Os reflexos do giro de fusca 63 por Porto Alegre


Ainda que não haja graça, ainda que a risada não nasça do nada, mesmo que o não milagre revele apenas inexistência do impossível acho que devemos seguir procurando o sentido dessas imagens que a vida nos traz de presente ou nos empurra goela abaixo. A minha sugestão é uma busca meio lúdica dessas respostas nas gotas de metal espelhado que chovem no chão ou nesse quase peão que rouba reflexo em giros terrenos intermináveis ainda que ali parados na exposição de Laura Vinci, no Instituto Ling, em Porto Alegre.

Fica lá olhando para o chão e balançando, dançando, adivinhando o ponto em que você se divide em três ou vira um compacto só, um nó de dó. Sem ré. Caminha para frente.

Internaliza contornos, só os dourados, de mapas que giram nos seus globos transformados em abajur por pura vontade de ter à mão os caminhos que iluminam a favor. Fura as bolhas de dor. Folhas e folhas cantando mais amor.

E faz um favor: quando estiver em Porto Alegre não deixa de visitar o Theatro São Pedro, que está completando 160 anos que tanta jornada pelas artes vem proporcionando. Se tiver a sorte que eu tive de assistir a um concerto da Orquestra de Câmara do teatro, com a Companhia Municipal de Dança de Porto Alegre, aí você vai sentir como o seu reflexo no espelho muda depois de acompanhar, por exemplo, a obra Pulcinella, de Stravinsky.

O balé conta a história de um rapaz aventureiro, amado por todas as moças do lugar e odiado pelos noivos delas. Teve sua estréia em 1920 com muito sucesso. O libreto e a coreografia foram criados pela dançarina Leônide Massine e os figurinos e cenários desenhados por Pablo Picasso.

Na tela acima Três Músicos, Picasso revela Pulcinella, tocando clarinete, um arlequim e um monge, todos personagens familiares na  Commedia dell’arte.

 No diluir da dimensão, na louca fragmentação do olhar em busca do todo possível, dou de cara no intervalo do espetáculo no Theatro São Pedro com a exposição Personagens, de Britto Velho.

Lá eu vi mais forma sem dimensão, mais cor para devorar, mais personagens insólitos para me observar. Ficaram ali passeando comigo pelo teatro.  Metamorfoseando encontro. Resgatando partes, esfacelando unidade…

 

No dia seguinte, fui visitar o que restou do Porto que dá nome à cidade, um lugar em que  a especulação imobiliária atroz está louca para esfacelar. Passeei por Porto Alegre num fusca 63. Quando cheguei em Curitiba, caminhando pelo bairro Portão, passo pelo Muma e dou de cara com vários fuscas no estacionamento. Uma confraternização para celebrar a vontade de um pouco mais de perenização no mundo do consumo e do objeto efêmero. Passageiro. Como é bom ser passageira. Bem faceira, ouvindo um motor reconhecido pelas lembranças. Infâncias.


Exposição de Laura Vinci – Todas as Graças

Data: até 21 de julho
Local: Galeria do Instituto Ling
Endereço: Rua João Caetano, 440 | Bairro Três Figueiras, Porto Alegre
Horário: segunda a sexta das 10h30 às 22h; Sábados das 10h30 às 20h
Gratuito

Exposição Personagens – Britto Velho
Data:
até 22 de julho
Local: Sala de Exposições do Theatro São Pedro
Endereço: Praça Mal. Deodoro, S/N – Centro Histórico, Porto Alegre
Horário: (em dias de espetáculo) terças, quintas, sextas e sábados a partir das 19h. Quartas e domingos a partir das 16h
Gratuito


Fotos: divulgação

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

Karen Monteiro

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

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