Oscar 2020: desigualdade de gênero e raça se destaca nos discursos da noite, que também teve protesto pelos indígenas brasileiros

Faz um tempo que o Oscar transformou-se em cenário perfeito para protestos políticos, sociais e ambientais. A cerimônia, afinal, reúne a elite do cinema e pode ser vista por milhares de pessoas ao redor do mundo. O tom cada vez mais engajado e político está no tapete vermelho, nos discursos emocionados dos ganhadores e é enfatizado pela escolha dos filmes e animações.

Este ano, a vitória de Joaquin Phoenix como melhor ator era tida como certa. Afinal, o filme Coringa e sua interpretação visceral e pontente o levaram a ganhar o Globo de Ouro e o Bafta. E mais um discurso politizado e muito humano também era esperado.

Pois o moço se supera a cada premiação. Ontem, foi ainda mais emocionante, como contamos aqui. Ele falou da importância de dar voz a quem não tem voz – negros, mulheres, LGBTQ, indígenas… – e que nos distanciamos do mundo natural. Fortaleceu todas as declarações da noite.

A desigualdade, tanto em termos de gênero como de raça, nas indicações da Academia foi bastante lembrada. Já na apresentação, os comediantes Steve Martin e Chris Rock contaram que nenhuma mulher foi indicada na categoria de melhor direçãoo mais importante do Oscar -, o que foi enfatizado pela atriz, cantora e bailarina Janelle Monaé.

No tapete vermelho, Natalie Portman desfilou seu protesto no casaco que usava (abaixo), de forma muito discreta: nele estavam estampados os nomes das diretoras talentosas ignoradas pelo júri da Academia este ano. Basta dizer que o belíssimo filme Adoráveis Mulheres – que trata do universo feminino e foi dirigido por Greta Gerwig – ficou fora do prêmio.

E os negros? Apenas a atriz Cynthia Erivo (na foto que ilustra este post e abaixo) foi indicada (mas não levou a estatueta pra casa) pela cinebiografia de Harriet Tubman, uma ex-escrava que se tornou abolicionista. Rock ironizou: “Cynthia fez um trabalho tão bom ao esconder pessoas negras em Harriet, que a Academia do Oscar fez com que ela escondesse todos os indicados”. Representou negros e mulheres, por isso a escolhi para ilustrar este post também.

A animação Hair Love compensou um pouco tanta ausência de negritude na noite. E ainda ala de representatividade de um jeito muito singelo. A animação de Matthew A. Cherry, ex-jogador de futebol americano, narra a história de uma menina que queria domar seu grande cabelo afro devido a uma ocasião especial, que o espectador só conhece quase nos últimos minutos. Para isso, Cherry invocou as habilidades de um pai amoroso – cheio de receios ao lidar com cremes e elásticos para essa missão -, tratando, assim, de outros temas relevantes.

Ontem, junto com Karen Rupert Toliver, produtora da animação, o diretor contou que o filme surgiu da vontade de ambos de “ver mais representatividade nas animações e normalizar o cabelo negro, com positividade”. Contou que se inspirou em vários vídeos de pais arrumando o cabelo de suas filhas: “Tinha uma alegria inerente nisso”.

Quando assisti Hair Love, lembrei exatamente disso. Há tempos tenho reparado em vídeos de pais com seus filhos: meninos que gostam de brincar de boneca, garotas que não curtem muito seus cabelos ou sua imagem… Há pais que as colocam na frente do espelho pra mostrar o quanto são lindas em sua estética (não importando o corpo) e sua essência. Muito inspiradores, mesmo. E repare como o personagem do desenho (abaixo) lembra Cherry (acima). Assista ao filme no final deste post.

Os indígenas brasileiros no tapete vermelho

O Brasil foi representado pelo polêmico documentário Democracia em Vertigem, de Petra Costa, que narra, em tom pessoal, passagens de “nossa jovem e frágil democracia”, destacando o impeachment de Dilma Roussef, que preparou o caminho para a ascensão do deputado federal Jair Bolsonaro à presidência do país. Este, desqualificou a obra, chamando-a de ficção, claro.

Petra foi à cerimônia acompanhada por integrantes de sua equipe e do fotógrafo Ricardo Stuckert, mas também da líder indígena Sonia Guajajara, a quem convidou para levar a luta dos povos originários para o tapete vermelho.

