Para estes meninos, preconceito não existe. Já imaginou o mundo assim? Nele, João Victor não teria morrido


Na mesma semana em que um garoto de 13 anos, pobre, foi espancado e morto por seguranças de uma franquia da rede de fast-food Habib’s em São Paulo, por puro preconceito, a notícia que mais viralizou nas redes sociais provou que tal sentimento não faz parte de nossa essência, ou seja, é adquirido, ensinado, promovido.

Como fazia sempre, o garoto franzino João Victor Souza de Carvalho foi ao conhecido restaurante de comida árabe popular, do bairro onde morava, para pedir esmolas e comida. Assim, abordava quem entrava e saia do estabelecimento. Alguns clientes se incomodaram com a presença do garoto e reclamaram à gerência, que acionou seus seguranças para resolver a situação. Não preciso me estender na história (que ainda teve outros episódios de intolerância durante a investigação) porque o final todos conhecem: João Victor foi espancado de forma violenta e morreu (Para saber mais, leia o relato da jornalista Patrícia Zaidan, para o site da revista Claudia)

A gente sabe que este não é um fato isolado, mas apenas um dos tantos episódios que acontecem todos os dias, pelo mundo. Nas grandes cidades, nas zonas rurais, nas escolas, nos hospitais, em lojas, nas ruas, em igrejas, nos ambientes ditos familiares e, claro, nas guerras. Intolerância fere, dói, mata. Principalmente mulheres, adolescentes e crianças.

Acontece por falta de amor, de empatia, de se importar com o outro. Por poder. Por falta de entendimento de que somos todos iguais, não importa a raça, a classe social, o dinheiro que se tem, a bagagem cultural, a ideologia. Mas um garoto de cinco anos, de Kentucky, nos Estados Unidos, sabe disso muito bem. Na verdade, ele, Jax, e seu amigo, Reddy.

Amigos desde pequeninos, os dois não se largam. Vão à escola juntos, brincam, fazem as lições, celebram aniversários e todas as datas importantes do ano. E foi por causa de uma brincadeira que os dois se tornaram conhecidos de muita gente, pelo mundo, de um dia para o outro.

A mãe de Jax, Lydia Stitih Rosebush, havia dito ao filho que ele precisava cortar o cabelo porque estava “muito selvagem”. Ele topou rapidamente, dizendo que, então, queria cortar o cabelo igual ao do amigo:  Reddy tem a cabeça raspada, é careca. Como sempre, aderiu à essa ideia com muita alegria, e o motivo foi revelado por ele em seguida: não via a hora de chegar na escola e ver a cara confusa da professora ao não reconhecê-los. Para o garoto, dessa forma, ela não seria capaz de discernir quem é um e quem é outro, já que sempre andam grudados. Só que Jax não levou em conta um detalhe: Jax é branco e loiro; Reddy é negro.

A atitude de Jax chamou a atenção da mãe. Em tempos tão duros, em que a intolerância impera – os Estados Unidos estão sendo liderados por um fascista escolhido nas urnas! –, ela compartilhou a decisão amorosa do filho em sua página no Facebook, que então tinha pouco mais de 300 amigos. Rapidamente, a história viralizou e ocupou as páginas de sites e jornais impressos pelo mundo. E a TV local registrou o corte de cabelo de Jax, na companhia do amigo querido. O vídeo pode ser visto neste link. Lá, totalmente de acordo com Jax, Reddy disse bem alto: “Jax sou eu! Eu sou Jax!”.

Em seu post, Lydia usou uma foto que ela tirou dos dois amigos no Natal (é a que abre este post) e escreveu: “Se esta não é a prova de que o ódio e o preconceito são ensinados, então, não sei o que é. A única diferença que Jax vê entre eles é o cabelo comprido”. E continuou: “Tenho certeza de que vocês veem a semelhança entre os dois”.

Inocência? Sim, claro! Os dois meninos ainda são pequenos, afinal. Mas isso não determina a atitude de Jax. Ambos foram criados em ambientes amorosos, onde não existe desigualdade, nem diferença. Jax e Reddy se amam. Só o amor é capaz de ver além do corpo, da cor da pele, do cabelo, de sentir o que o outro sente, de enxergar a alma. É o que o mundo precisa fazer, com urgência. De um pouco de inocência também.

Foto: Divulgação (abre) e Reprodução do vídeo

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Um comentário em “Para estes meninos, preconceito não existe. Já imaginou o mundo assim? Nele, João Victor não teria morrido

  • 13 de março de 2017 em 11:50 PM
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    Sobre as crianças…..Que lindo…..emocionante. Com certeza existe sinceridade e amor entre as crianças…mas aí vem o ser humano do mal e estraga tudo.Com certeza tem alguém que coloca maldade nesses coraçõeszinhos tão puros e inocentes ….Temos muito o que aprender com as crianças.

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