Sagrou-se campeã de 2020 – pela primeira vez! -, conquistando os jurados em seis dos nove quesitos – samba-enredo, harmonia, evolução, enredo, alegoria e bateria – deixando em segundo e terceiro lugares as favoritas Mancha Verde e Mocidade Alegre.

A disputa foi acirrada e decidida pelo júri na avaliação do último quesito: a bateria, que deu vigor ao enredo O poder do saber – Se saber é poder….Quem sabe faz a hora, não espera acontecer. O samba da Águia de Ouro fala da importância da educação e tem inspiração na música do compositor Geraldo Vandré, escrita em 1968, que se tornou um dos maiores hinos da resistência à ditadura militar.

No carro alegórico coloridíssimo dedicado ao patrono brasileiro da educação – reconhecido no mundo -, destaque para uma de suas frases mais famosas: “Não se pode falar de educação sem amor”. A arquibancada, comovida, respondeu repetidas vezes com “Viva Paulo Freire!”.

A escola ainda fez referência, em várias alas, mensagens sobre diversidade e pessoas com deficiência.

Quem foi Paulo Freire e qual seu legado

Declarado patrono da educação brasileira em 2012, Paulo Freire é reconhecido no mundo – recebeu o titulo doutor honoris causa em 48 universidades – e considerado por especialistas como um dos maiores educadores da humanidade. Mas desde os anos 60, ele é visto por brasileiros conservadores como inimigo do país.

Claro! A educação expande, leva as pessoas a pensarem, a refletirem sobre suas realidades, e isso não é bem vindo num cenário de obscurantismo e controle das ideias. Vejamos algumas passagens importantes de sua trajetória que nos fazem compreender Bolsonaro o persegue e desqualifica.

Freire nasceu em 1921, em Recife, Pernambuco. Foi o único, de quatro irmãos, que pode estudar. Formou-se em Direito, mas logo se apaixonou pela profissão de professor, trabalhando em universidades e também em pastorais da Igreja Católica. Era religioso, cristão.

Ainda jovem, aos 26 anos, já sabia que uma educação eficiente só seria possível por meio do diálogo com os alunos e suas famílias. E logo quis implantar tais ideias nas escolas ligadas ao Sesi, onde trabalhava na divisão de educação. Isso foi no final dos anos 40.

Freire também acreditava ensino que respeitasse o diálogo de igual para igual entre professor e aluno, e não “de cima para baixo”, em que só o professor tem o que dizer. Nos anos 50, com a modernização do país – o país flertava fortemente com a industrialização -, ele vislumbrou a possibilidade de um governo democrático. E defendia a participação do povo, mas, para tanto, também sabia que isso só aconteceria por meio da educação. Para sua sorte, encontrou, em Miguel Arraes, que era prefeito de Recife e, em seguida, se tornou governador, um aliado poderoso.

Arraes convidou Freire para desenvolver um projeto de alfabetização de adultos, que logo ganhou visibilidade e mais admiradores, entre eles o governador do Rio Grande do Norte, Aluizio Alves, que também contratou o educador para atuar em seu estado. Em 1962, o programa recebeu o apoio de um programa financiado pelos EUA. Foi, então que realizou seu experimento mais conhecido: a alfabetização de cerca de 300 brasileiros, em um curso de apenas 40 horas, na cidade de Angicos.

Seu trabalho inovador e com resultados muito eficientes e rápidos agradava muita gente, que via na ampliação de seu projeto uma forma de garantir a democracia em nosso país. Mas essa ideia não era uma unanimidade. Por isso, ele era chamado de comunista, o que ele nunca foi. Se dizia um socialista cristão, ligado à Teologia da Libertação, seguida apenas pela ala progressista da Igreja Católica.

Os anos 60 vieram e, com ele, a polarização politica e uma crise institucional. Sentindo um gosto de dèja-vu? Pois bem… em 1960, Jânio Quadros foi eleito presidente por uma base conservadora, mas renunciou ao cargo oito meses. A questão era que seu vice era João Goulart (conhecido por Jango), da ala trabalhista, e assumiu o poder depois de muitas disputas. Dejà-vu de novo? Parece, mesmo, que a história gosta de se repetir.

