Para brincar com a natureza… de um jeito seguro

Quando promovemos vivências para curtir a natureza, é muito comum ouvir dos pais e professores a pergunta “lá vai ter mosquito?”. E rapidamente justificarem: “Porque, se tiver, eles acham melhor não ir ou então passar um repelente bem forte, pois somos alérgicos”.

Mas o que é “ser alérgico”?

Quando o mosquito pica, um pouco de sua saliva contendo anestésicos, anticoagulantes e outras substâncias que é injetada sob a pele. Imediatamente, nosso corpo reage e nosso sistema imunológico libera substâncias para nos defender. Essas substâncias elevam a circulação do sangue no local da picada e aumentam a quantidade de células protetoras, deixando a pele vermelha, inchada e coçando. Ou seja, quando acontece essa reação, é porque está tudo normal. É sinal de que nossa imunidade está funcionando bem.

Mas essa reação é muito variável, claro. Tem gente que fica muito incomodada com a coceira, ao passo que outras não sentem nada. Normalmente, nos parques e nas trilhas que costumamos frequentar, somos picados com muita frequência, mas consideramos isso normal e tolerável, frente às incontáveis vantagens de se expor ao ar livre.

A tolerância à coceira, além das características fisiológicas individuais, é também proporcional ao nosso estado de espírito; quanto mais calmos e concentrados, mais branda e suportável a coceira fica.

E o fato é que existem muitos produtos naturais que ajudam a acalmar as coceiras: vinagre, açúcar, casca de banana, babosa, cebola, limão, tomate, bicarbonato de sódio, mel, leite e óleos naturais como o de melaleuca e lavanda. Enfim, o que você tiver à mão dessa lista pode ser usado para diminuir a sensação desagradável da coceira. Mas vale lembrar que, mesmo quando não se utiliza nada, ela passa logo. Basta relaxar.

Mas, se você prefere usar repelente para evitar as picadas, evite os sintéticos, altamente tóxicos, facilmente encontrados nas farmácias, como Exposis, Off, Autan, entre outros.

A Icaridina, princípio ativo do Exposis, por exemplo, é recomendada pela Organização Mundial de Saúde, mas para atuar na profilaxia de algumas doenças que são transmitidas pelos mosquitos. É verdade que ela é considerada inofensiva, mas muito forte, por isso tem ação tão efetiva. No entanto, para conservar o produto, a indústria usa diversos tipos de parabeno como o metilparabeno, o propilparabeno, o etilparabeno e o butilparabeno.

Pesquisas sobre a ação cancerígena dos parabenos ainda estão em curso e, até agora, não têm resultados definitivos, mas só a suspeita de que pode causar câncer – foram encontrados traços de parabéns em câncer de mama – já poderia nos fazer mais cautelosos.

O parabeno é um disruptor endócrino e pode estar relacionado tanto ao câncer de mama como ao câncer de testículos e próstata. Os efeitos mais leves já registrados dizem respeito a alterações de humor e o desencadeamento de sintomas de ansiedade. Sua ação pode estar relacionada também a retenção de líquidos.

No Brasil, a ANVISA permite o uso de parabenos até certa quantidade, mas precisamos nos perguntar se o fato de estarem presentes em todo tipo de cosmético (exceto os naturais e veganos), a soma de cada um não ultrapassaria os limites recomendados. O princípio da precaução não seria fundamental, neste caso? O simples fato de haver suspeita sobre sua ação não deveria ser suficiente para querermos evita-los?

Somos adeptas do natural e de que enfrentar algumas picadas na natureza faz parte da experiência, mas se você prefere evita-las, use repelente natural. Uma receita muito comum é feita à base de cravo. Segue a receita: deixe 10 gramas de cravo da índia mergulhados em 500 ml de álcool de cereais, fechado em um recipiente escuro e colocado em lugar sem luz durante quatro dias. Depois disso, coe e misture com 100 ml de óleo de amêndoas ou outro óleo de sua preferência. Se quiser praticidade pra aplicar na pele, utilize um frasco com spray.

É curioso nos dias atuais os pais cuidarem tanto da “segurança” de seus filhos evitando que subam em árvores ou caiam dos brinquedos do playground, mas não se preocupam com a ação de longo prazo de substâncias sintéticas de ação colateral suspeita propostas pela indústria farmacêutica.

Para brincar com a natureza de forma segura é preciso buscar os caminhos que não impeçam a experiência direta nem causem danos a nós diretamente nem ao meio ambiente para a sua produção.

Foto: David Clode/Unsplash

Rita Mendonça

Bióloga e socióloga, é autora dos livros “Como Cuidar da Natureza” e “Conservar e Criar”, sócia-diretora do Instituto Romã. Ministra cursos, vivências e palestras para aproximar as pessoas do ambiente natural. Acredita que a criança é a natureza se tornando humana e, por isso, precisa conviver com ela para seu desenvolvimento sadio e integral.

Deixe uma resposta