Paineira, a árvore maravilha

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Como já escrevi aqui no blog, muitas são as árvores que marcaram a minha vida. Em cada momento, uma espécie diferente, de maneira especial, me ensinou uma capacidade ou um valor a partir da sua existência e presença. Cada árvore é única em sua identidade, energia e simbologia. Insisto, cada arquitetura – ou formato característico de crescimento de cada espécie – e formas únicas transmitem especial sabedoria se soubermos nos conectar ao aprendizado que transmitem.

Cerca de 10 anos atrás, as paineiras começaram a marcar minha vida. Ao passar um período de descanso no sitio do meu avô, que frequentei constantemente na minha infância no interior de São Paulo, reparei em uma árvore incrível beirando a estrada já perto do destino final. Porte grande, copa arredondada, tronco largo, com uma base incrivelmente assentada, enraizada no solo. Aquela base, quase como se fosse uma grande barriga e uma cintura sustentando toda sua grandeza, chamou muito minha atenção. Uma árvore de presença fenomenal, que não saiu da minha cabeça durante os dias que passei lá.

paineira-arvore-maravilhsa-2-533x800Na volta para a cidade, já no fim da tarde, parei o carro na beira da estrada e fui até ela. Estava sem folhas, sem flores, mas com frutos incríveis; seu formato lembrava abacates. Ao chegar mais perto, vi que ela tinha muitos acúleos – estruturas que lembram espinhos porém são somente superficiais sem conexão com o cerne – na casca e, no chão, haviam chumaços de uma fibra branca parecida com algodão.

Parecia um sonho, uma árvore que desprende “algodão” dessa maneira, deixando o chão à sua volta lembrar uma grande nuvem. Fiquei ali por um período até encontrar um fruto quase inteiro no chão, com todo esse “algodão” compactado e um pouco úmido. Quando cheguei em casa logo fui pesquisar mais sobre essa árvore incrível, nos livros e na internet.

A paina –  como chamamos a fibra que fica dentro do fruto – não tem comprimento fibroso suficiente para se produzir tecido, mas é muito útil para enchimentos de colchões, travesseiros, brinquedos e, até mesmo, coletes salva-vidas, já que não absorve água e flutua.

Paineiras atualmente são da família botânica Malvaceae – antes eram classificadas como da família Bombacaceae. Essa é uma família bastante grande com mais de 90 gêneros e 700 espécies, sendo que cerca de 400 dessas espécies ocorrem exclusivamente no Brasil. E, dentro desta família, encontramos o gênero do cacau, chichá, hibisco, malvavisco, monguba e muitas outras árvores e plantas conhecidas por nós. Também fazem parte destes números plantas de diversos portes e configurações – terrestre, aquática e rupícola, mas quando falamos do gênero da paineira, chegamos em seis espécies de árvores endêmicas no Brasil.

A Ceiba speciosa, ocorre em outros países além do Brasil e possui muitos nomes comuns que variam conforme a região: barriguda, árvore-de-lã, árvore-de-paina, paineira-rosa, paineira-branca, paineira-fêmea, samaúma, paina-de-seda, entre outros. Sua presença é quase materna, e não se trata de uma referência ao gênero feminino e masculino explícitos na sua flor, que possui tanto estruturas masculinas como femininas. Naturalmente, as paineiras e as árvores do gênero Ceiba são majestosas, acolhedoras em suas raízes e aconchegantes para nos recostarmos em seu formoso tronco e, muitas vezes, parecem barrigudas, como se estivesse gravida. São muito marcantes, tanto que, na mitologia maia, são reverenciadas como árvores sagradas.

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À esquerda, a linda flor de paineira de variedade branca ; à direita, flores da paineira-rosa. Elas florescem em épocas um pouco diferentes: a rosa, em meados de março, e a branca, já em maio. São flores bem grandes, quase do tamanho da palma da mão, e costumam ser visitadas por mamangavas e diferentes espécies de aves que se alimentam do seu néctar, além de polinizá-las

Esse fruto que trouxe comigo para a cidade, me proporcionou uma experiência memorável. A literatura sobre a espécie indicava: coloque uma peneira sobre o fruto aberto e leve ao sol, sem saber muito bem o que aconteceria fiquei atenta. Então, a mágica aconteceu: toda aquela paina soltou-se da casca e começou a voar. Um voo delicado, era uma dança com o vento. No meio de cada pequeno chumaço a pequena semente de uma nova paineira. Logo comecei a coletar as sementes que eram muitas e, no mesmo dia, coloquei todas elas para germinar. Cada duas ou três em um pote e, assim, começou o que hoje é o viveiro do Instituto Árvores Vivas, que dirijo: um lugar para experimentar a natureza desde as sementes.

