Para lutar por uma causa, precisamos primeiro cuidar de nós mesmos


Uma vez, a Sheila Juruna, amiga indígena do Xingu, me falou: “Uma coisa é quando a gente escolhe a missão. Outra é quando a missão nos escolhe”. Tivemos esse papo em 2010, em plena luta contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte. E eu não fui escolhida, fui “convocada”, assim como a Sheila. A gente não parou para pensar no próximo passo sobre o que fazer da vida. Ele simplesmente caiu em nosso colo. E nos vimos ali, de frente para o rio Xingu numa noite estrelada, falando sobre esse chamado maior da alma: cuidar da Amazônia.

A certeza de trabalhar gerou em mim um sentimento de entrega tão, mas tão profundo, que exagerei. Porque quase tudo o que faço na minha vida é por ela. Pela Amazônia, eu já pedi demissão para me mudar para Manaus, já mudei para Belém, já fiz TEDx, já fiz o maior estardalhaço para conseguir dinheiro para poder estudar na Schumacher College, única faculdade do mundo que também falava a minha língua, trazendo espiritualidade para perto da ciência em questões relativas ao meio ambiente.

O caminho do autoconhecimento me levou à clareza do trabalho pela floresta, mas como quanto mais eu me conheço, mais sombra e luz eu vejo, a dedicação à Amazônia e à jornada de descobrir quem sou e o que vim fazer aqui fazem aniversário juntas.

Trabalhar por alguma coisa que você ama muito e que morre um pouco mais a cada dia devido à enorme ganância e ignorância alheias não é nada fácil. Muitas vezes já me vi sem forças, com tanta dor e raiva que não sabia se poderia continuar. Já cheguei a pensar por que raios eu não fiz outra coisa da vida. Lembrei que era tudo tão ok, tão sossegado e tranquilo trabalhar na sorveteria italiana, quando morei em Treviso, na Itália… mas, não! Missão é missão. Chamado da alma é chamado da alma.

Só que um aprendizado que venho interiorizando há um ano e meio é: “a missão é essa, ok, mas ela não pode ser um peso, um fator de sofrimento gigante, uma urgência desesperada”.

A ficha do quanto eu estava sofrendo caiu primeiro durante uma conversa que tive que com o escritor Charles Eisenstein. Eu estava em pleno início de campanha para fazer o meu crowdfunding, ele deu um depoimento para o meu vídeo e fui mostrar o vídeo para ele.

De repente, sem muitas explicações, fico de frente para ele e nos olhamos nos olhos por algum tempo, em silêncio. Sai de mim um choro profundo, copioso. Eu disse para ele que não aguentava mais ver a floresta morrer, que me pesava muito, que doía muito. Que era desesperador sentir que eu deveria fazer aquele mestrado porque ele me empoderaria para trabalhar melhor pela Amazônia e que eu não tinha o dinheiro todo para isso. Ele segurou minhas mãos, me olhou nos olhos e disse:

“A Amazônia não quer que você sofra. Ela quer que você seja feliz. Ela quer que você faça esse mestrado primeiro por você. Ela quer te ver leve. É assim que ela quer que você trabalhe por ela”.

Aquelas palavras me chacoalharam por inteiro. Comecei, aí, outra jornada de autoconhecimento. Voltei a caminhar pelo xamanismo com disciplina, tenho procurado ficar próxima de Sri Prem Baba e de sua sabedoria, fiz um curso de dez dias de meditação vipassana e tenho dado meu melhor para conseguir meditar até duas horas por dia.

Ao longo do caminho, anjos me guiam. Tem os que não vejo e os que vejo. De repente, aparecem para me ajudar a ter mais leveza, a encontrar de novo a força interior e o gás para continuar caminhando e espalhando a mensagem que a floresta quer que eu espalhe. E sempre lembro do Charles: antes de tudo, a Amazônia quer que eu seja feliz.

Hoje, posso dizer que estou bem mais leve e aprendendo a ter mais equanimidade ao observar os índices de desmatamento saltando. Se tudo o que faço é por ela, então chegou a hora de obedecer de novo: antes de caminhar pela Amazônia, caminho primeiro por mim. É assim que ela quer que seja. Sei disso porque a sinto.

Finalmente aprendi: primeiro a gente. Depois, a missão. Por mais maravilhosa e importante que ela seja. Porque a missão só vai para a frente quando a gente está bem. E estar bem não significa sem dores e só alegria. Estar bem é aceitar, de verdade, que o que está bom está bom e que o que não está, não está – e ok, vai passar, porque tudo passa. E, diante de qualquer cenário, sigamos sempre dando o nosso melhor.

Fazendo isso, percebemos que finalmente alguma coisa encaixa. Dá um alívio bom.

Primeiro a gente. Depois, a missão.

Fiquemos tranquilos.

Isso não é egoísmo. É sabedoria.

Foto: Greg Rakozy

Karina Miotto

Conectada com a força da floresta – guiada, protegida e inspirada por ela. Jornalista ambiental, educadora e fundadora do Reconexão Amazônia. Há mais de uma década tem se dedicado a proteger a Amazônia, onde morou por cinco anos. Mestre em Ciências Holísticas pela Schumacher College, Inglaterra, é formada em Educação para a Sustentabilidade pelo Gaia Education e Vivências com a Natureza pelo Instituto Romã.

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