Pacto da Moda: 32 empresas se comprometem a proteger o meio ambiente e a lutar pelo clima

A indústria da moda é uma das que mais causam impacto ambiental no mundo, não só por causa da quantidade de água utilizada em seus processos, pelas matérias-primas que utiliza, sejam naturais ou sintéticas, pelo uso de agrotóxicos, por causa dos tingimentos que poluem rios, mas também por conta do desperdício provocado pela sazonalidade. A cada estação, “você precisa de roupas novas”, afinal!

Mas, antes de prosseguir, abro, aqui, um parêntese: e o impacto social promovido pelas oficinas de costura terceirizadas, que atendem marcas diversas (chiques ou populares), em qualquer lugar do mundo, e mantêm imigrantes ilegais praticamente prisioneiros e adotam práticas análogas à escravidão? No Brasil, o aplicativo Moda Livre, criado em 2013 pela ONG Repórter Brasil, indica as marcas que têm esse crime em seu DNA. A ultima atualização foi feita em dezembro de 2018: há 38 marcas “sujas”, entre as 132 avaliadas pelo projeto. Por ser algo comum na cadeia de produção da moda, não poderia haver um pacto pelo meio ambiente, sem que as questões sociais estivessem contempladas. Mas parece que, por ora, esta questão foi esquecida por este grupo. Voltaremos a ela, em outra oportunidade.

Em abril deste ano, o presidente francês Emmanuel Macron convidou o CEO do Grupo Kering, François-Henri Pinault, para uma missão que parecia impossível, a priori. Ele deveria reunir as principais empresas da moda grupos e marcas de luxo, moda, esportes e estilo de vida, além fornecedores de matérias-primas e varejistas – com o intuito de se comprometerem a reduzir o impacto ambiental do setor no planeta.

Empresários desse segmento, em qualquer lugar do mundo, dificilmente conversam ou se tornam parceiros, muito pelo contrário: são geralmente conhecidos como rivais. Mas Pinault conseguiu reunir 32 empresas líderes da indústria da moda e têxtil em um movimento – Pacto da Moda – que vai deixar uma boa marca na história da moda.

São elas: Adidas, Bestseller, Burberry, Capri Holdings Limited, Carrefour, Chanel, Ermenegildo Zegna, Everybody & Everyone, FashionN3, Fung Group, Galleries Lafayette, Gap, Giorgio Armani, H&M, Hermes, Inditex, Karl Lagerfeld, Kering, La Redoute, Matchesfashion.com, Moncler, Nike, Nordstrom, Prada Group, Puma, PVH, Ralph Lauren, Ruyi, Salvatore Ferragamo, Selfridges, Stella McCartney e Tapestry.

Em agosto, pouco antes do encontro dos membros do G7, em Biarritz, na França, Macron reuniu os representantes dessas empresas no Palácio do Eliseu, em Paris, para lançar o Pacto da Moda, nas presenças do ministro da Economia, Bruno Le Maire, da ministra do Trabalho, Muriel Pénicaud, e da vice-ministra de Transição Ecológica e Inclusiva, Brune Poirson. Mas o documento – leia o texto na íntegra – só foi assinado em Biarritz, logo após o G7 (abaixo).

Assim, o Pacto de Moda estabelece objetivos compartilhados por meio dos quais as empresas participantes balizam suas práticas para reduzir o impacto ambiental. Vale salientar que muitas delas já adotam suas próprias estratégias ambientais. Essa união vem, então, fortalecer ainda mais as iniciativas independentes. A troca de ideias entre eles pode resultar no aprimoramento de soluções.

O Pacto se baseia nos princípios da Science Based Targets (SBT), instituição que define metas baseadas na Ciência e as fornece às empresas interessadas em reduzir suas emissões de gases de efeito estufa (GEE), focando suas ações em três áreas essenciais:
parar o aquecimento global: com um plano de ação que visa “zero emissão” de GEE até 2050, contribuir para manter o aquecimento global abaixo de 1,5 ° C entre hoje e 2100;
restaurar a biodiversidade: com base nas metas da SBT, contribuir para restaurar ecossistemas naturais e proteger espécies e
proteger os oceanos: reduzir o impacto negativo da indústria da moda nos oceanos por meio de iniciativas práticas, como a remoção gradual do uso de plásticos de uso único.

Tais compromissos estão sendo adotados juntamente com a implementação dos princípios da Economia Circular, como também de esforços pela educação ambiental da nova geração de designers, como também da disseminação de conhecimentos para a conscientização dos consumidores. A colaboração entre os setores – têxtil, de confecção e de varejo – é considerada como fundamental para o alcance dos objetivos do Pacto de Moda, assim como o apoio à inovação e a novas tecnologias que podem dar suporte à criação de materiais de baixo impacto, rastreabilidade, medição e monotonamente de impactos e resultados, como também formas obter investimentos em tais inovações.

A coalizão destas 32 empresas está aberta a novas adesões, já que se trata de um empreendimento coletivo por natureza . Basta que a empresa interessada queira ajudar a transformar fundamentalmente as práticas da indústria da moda, enfrentar os desafios ambientais da atualidade, que são gigantes.

Já sabemos, então, que o Grupo LVMH não poderá fazer parte do Pacto da Moda. Na semana passada, o dono desse conglomerado de luxo, Bernard Arnault, que é o homem mais rico da Europa, atacou Greta Thunberg, a adolescente ativista climática, que fez discurso emocionado e de grande impacto na ONU.

Para o equivocado Arnauld, as ideias de Greta são desmoralizantes. “Ela é uma jovem dinâmica, mas está se rendendo completamente ao catastrofismo. Acho que suas opiniões são desmoralizadoras para os jovens”. Com um detalhe: isto foi dito em um evento sobre sustentabilidade.

A indústria brasileira de moda também pode criar um movimento assim, não?

Foto: Desfile Prada e Pacto da Moda/Divulgação

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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