Para a terapeuta Regina Favre, nossos corpos precisam se adaptar às transformações do país

Uma das pioneiras da psicologia do corpo no Brasil – que considera o ser humano como um todo: corpo, emoções e comportamentos interligados, como sendo uma coisa só -, a filósofa e terapeuta Regina Favre defende que a subjetividade não se produz apenas no mundo familiar, mas, também, no campo histórico mundial. Por isso, momentos como o que vivemos no país, “no qual a produção de diferenças é achatada por um discurso homogeneizador, que esvazia as forças de invenção das pessoas, fazem com que precisem reagir, criando modos singulares de se conectar aos acontecimentos“.

Influenciada pela Tropicália e pela contracultura dos anos 1970, Regina acredita que espaços terapêuticos são importantes para acolher as pessoas e ajudá-las a produzir novas formas de funcionamento para suas vidasambientes existenciais mais sustentáveis. Por isso, em seu Laboratório do Processo Formativo, realiza atividades em grupo, onde mapeiam-se vidas em meio à transformação das condições pelas quais passamos, são reconhecidos comportamentos que nos conectam a essa realidade em curso, buscam-se novas formas mais potentes, compartilham-se modos e ações, fortalecem-se modos de conexão e novas atitudes que permitem maior conexão com as forças de continuidade da vida.

Durante a ditadura militar, Regina deixou o trabalho com publicidade para ser hippie na Inglaterra e, ao voltar ao Brasil, introduzir o conceito de corpo, absolutamente necessário naquele momento para um recomeço na vida das pessoas, em plena destruição cultural pela qual passava o país. Incansável aos 78 anos, divide seu tempo entre a clínica, a pesquisa com meios audiovisuais, o ensino e a produção de textos e vídeos, que disponibiliza em seu site.

Regina não se considera uma ativista de multidões, mas acredita influenciar pequenos grupos que, por sua vez, reverberam diferenças. “Acredito na ideia de contágio. Cada pessoa que aprende como mudar sua vida, altera também seu entorno”, disse ao Mulheres Ativistas do Conexão Planeta.

Por que você diz que os corpos precisam criar novas formas de adaptação?

Vivemos um momento em que ambientes onde vidas cultivavam suas diferenças se desmancham por múltiplas razões e há um processo de homogeneização do país. A cultura midiática achata as pessoas. Diferentes gostos e estilos de vida estão deixando de existir. Há uma negação do corpo como singularidade de gênero, raça, modos de existir, uma normalização da volta ao século XIX no Brasil, na qual a produção da diferença é capturada. Mas, quando se pensa o corpo apenas como individual, deixa-se de considerar que os corpos são parte do processo evolutivo no planeta e são portadores de uma enorme capacidade adaptativa. E nós temos capacidade de conexão e produção de ambientes propícios para formar ambientes sustentáveis. Com isso, cria-se um campo fértil para prosseguir cultivando o novo.

Você trabalha com o conceito de processo formativo para que essa adaptação aconteça. Como foi o seu?

Venho de uma família de classe média, pai médico e mãe dona de casa, que prezavam a cultura. Minha mãe sempre leu muito, tocava piano; meu pai fotografava, fazia teatro. Cresci nesse ambiente. Descobri o existencialismo e desejava ser diferente da classe média brasileira moralista e apequenadora das vidas dentro da qual nasci. Quando via os franceses (Simone de Beauvoir, Sartre, Camus, os filmes de Jean-Luc Godard), sentia que existia sexo, política, risco, e que havia outras vidas diferentes daquelas destinadas para moças como eu. Estudei filosofia na PUC de São Paulo. Naquele tempo ainda não havia o curso de psicologia. Talvez, desde lá, desejasse lidar com as vidas das pessoas como passei a fazer a partir de uma certa altura da minha vida. 