Ao passarem pelo famoso tapete, exibiram cartazes onde se lia “Chega de invasões às terras indígenas!”, “Nossa luta, sua luta” e posaram para fotos, o que colocou os povos brasileiros mais uma vez em destaque no mundo.

Desde o ano passado, lideranças estão empenhadas em dar visibilidade à situação de ameaça na qual vivem diariamente – com invasões e muita violência, legitimadas pelo governo Bolsonaro – e, por isso, têm realizado viagens para pedir o apoio de ativistas, políticos e governantes no boicote aos produtos brasileiros que são fruto de desmatamento e violência contra os povos da floresta. O Oscar foi mais uma forma de chamar a atenção para o problema.

Entre os cartazes, Petra exibiu a pergunta “Quem matou Marielle?”, lembrando dos quase dois anos da morte da vereadora e ativista carioca Marielle Franco. Antes de ser uma manifestação política, foi um protesto pelos direitos humanos. Um crime como este – em que uma pessoa pública foi executada a tiros devido a sua luta contra as injustiças e a desigualdade, e seus assassinos (mandantes e executores) nunca foram punidos – não pode ser esquecido.

A desigualdade social como tema

Petra perdeu o Oscar, o que não elimina a importância de ter sido indicada, para sua carreira e para o Brasil. Expôs uma crise política que não é “privilégio” do nosso país, mas dilacera sociedades em todo o mundo, exacerbando a desigualdade. Ganhou o documentário Indústria Americana, produzido pelo casal Michele e Obama, que revela diferenças entre as culturas americana e chinesa, a partir da abertura de uma fábrica em Ohio. E sua codiretora, Julia Reichert, fez um discurso político.

“Nosso filme é de Ohio, mas também da China, e poderia ser de qualquer lugar onde as pessoas vestem um uniforme e vão trabalhar para oferecer uma vida melhor para sua família. Trabalhadores e operários têm uma vida cada vez mais difícil. E nós acreditamos que a vida vai melhorar quando os trabalhadores do mundo se unirem”. Ao agradecer o prêmio, ela declarou um dos trechos mais famosos do Manifesto Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels (1948): “Trabalhadores do mundo, uni-vos!”.

O mais interessante é que, assim que o nome do filme vencedor foi lido, algumas pessoas que torciam contra extravasaram na redes sociais: “Perdeu, esquerdista! Fora comunista!” e frases desse tipo. Será a luta por uma vida justa e boa para todos os seres vivos na Terra, apenas da esquerda? Serão os direitos humanos possíveis apenas em governos progressistas? Essas pessoas e Bolsonaro nos dizem que sim. É dessa forma agressiva que alguns seguidores das redes sociais do Conexão Planeta nos chamam quando divulgamos e denunciamos medidas do governo que só promovem violência, supressão de direitos, ataques ao meio ambiente, que negam as mudanças climáticas, o direito à educação, à saúde. Sempre buscamos o diálogo, mas parte deles não quer conversar. Pena.

A desigualdade também está exposta no filme mais premiado da noite: o sul-coreano Parasita, que levou as estatuetas de roteiro original, diretor (Bong Joon-ho, foto acima), filme internacional e melhor filme. E é o primeiro filme em língua não inglesa a vencer nesta categoria. Expõe a diferença de classes de maneira muito perturbadora, misturando drama, escracho e suspense.

Parece que, apesar do poder do cinema de nos anestesiar e amenizar a realidade, estamos cada vez mais interessados em encarar a realidade cruel também nas telonas. Para buscar soluções. nos inspirar, nos cutucar. E celebrações como a do Oscar podem ser momentos interessantes para essas provocações, ainda mais porque também estamos nos divertindo ao acompanhá-la. Por isso, arremato este texto com uma das frases de Phoenix, nessa mesma noite:

Estamos falando da luta contra a crença de que uma nação, um povo, uma raça, um gênero ou uma espécie tem o direito de dominar, controlar e usar e explorar outra com impunidade”. Ele falava de TODOS os seres vivos. Todos.

Agora, fique com os sete minutinhos muito amorosos da animação Hair Love:

Fotos: Reprodução do Instagram e do Facebook

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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