Foram mais de 100 árvores que se formaram e muitas delas plantadas na cidade de São Paulo, inclusive em locais históricos. Outras tantas foram doadas para plantio em outras cidades. Outras ainda, plantadas em praças públicas ou canteiros de avenidas, não resistiram à manutenção dos matos e gramados. Mas as que resistiram, sempre que posso, vou visitar. Hoje, já são mais altas que eu – tenho 1,75 m – devem ter quase o dobro da minha altura na verdade; crescem rápido e são lindas. Admiro cada uma delas como se, de alguma maneira, eu tivesse sido uma mãe para todas.

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Paineiras chamam sempre minha atenção! Nos últimos dez anos, visito muitas delas. Quando florescem, presencio um dos mais lindos espetáculos na Terra.

Aqui, em São Paulo, existem muitas paineiras perto do Parque Ibirapuera e nos canteiros centrais do caminho da Lapa para o Parque Villa Lobos. Existia um grande grupo que morava nas margens da ponte da Casa Verde na Marginal Tietê, mas após uma obra de 2009, poucas sobreviveram.

Tem uma paineira que vive em uma das pontas do controverso Minhocão, de frente para a Praça Roosevelt, quase no final da Rua da Consolação. E uma outra, de flores brancas, no Largo do Arouche.

Na praça Duque de Caxias há muitas outras e, em cada praça e parque, certamente você pode encontrar uma linda paineira. Suas flores incríveis ou elas inteiras são inesquecíveis.

E onde estão as paineiras da sua cidade? Já se maravilhou com elas hoje?

Fotos: Juliana Gatti

Mestranda na área de Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável, sua pesquisa dedica-se a avaliar a influência da natureza na qualidade de vida de crianças e sociedade. Idealizou o Instituto Árvores Vivas em 2006, onde promove ações de conexão com a natureza por meio de apreciação, restauração e fomento da cultura ambiental.

Juliana Gatti

Mestranda na área de Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável, sua pesquisa dedica-se a avaliar a influência da natureza na qualidade de vida de crianças e sociedade. Idealizou o Instituto Árvores Vivas em 2006, onde promove ações de conexão com a natureza por meio de apreciação, restauração e fomento da cultura ambiental.

29 comentários em “Paineira, a árvore maravilha

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  • 9 de outubro de 2016 em 2:09 PM
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    Amei o seu post!! Aqui na cidade onde moro (cidade do Paulista – PE) tem muitas árvores Paineiras, elas são lindas. Sou estudante de Design Gráfico, e adorei ver a correlação entre design e a natureza que você fez. Parabéns!

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  • 8 de fevereiro de 2017 em 5:37 PM
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    amei ! lindo,lindo,lindo…

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    • 21 de fevereiro de 2017 em 7:45 PM
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      Olá Sonia agradeço sua visita ao blog e por ter apreciado o post escrito com tanto carinho!

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  • 18 de fevereiro de 2017 em 3:10 PM
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    na minha cidadezinha tem algumas paineiras, elas sempre me encantaram sem nem mesmo saber o nome delas, li seu depoimento, agora sei como elas são vou plantar algumas.

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    • 21 de fevereiro de 2017 em 7:43 PM
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      Olá Celina que bom saber que agora irá colher sementes e germinar muitas paineiras. Vou te dar a dica de tentar colher sementes de árvores diferentes e bem distantes umas das outras. Assim você consegue maior diversidade genética para fortalecer a reprodução da espécie. Sucesso no plantio!

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  • 9 de março de 2017 em 10:01 AM
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    Amei a descrição desta árvore.Ja sou seu fã.Temos uma na fazenda do meu sogro.

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    • 9 de março de 2017 em 1:11 PM
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      Olá José agradeço a visita aqui no blog! As paineiras realmente apaixonam…. Estão em época de flores agora! Aproveitem muito a presença dela na fazenda!