Na universidade, tomei contato com a política, o cinema, a literatura, os movimentos sociais. Sempre fui uma garota rebelde que tinha uma vida escondida da família. Era uma garota solitária, sem pares. Aos 20 anos, meu par passou a ser um jovem suíço aventureiro que veio a ser meu companheiro e pai das minhas filhas. Com ele, aprendi a viajar. Viajamos muito pelo Brasil, isso me permitiu uma experiência que não se tinha na minha geração: conhecer o sertão, o Brasil profundo. E, ao me separar, descobri a contracultura e os modos alternativos de viver e trabalharO corpo, naquela altura, era o alternativo, a contracultura.

O que significou essa incursão hippie?

Aquela foi a pior época da ditadura militar, se se pode dizer isso, era o início do anos 1970. As pessoas já estavam perdendo as forças e a capacidade de conexão. Deixei as crianças com meus pais e parti para a Inglaterra. Tudo o que acontecia naquele Brasil, da tortura à cultura, havia me transformado. O movimento alternativo brasileiro trazia, em si, um valor corporal: nas relações, no comportamento, no visual, no despojamento, no fotografar os corpos, havia sexo, o rock e, ao mesmo tempo, o corpo era torturado e morto.

Diferentemente da França da época, para onde se ia para pensar, a Inglaterra era um lugar de novos comportamentos onde o corpo era celebrado a partir da nova cultura que vinha de Nova York e da Califórnia, com influência de Wilhelm Reich, do budismo e da psicologia humanística, com práticas do corpo que foram levadas para lá durante e no período pós-Segunda Guerra. Na Inglaterra, tomei contato com terapias corporais e a ideia política de que a transformação das vidas se dava pela transformação dos corpos. Participei intensamente desses ambientes, me submeti às terapias corporais que eram intensamente emocionais. Fiquei lá pouco mais de um ano, mas, quando voltei ao Brasil, foi ‘um antes e um depois’.

Como foi sua volta ao país, ainda na fase repressiva da ditadura?

Em 1975, o Brasil estava completamente esvaziado. Eu era alguém que parecia chegar de Marte. Com a pequena bagagem dessa cultura do corpo, comecei a participar da criação de um novo campo para essa classe média esvaziada de sua memória. O psiquiatra José Ângelo Gaiarsa ativava essa renovação com seu olhar sobre a sexualidade e no contato entre as pessoas, nos grupos terapêuticos. Quando parti para a Inglaterra, participava de seus grupos que acolhiam não só pessoas da classe média, mas pessoas que vinham de diferentes graus de comprometimento com a militância política. Na minha volta, Gaiarsa me convidou para desenvolver as terapias e práticas que propiciavam às pessoas a aproximação do corpo. Começou aí o difícil processo de corporificação no Brasil, um pais aparentemente tão corporal. 

Eu havia começado minha vida profissional como redatora em agências de publicidade, mas quando o capitalismo se implantou para valer com a ditadura, ficou muito difícil trabalhar para o consumo. Muita gente não permaneceu, uns optaram pela luta armada outros pelo desbunde. Fui para o desbunde e me desfiz de todos os sinais daquela vida passada. Na volta, comecei outra vida do zero. O corpo, que foi o centro das transformações das vidas nos anos do pós-guerra dos filhos da classe média sobretudo norte-americana, coube como uma luva no Brasil. Era tudo o que se precisava para recompor a destruição subjetiva na classe média. Trabalhei muito desde esse início desse processo formativo.

O que é, afinal, o processo formativo?

Participei ativamente do início de uma cultura psicoterapêutica do corpo em Sao Paulo e, portanto, do Brasil. Criei, junto com outras pessoas, espaços de ensino, vivência e estudo. Aos poucos, os grupos foram se diferenciando, cultivando diferentes autores e escolas, sempre internacionais. Fui criando, a partir nos anos 1990, meu próprio espaço influenciada por algo mais político que começava a acontecer no Brasil com a volta da psicanalista Suely Rolnik da França e com as vindas ao Brasil do psicanalista e filósofo francês Felix Guattari, desde os anos 1980. Fui criando um espaço próprio com alunos e colaboradores, buscando trazer para o campo do corpo um olhar e práticas que entendiam o corpo como um processo formativo, com grande possibilidade de singularização das vidas.  

