Papa Francisco, entre os homenageados do Prêmio Chico Mendes de Florestania

Na semana passada, Ângela Mendes esteve no Vaticano, Itália, para entregar ao Papa Francisco o prêmio criado em 2004 para homenagear personalidades que lutam pelos povos da floresta e a inclusão social, ideais defendidos por seu pai, o seringueiro e ambientalista Chico Mendes, assassinado em 22 de dezembro de 1988, em Xapuri, no Acre.

O prêmio agracia brasileiros e estrangeiros que, com seu trabalho e ativismo, têm dado continuidade ao legado do maior ambientalista da América Latina, que ecoou a voz dos povos tradicionais e deu início à construção de políticas públicas de base sustentável.

Concedido pelo governo do Acre anualmente, o prêmio – composto por escultura Castanha de Bronze, criada a partir de madeira certificada, e o certificado de reconhecimento – foi entregue ao Sumo Pontífice, em audiência especial em 12 de dezembro, pela primeira dama do estado, Marlúcia Cândida, e Ângela, em “Louvor” por sua atuação humanista em favor do movimento global em defesa do meio ambiente e a encíclica verdeLaudato Si – Sobre o Cuidado da Casa Comum, lançada em 18 de junho de 2015.

“Foi maravilhoso o encontro com Papa Francisco”. Disse a ele que estava com Ângela Mendes, filha do líder ambientalista, para entregar o prêmio e que, ao escrever a Laudato Si nos encorajou a continuar a luta de Chico Mendes. E pedi que ele nos abençoasse”, contou Marlúcia à Agência de Notícias do Acre. Para ela, “o prêmio dado ao Papa tem importância mundial, para que todos compreendam as mensagens de Chico e de Francisco, para o hoje e o amanhã do planeta”.

Ângela completou dizendo que o encontro lhe trouxe ainda mais força para continuar defendendo os ideais do pai. “Mesmo para uma pessoa que não é católica, a sensação de estar num lugar onde as pessoas se conectam pela fé é algo muito intenso. Ver aquele ser com uma consciência tão forte e linda quanto ao nosso papel de cuidadores e cuidadoras deste planeta, fez-me ver que vale a pena tudo que fazemos pela mesma causa de um outro Chico, o Mendes”.

Para o Papa, ela pediu bênçãos para a Amazônia e seus povos indígenas e extrativistas depois de dizer: “Sou filha de Chico Mendes, assassinado por sua luta em defesa da vida e da floresta”. Contou que ele lhe deu um lindo sorriso “que enquanto eu viver jamais esquecerei”.

Também estiveram presentes à audiência: Zezinho Yube, titular da assessoria indígena, Colleen Scanlan Lyons, mestra e doutora em antropologia cultural pela Universidade do Colorado (EUA) e uma das homenageadas com o prêmio na edição de 2017, além das irmãs servas Maria Reparadora Nadia Padovan e Maria Augusta de Oliveira e o italiano Giovanni Moretti.

Para a antropóloga, a entrega do prêmio ao Papa Francisco revela a importância de se tomar uma posição forte sobre temas imprescindíveis no mundo, hoje, como mudanças climáticas, que tem um aliado na conservação das florestas tropicais e no desenvolvimento sustentável compreendido e adotado pelos povos da floresta.

“O Papa Francisco tomou essa posição no Laudato Si, depois mostrou seu alinhamento com a recente visita ao Peru e, hoje, com essa homenagem, reconhecemos sua liderança no estado do Acre, Brasil, na Região Amazônica, no mundo. Precisamos de líderes assim e as posições do Papa são inspirações para todos nós. Esse prêmio dado pelo governo do Acre tem muito significado – para o Acre e para a floresta Amazônica”, destacou.

O indígena Zezinho Yoube também viu com bons olhos essa aproximação: “Foi muito bom participar dessa audiência com o Papa e representantes de várias nacionalidades. Como indígena e integrante dos povos originários, é muito significativo esse encontro em prol da preservação da floresta. O Papa está puxando esse tema e, neste momento que vivemos no Brasil – de retrocessos aos direitos dos povos indígenas e dos povos da floresta – ele é uma pessoa muito importante. O governo do estado do Acre fazer a entrega do prêmio a ele é um reconhecimento do trabalho que vem fazendo e da ajuda que nos dará para a manutenção da Floresta Amazônica e dos povos tradicionais que vivem nela”.

Para viabilizar a viagem, a comitiva contou com recursos do programa REM (Programa REDD+ For Early Movers), em parceria com o Banco Alemão KfW, e a Força-Tarefa dos Governadores para o Clima e Florestas (GCF).

O Prêmio Chico Mendes em Xapuri

Chico Mendes nasceu em 15 de dezembro de XXX, em Xapuri. Por isso, como acontece todos os anos, esse é o dia da entrega do prêmio nas categorias internacional, nacional e comunitária. Este ano, a cerimônia foi realizada durante o Encontro Chico Mendes 30 Anos: uma memória a honrar. Um legado a defender, que celebrou seus ideais.

Com a presença do governador Tião Viana, de familiares do líder ambientalista – entre eles, a filha Elenira -, autoridades e representantes de organizações não governamentais, foram premiados:
– o alemão Helmut Eger, da ONG GIZ, como iniciativa internacional,
– o ex-presidente Lula, na categoria iniciativa nacional e
– a Associação Agroextrativista do Barão e Ipiranga (AAPBI), como iniciativa comunitária, rural e florestal.

Além destes, outros 30 ativistas que atuam em defesa da floresta e das pessoas que nela vivem são lembrados e homenageados com o certificado. A cerimonia aconteceu em frente à Casa de Chico Mendes, tombada pelo Patrimônio Histórico.

Lula está preso em Curitiba e, por isso, enviou carta de agradecimento que foi lida pela atriz e diretora Lucélia Santos, que é ativista ambiental e dos direitos humanos e colabora com o Comitê Chico Mendes.

Foto: Lucelia Santos (Foto: Gleilson Miranda/Secom)

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Deixe uma resposta