Os povos indígenas, nosso grande tesouro


Qualquer um que visite as pirâmides do Egito, as vilas em cavernas da Capadócia, as ruínas incas de Machu Picchu ou os templos Maias de Chichén Itzá volta transformado, imaginando como seriam estas populações, como elas trabalhavam, viviam, e o imenso conhecimento sobre a natureza, a astronomia, o clima e tantos outros campos.

Museus e centros de visitação nestes locais convidam o visitante a conhecer a língua, decifrar a forma de organização política e social e entender o vasto conhecimento destas populações e assim conhecer mais a si próprio, sua gente e seu território. Percebe-se que a identidade nacional é moldada pelo orgulho destes verdadeiros tesouros que são a história de suas populações originais.

No Brasil, temos igual tesouro, não é o futebol, o Carnaval, a feijoada, a caipirinha ou a Bossa Nova, mas a imensa diversidade dos povos indígenas. E com uma diferença importante: não são coisa só do passado, mas também do presente.

Apesar de toda a pressão de séculos que quase dizimou essa população, 800 mil índios de mais de 200 etnias e línguas distintas ainda resistem  e podem contar nossa história, dividir seu imenso conhecimento e nos ensinar a conservar o nosso maior patrimônio, a biodiversidade, a água e o solo.

Em 1612, o missionário Claude D’Abbeville descreveu como os Tupinambás relacionavam as marés às fases da lua, fenômeno que só foi explicado por Isaac Newton em 1687. No Rio Negro, há anos os Baniwa registram as alterações climáticas que estão percebendo no seu entorno, com um nível de detalhes que deixaria de queixo caído os cientistas do IPCC – Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, da ONU.

As imensas malocas dos Kayapó são uma aula de arquitetura e engenharia, e as intricadas armadilhas de pesca feitas de cascas e galhos pelos Enawenê-nawê, em Rondônia, ou pelos Kaigang, no Paraná, são uma obra de arte. Estes povos são a memória viva de quase 10 mil anos de história vinculada ao território brasileiro, esse é nosso grande tesouro.

Mais que nosso dever constitucional, mais que um direito destes povos, o reconhecimento e a demarcação de seus territórios precisam ser entendidos como a preservação de algo tão fundamental como a história de nossas próprias famílias.

Não podemos retroceder nesta agenda como tem sido verificado nos últimos anos por  meio de iniciativas do Congresso e do governo com a vergonhosa omissão de setores organizados da sociedade.

Para manter nosso grande tesouro, temos que retomar a demarcação dos territórios indígenas.

Demarcação Já!

Texto publicado originalmente no jornal O Globo em 26/4/2017 e também no Blog do Tasso

A foto abaixo foi feita pelo fotógrafo Renato Soares – que também assina a imagem de destaque deste post – durante mobilização no Acampamento Terra Livre, em Brasília, de 24 a 27/4. Logo em seguida, a polícia atacou os manifestantes com violência.  Renato criou o projeto Ameríndios do Brasil para registrar todas as etnias brasileiras e escreve sobre os índios em blog, aqui no Conexão Planeta.

Engenheiro florestal, consultor e empreendedor social em sustentabilidade, floresta e clima. Coordenador do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) do Observatório do Clima e colunista de O Globo e revista Época Negócios. Foi diretor geral do Serviço Florestal Brasil, diretor executivo do Imaflora e curador do Blog do Clima

Tasso Azevedo

Engenheiro florestal, consultor e empreendedor social em sustentabilidade, floresta e clima. Coordenador do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) do Observatório do Clima e colunista de O Globo e revista Época Negócios. Foi diretor geral do Serviço Florestal Brasil, diretor executivo do Imaflora e curador do Blog do Clima

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