Era uma proposta condizente com a visão do capitalismo global tal como compreendia Guattari, um capitalismo que agora não submetia mais as pessoas à exploração do trabalho, mas capturava o desejo das pessoas para modos de vida apresentados pelo mercado. Essa era uma grande diferença. Nessa altura, encontrei Stanley Keleman – artista, escritor e terapeuta independente de Berkeley, na Califórnia -, inicialmente através de seus livros e, em seguida, pessoalmente. Foi uma formação que durou bem mais de uma década. Ele era o criador de uma filosofia única do corpo, como um processo biológico subjetivo em produção constante, voltado para o futuro, para a corporificação de vidas em sua experiência singular. Isso era uma adaptação real dentro de um modo evolucionista de pensar. Keleman faleceu no ano passado. 

Cuidei da tradução de quase todos os seus livros para o português, dos quais o mais conhecido é a Anatomia Emocional.  Estive próxima dele até 2006, quando nos afastamos porque, para quem vive na Califórnia, não há necessidade de ser político em sua prática, basta ser ético. No Brasil, é imprescindível ser político. Não basta ser um corpo que convive com grupos e amigos, precisa sentir e agir como parte de um processo coletivo maior.

Todo processo terapêutico considera o ‘romance familiar’, conceito de Freud. Ativistas como Suely RolnikFélix Guattari trazem outro modo de pensar a subjetividade capitalista – o ambiente onde se formam os corpos e as vidas não é apenas o romance familiar, mas o ‘romance histórico mundial’. É com esse tipo de olhar que vejo as pessoas. A família faz parte, mas a vida de um corpo é se afastar paulatinamente do corpo materno. Alguns conseguem, outros não. A vida é conexão, desde as células. Somos parte do planeta e ele faz parte do pacote para percebermos nossos corpos. Cada corpo é um canal de vida que, quanto mais conectivo, mais potente.

Como você compartilha essas práticas, para além da terapia?

Produzo seminários e grupos de estudo e supervisão clínica sobre o pensamento formativo político que pratico em solo e com parcerias específicas, em paralelo com a clínica e os grupos de corpo. Meu trabalho é um observatório da classe média, da política, das mutações sociais,  dos comportamentos. Sou muito próxima de alunos e alguns professores das faculdades de terapia ocupacional de universidades públicas como USP, Unifesp e Unesp, que se ocupam com a saúde coletiva, suas práticas na interface da arte, clínica e política.

Contribuo bastante e há muito tempo para esse campo com o conceito de corpo formativo e político. Acabo de publicar um capítulo num livro pela Hucitec que se chama Pesquisar com os Pés – Deslocamentos no cuidado e na saúde. Produzido por professores e pesquisadores do Curso de Terapia Ocupacional da Unifesp de Santos. Sempre tive muitos pacientes e alunos desse mundo. Faço grupos, seminários e colaboro em projetos. 

Também disponibilizo conhecimento no site do Laboratório do Processo Formativo, sempre ocupada com a forma como se criam ambientes, como prosseguem se formando os corpos e como se produzem as narrativas. Corpos não vivem separados de ambientes. Como ajudar a perceber que a vida acontece em um campo maior?

Ser ativista não significa necessariamente lidar com multidões. Sou ativista em tudo o que faço aqui. Pessoas que vêm até mim mudam suas vidas e seus entornos. Acredito na ideia de contágio, prefiro um trabalho profundo com poucos. Por isso, atuo com grupos pequenos, mantendo contato próximo com cada um, como na terapia individual. É um trabalho de rede, de troca.

Edição: Mônica Nunes

Foto: Maura Campanilli

Maura Campanili

Jornalista e geógrafa, foi repórter e editora de cidades e meio ambiente na Agência Estado e na revista Terra da Gente. Trabalhou em ONGs como a SOS Mata Atlântica, Instituto Socioambiental e Rede de ONGs da Mata Atlântica. É autora e editora de livros e publicações socioambientais e autora do blog ‘Paulistanasp’ no qual fala de temas que lhe são caros: meio ambiente, a metrópole paulistana, literatura e feminismo.

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