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  • 15 de março de 2017 em 10:27 PM
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    Paineiras sao sempre lindas, floridas, com painas, os espinhos … Já morei em uma casa que tinha uma enorme, maravilhosa
    Lendo seu post decidi plantar uma paineira em frente de casa … voce pode me indicar um local para comprar uma boa muda, bem desnvolvida, saudavel
    Resido em Campinas/SP

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    • 18 de março de 2017 em 10:03 AM
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      Olá Ceres, fico muito feliz em saber que com este texto, pude contribuir com sua intenção de plantio! Existem muitos viveiros no estado de SP e próximo a Campinas. Não conheço o CEASA de Campinas pessoalmente, mas pode ser uma opção. Outra opção é visitar viveiros próximos das cidades, sempre tem alguns em vicinais que conectam cidades menores no interior. Uma boa busca na internet pode lhe dar resultados também. A recomendação que faço é se comprar a muda em vaso, atentar para a raiz, percebendo se ela não esta embolada, pois muitas vezes as paineiras que crescem em vasos tendem a enrolar e isso pode fazer o crescimento ser mais lento quando plantada no chão. Desejo sucesso na procura de sua muda! Agradeço a visita aqui no blog.

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  • 2 de abril de 2017 em 9:36 PM
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    Olá. Aqui na minha cidade de Serrinha Ba. Tem uma Praça com muitas paineiras rosa. Estão floridas e lindas. Coletei as sementes o ano passado e fiz várias mudas. Estou esperando as chuvas para plantar aqui no meu bairro.

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    • 17 de abril de 2017 em 5:20 PM
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      Olá Jeane, que lindo saber desse seu empenho em acompanhar o ciclo de vida das árvores, coletar sementes, germinar… Desejo um lindo plantio de muitas paineiras por diversos pontos da sua cidade!

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  • 1 de maio de 2017 em 11:40 AM
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    Que bom saber que mais alguém as acha lindas, maravilhosas. Eu planto essas árvores há anos; plantei muitas, fiz inúmeras mudas para outras pessoas plantarem. Cuidar de uma árvore é fantástico, e vale cada segundo. Elas nos recompensam milhares de vezes mais. Aqui onde moro, por ser uma região bem quente, elas florescem em junho; quando você pensa que estão mortas, elas dão um show.

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    • 5 de junho de 2017 em 11:24 AM
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      Olá Vera que maravilhoso saber da sua experiência e cuidado com as árvores e paineiras em especial. Sim,saber apreciar o tempo das árvores é uma das maneiras mais belas de se conectar ao presente da vida! Agradeço sua visita e por partilhar sua vivência! Feliz dia Mundial do Meio Ambiente!

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  • 13 de junho de 2017 em 6:00 PM
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    Olá, achei uma muda de uma planta no jardim ainda pequena com 30cm.As folhas parecem com as da foto de uma paineira
    adulta, porem tem espinhos no caule e embaixo das folhas.
    Gostaria de saber se é uma paineira .
    Perto do jardim existe uma paineira adulta.

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  • 17 de julho de 2017 em 3:12 PM
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    Gostaria de saber se dá para utilizar o algodão da paineira para rechear almofada e travesseiro, procurei na rede e não achei nada que trate do assunto.

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  • 22 de agosto de 2017 em 7:41 PM
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    Olá Juliana, que bom ter encontrado esse artigo sobre as paineiras. Tenho a felicidade de ter uma árvore tão linda no quintal de nossa casa. E nesse quase final de inverno, há muito tempo vigiando as sementes (elas viajam para longe pela ação do vento), o fruto se abriu e caiu bem próximo do tronco. Pude então olhar com curiosidade a sabedoria da natureza que forma aquela fibra fina e delicada abrigando as sementes até que estejam prontas para tornarem-se outras lindas árvores. Fiquei encantada e estou cuidando das sementes que ali estavam para que reproduzam outras árvores. obrigada pelas dicas aqui registradas.
    Grande abraço, Emilia.

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    • 20 de setembro de 2017 em 1:53 PM
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      Olá Emilia, quanta alegria receber seu comentário e saber de seu cuidado com as novas mudas de paineira. Que elas possam crescer e serem apreciadas por muitas outras pessoas. Grande Abraço

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  • 12 de outubro de 2017 em 10:30 PM
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    Boia noite. Achei muito bom o que está postado. Tenho no sítio, que foi comprado pelo meu avó, em 1905, em Cachoeira do Sul, RS uma paineira, com circunferência de 3 metros e 40 centímetros. Que salientar que a Ceiba speciosa, é nativa do sul do Brasil e que não possui espinhos, são acúlios (não são estruturas do caule). Já doei dezenas de mudas.
    Carlos Daniel Schumacher da Rosa.

