Pajés são feitos de sonhos

Assim que os homens foram criados por Mavutsinim – o criador de todos os seres na cosmologia xinguana -, houve um grande rebuliço na terra. Os peixes vieram de longe em um longo cortejo e se concentraram junto às margens do Morená, no rio Xingu, para homenagearem a criação. Nos céus, uma grande revoada de todas as cores e cantorias: a passarinhada também veio participar.

Bichos de todas as terras queriam ver de perto o que Taungui tinha aprontado.

A onça também se apresentou e, para homenagear a criação, lutou com o Poraquê a luta do Huka-Huka para mostrar para toda a bicharada que ela era poderosa. O peixe elétrico, danado que era, lhe aplicou um choque, e a onça revidou com suas garras e ambos caíram, cada um para um lado. Quamutí, ao ver a cara do Poraquê furada pelas unhas da “Pintada”, acabou aprovando e sentenciou: “Agora vai ficar assim!”

Um a um, todos foram chegando para se apresentar aos homens que acabavam de nascer. Os pássaros cerimoniosos trouxeram os espíritos que foram habitar os recém-nascidos filhos do Criador que, por sua vez, é filho do morcego e neto do Jatobá.

Assim como nasceram os homens, nasceram os pajés. Estes são escolhidos pelas forças da natureza. Os mamaés (espíritos) poderosos, que brincam ao redor da aldeia, os visitam em sonhos e os levam ao universo mágico da cura e da magia. Desde muito jovens, são escolhidos e seu destino selado pelos mamaés.

Pude conhecer muitos pajés em minhas viagens e, com eles, aprender muitas coisas sobre este mundo de magia. Assisti homens, mulheres e crianças serem curados e se levantarem da rede como se nada tivesse acontecido. Presenciei delicadezas e o poder destas pessoas predestinadas a ajudar o outro.

Pajés são pais de família, são pessoas de muita sabedoria e, hoje, estou aqui para homenagear três grandes irmãos, três grandes pajés que partiram para o mundo espiritual. Todos irmãos: Takumã, Kunoé e Sapaim Kamayurá.

Deixo aqui meu testemunho com imagens destes amigos que tive a feliz oportunidade de conhecer e com os quais pude conviver e aprender as boas maneiras dos homens verdadeiros.

Takumã Kamayurá


Era o mais velho dos irmãos, figura que me fascinava desde a mais tenra idade.

Kunoé Kamayurá


Conheci Kunoé em um dia de pescaria, durante uma longa caminhada junto com as crianças e os jovens. Todos guiados por Takumã, que logo tratou de me apresentar seu irmão que morava sozinho, às margens do rio Xingu, bem onde o rio Tuatuari deságua.

Sapaim Kamayurá


Ele acaba de partir em sua jornada para o mundo dos mamaés. Sapaim será lembrado por muitos – índios e não-índios -, pois saiu do Xingu para mostrar aos “civilizados” como os pajés curavam as pessoas. Um elo da floresta com as cidades. Ele ensinava aos caraíbas conhecimentos ancestrais e ajudava assim a quebrar as barreiras do preconceito.

Fotógrafo e documentarista especializado no registro de povos indígenas, bem como da arte, cultura e biodiversidade do país. Mineiro, desde 1986 realiza viagens para retratar formas de expressão cultural dos grupos étnicos brasileiros. Colaborador do blog Por Trás das Câmeras, Renato descreve o que chama de “Diário de Campo”. É autor ainda do blog Ameríndios do Brasil, mesmo nome do seu projeto de fotografia com os índios

Renato Soares

Fotógrafo e documentarista especializado no registro de povos indígenas, bem como da arte, cultura e biodiversidade do país. Mineiro, desde 1986 realiza viagens para retratar formas de expressão cultural dos grupos étnicos brasileiros. Colaborador do blog Por Trás das Câmeras, Renato descreve o que chama de "Diário de Campo". É autor ainda do blog Ameríndios do Brasil, mesmo nome do seu projeto de fotografia com os índios

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