Três anos depois, a aula de encerramento do curso de Angicos foi marcada e dois convidados compareceram para conhecer os resultados do projeto: Jango e o general Castelo Branco, Comandante do 4o. Exército. Não é preciso dizer que o presidente se apaixonou pelo trabalho de Freire. Pouco menos de um depois, decretou o Plano Nacional de Alfabetização (PNA) e deu a Freire a missão de alfabetizar 5 milhões de pessoas. Detalhe: naquela época, analfabetos não podiam votar. Se o projeto desse certo, estes representariam 40% do colégio eleitoral, o que se preocupou os militares, claro.

O lançamento foi marcado para maio de 1964, mas nunca aconteceu. Em 1o. de abril, os militares deram um golpe de estado e o general Castelo Branco – aquele que conheceu o projeto de alfabetização em Angicos – se tornou o primeiro presidente da ditadura e extinguiu o PNA. Logo depois, Paulo Freire foi preso em dois momentos. Em setembro do mesmo ano conseguiu se exilar na embaixada da Bolívia e rumar para La Paz, mas o país também sofreu um golpe e ele teve que fugir de novo. Desta vez, para o Chile. Lá, trabalhou para o governo com um projeto de educação de camponeses. Foi lá que escreveu sua obra mais conhecida: Pedagogia do Oprimido, traduzida em mais de 20 idiomas e a terceira mais citada do mundo na área de humanas, segundo estudo divulgado pela London School of Economics, de 2016. 

Em 1968, a ditadura brasileira decretou o AI-5, fechou o Congresso Nacional e censurou os meios de comunicação. Como querem, agora, o presidente Bolsonaro e seus aliados. Mais dèja-vu.

No ano seguinte, Freire teve que fugir do Chile, também por causa de um golpe militar. O terceiro de sua vida. Foi para os EUA dar aulas na universidade de Harvard. Anos depois, mudou-se para Genebra, na Suíça, onde deu consultoria para o Conselho Mundial das Igrejas por dez anos, viajando a mais de 30 países.

De 1971 até 1979, liderou a fundação do Instituto de Ação Cultural (IDAC), promovendo campanhas por justiça social e desenvolvendo programas de alfabetização em diversos países, principalmente na África. Mais: defendeu processos de descolonização. Entendeu porque ele incomoda tanto?

Em 1979, veio a Lei da Anistia no Brasil, assinada pelo General João Figueiredo, que perdoou todos os exilados e presos políticos, mas também torturadores e militares. Iniciava-se o processo de abertura política. Paulo Freire voltou depois de quase 15 anos de exílio e foi morar em São Paulo. Deu aulas em universidades como a PUC e Unicamp, participou de ONGs. Em 1980, ajudou a fundar o PT.  A marcha pelas Diretas Já aconteceu quatro anos depois, mas a eleição ainda foi indireta. Tancredo Neves, um democrata que morreu antes de assumir a presidência e, em seu lugar, entrou um conservador: José Sarney. Era o fim da ditadura militar.

Veio a promulgação da Constituição Federal, em 1988, ano em que políticos de esquerda foram eleitos em diversas capitais, como São Paulo, onde Luiza Erundina venceu e chamou Freire para ser seu secretário da educação. Poxa, bons tempos… Morreu nove anos depois, em maio de 1997. 

Desde que assumiu a presidência do Brasil, em 2018, apoiado por extremistas de direita, Bolsonaro desfere ataques constantes a Paulo Freire e sua obra.

Parabéns à Águia de Ouro por escolher tema tão precioso para desfilar este ano. Paulo Freire deu sorte? Ou a alegria da plateia que assistiu o desfile e a decisão dos jurados são apenas manifestações do verdadeiro desejo do povo brasileiro?

A seguir, mais alguns momentos da alegria e do colorido contagiante de alas da escola no Carnaval paulistano.

Fotos: Divulgação/Águia de Ouro

Fontes: Águia de Ouro, Folha de São Paulo, G1, Nexo, Nova Escola, PUC

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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