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    • 1 de novembro de 2017 em 1:08 PM
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      Olá Carlos como vai? Que feliz notícia saber do seu cuidado e carinho com esta paineira grandiosa que habita o sítio do seu avô! Uma riqueza certamente.. se tiver sementes dela e puder me enviar ficaria muito feliz em germinar e plantar filhas dela aqui em São Paulo. Grande Abraço

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  • 19 de dezembro de 2017 em 9:06 PM
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    Meu primeiro contato com essas árvores foi numa estação do BRT da Barra da Tijuca. Sempre as via nos canteiros desses ônibus mas não tinha muita curiosidade, a não ser pelos acúleos mas…um dia…vi os canteiros, as graminhas…as plantas a sua volta e até o passeio..todo branco, cheio de flocos voando, como se fosse neve caindo..e vi vários frutos abertos e outros ainda fechados, soltando os floquinhos..achei muito lindo, fotografei e filmei. Passaram-se alguns meses e eis que vejo as mesmas árvores com essas flores lindíssimas…no caso da cor rosa ! É claro que novamente fotografei e filmei.. e postei no Facebook perguntando se alguém sabia de que árvore eram aquelas lindas flores: Só duas pessoas acertaram! Mas eu..jamais esquecerei! Ela é majestosa…carismática..A Paineira me cativou!

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    • 26 de dezembro de 2017 em 6:42 PM
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      Olá Janice que experiência incrível de apreciação dessa linda e majestosa árvore. As paineiras são encantadoras, eu as considero como mães para mim. Do jeito que conta parece que elas lhe chamaram para essa conexão, mostraram o caminho do seu olhar e do seu coração para apreciar a existência delas e de suas estações. Continue cultivando esse amor e admiração pela natureza sempre! Feliz Natal e um 2018 inspirador!

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  • 8 de fevereiro de 2018 em 4:57 PM
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    Muito bom o artigo, em casa tenho um pé está com aproximadamente 6 anos. Gostaria de saber com que idade aproximadamente começa a florescer.

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  • 18 de março de 2018 em 5:22 PM
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    Olá Juliana. Assim como você tenho uma história com as paineoras. Meu falecido avô plantou algumas paineira numa fazenda onde foi administrador nos anos 1940. Ele faleceu em 1947 aos 68 anos. Nos anos 1960 , ainda crianca visitando essa fazenda, com meu pai conheci as peneiras plantadas por meu avo e um pouco da história de meus antepassados. Na ocasião eram árvores enormes. Esta imagem ficou em minha memória por muito tempo. Este ano adquiri um terreno nos fundos de minha casa e finalmente consegui plantar uma paineira que já está bem robusta. Adorei o artigo . Abraço

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  • 28 de março de 2018 em 12:06 PM
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    Olá Juliana bom dia! muito prazer em conhece-la ainda que só pelo post e foto,achei o teu post quando fazia pesquisa a respeito destas arvores, espero que você possa me esclarecer uma dúvida; moro bem do lado de uma destas arvores,na verdade ela está a mais ou menos 3 metros da divisa do meu terreno, e a minha preocupação é que ela esteja doente,
    pois todo ano caem todas as flores, que é normal, mas caem também todos os frutos, pergunta: isto é uma doença?
    Grato e até lá,Lázaro Paiva.

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  • 15 de abril de 2018 em 10:09 AM
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    Bpm dia
    No meu condominio tem uma paineira mais o sindico esta tentando fazer sua remoção infeslimente não faz as podas infeslimente e com a copa muito grande ouve uma quebra de galho cpm isso esta tentando a cortala gostaria de saner aual lrgão consigo que isso não se conclua
    A paineira estava antes do condominio deve ter uns 60 anos ou mais

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  • 27 de julho de 2018 em 4:58 PM
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    Paineiras… Ah, essa árvore maravilhosa! Eu chamo de ‘árvore do interior’, pelo simples fato dessa árvore estar presente em toda minha infância por onde passei. Além das “mamangavas”, os beija-flores também frequentam muito essa árvore na época da florada. Lindo seu post! Ah!!: Eu já plantei algumas paineiras ‘por ai afora’, sempre que tive oportunidade.

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  • 29 de julho de 2018 em 6:50 AM
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    Olá querida, seu post e lindo. Moro na Amazōnia, em Belém do Pará, aqui as paineiras são chamadas de Samaûmas ou mãe da floresta. Såo imemsas e seu caule, quando adultas, formam estruturas como quartos. As raizes såo enormes e percorrem metros e metros. Ao bater em seu tronco com uma madeira, produz-se um som que se propaga por toda a floresta ao redor. Dizem que os indios tem um codigo de comunicação utilizando estes sons.

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  • 2 de agosto de 2018 em 2:01 AM
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    Gostei muito, escreve com o coração, a tempos não vejo alguém falar de natureza de forma não paixonada meus parabéns você Juliana por si já é uma boa influência para crianças, muito sucesso!

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