Para corpo e mente sãos, vá à feira!


Eu comia sadio e não sabia o porquê. Comia assim porque gostava, apenas. Mas novas fronteiras da ciência da nutrição e da neurociência revelam hoje que uma dieta bem variada, a partir de uma cozinha de mercado (com alimentos frescos, como ensina o chef Paul Bocuse) é grande aliada da saúde física e psíquica.

Desde a década passada, sabemos que a microbiota intestinal tem influência decisiva sobre inúmeras funções vitais, tais como processar nutrientes, eliminar toxinas, desenvolver vitaminas, treinar sistema imunitário etc. E que seu empobrecimento contribui, aliado a características do nosso genoma, para doenças e distúrbios dos mais variados, desde problemas mentais a câncer, desde alergias a Alzheimer, desde insônia a ansiedade.

A diferença é que pouco podemos fazer com nosso genoma, enquanto podemos interferir bastante com nosso intestino.

A microbiota intestinal é um ecossistema complexo – contendo 100 trilhões de bactérias, fungos, leveduras, viruses e protozoários – e chega a pesar até dois quilos em cada indivíduo, mais do que o cérebro. Podemos enriquecê-la de três formas: a mais rápida é com a inserção de um sistema pronto, ou seja o transplante fecal, técnica que ganhou holofotes recentes. Mas seus efeitos têm duração limitada. Outro instrumento é a ingestão de pró-bióticos: o mercado de suplementos com essa função – de acordo com a Global Market Insights – tem crescimento de 7% (9% na América Latina) ao ano e deve passar dos R$ 200 bilhões em 2023. É eficaz, mas consegue promover apenas algumas bactérias. A alternativa que se firma hoje é a dos pré-bióticos, carboidratos complexos que não conseguimos digerir – como se fossem fibras – mas que, em compensação, nutrem as bactérias.

A evolução da ciência, nessa seara, é tão recente quanto rápida, quase diária: a colunista Amy Fleming, do The Guardian, mapeou nada menos do que sete importantes estudos apenas nas últimas cinco semanas:  desde o impacto do chá preto como pré-biótico no controle de obesidade até aquele da biodiversidade intestinal na efetividade da imunoterapia para redução de tumores. O assunto tornou-se também destaque na principal conferência mundial de neurocientistas, na semana passada, em Washington. E na semana que vem a editora da National Geographic lança o livro A Revolução Psicobiótica – Comida e a Nova Ciência da Relação Intestino-Cérebro.

Na atual conjuntura de proliferação de pós-verdades, podem surgir crenças ilusórias em dietas ou ingredientes milagrosos para alimentar sua microbiota. Mas a ciência traz um entendimento muito interessante: são inúmeros os ingredientes com boa contribuição pré-biótica, de alho e cebola até aspargos e alcachofras, de cacau e banana até trigo e cevada, de feijão e lentilha… enfim,  o que garante a boa função pré-biótica não é isoladamente nenhum deles, e sim a rotação de todos eles.

Emma Beckett, nutricionista molecular da Universidade de Newcastle, encoraja a diversidade, evitando hábitos como o de comer sempre a mesma fruta. O impacto positivo nas boas bactérias se dá com a variedade sazonal, por exemplo, o que aumenta também a participação de ingredientes frescos.

Complementar pré-bióticos com pró-bióticos – o que inclui todo o leque de alimentos fermentados – também enriquece o microbioma. Já Philip Burnett, do departamento de psiquiatria da Universidade de Oxford, estuda a relação da microbiota com a depressão, e afirma que nada é mais efetivo de uma dieta variada. Opa, então vamos à feira?

Foto: Alex Abossein/Unsplash

Jornalista e cozinheiro, é diretor da OSCIP Amigos da Terra – Amazônia Brasileira e vice-presidente do instituto Atá. Autor de livros e ensaios sobre temas da sustentabilidade, alimentos e Amazônia, promoveu no Brasil a certificação socioambiental de alimentos. Em 2005, começou a desenvolver o conceito de valorização da biodiversidade a partir da gastronomia. Incentiva o aproveitamento total dos alimentos, especialmente os animais. É colunista do caderno Paladar, do jornal O Estado de São Paulo

Roberto Smeraldi

Jornalista e cozinheiro, é diretor da OSCIP Amigos da Terra – Amazônia Brasileira e vice-presidente do instituto Atá. Autor de livros e ensaios sobre temas da sustentabilidade, alimentos e Amazônia, promoveu no Brasil a certificação socioambiental de alimentos. Em 2005, começou a desenvolver o conceito de valorização da biodiversidade a partir da gastronomia. Incentiva o aproveitamento total dos alimentos, especialmente os animais. É colunista do caderno Paladar, do jornal O Estado de São Paulo

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