Museus de Ciência: é possível torná-los seguros e sustentáveis no Brasil?

A história do Museu Nacional e sua trágica destruição no incêndio de 2 de setembro deste ano está contada em 72 páginas e 18 reportagens na edição de outubro da revista Pesquisa Fapesp, também disponível integralmente no site. O conteúdo especial apresenta a situação de outros museus de ciência do Brasil e do exterior e discute formas de gestão e financiamento que tornem os museus de pesquisas mais seguros e sustentáveis.

O incêndio destruiu boa parte da sede e do acervo do maior e mais importante museu de história natural da América Latina, sediado no Palácio de São Cristóvão, na zona oeste do Rio de Janeiro, residência oficial da monarquia brasileira até 1889. Perderam-se exemplares da fauna brasileira coletados no século 19, múmias egípcias da coleção do imperador Pedro II, fósseis de dinossauros e outros animais pré-históricos, além de artefatos de povos indígenas, alguns já extintos. O rico acervo antropológico e etnográfico será parcialmente recomposto com a ajuda de povos indígenas e associações populares.

Ao longo do mês de setembro, a equipe da revista realizou dezenas de entrevistas para resgatar a história do Museu Nacional e conhecer o que foi consumido na tragédia, além de identificar como devem ocorrer a seguir as etapas de recuperação, reconstrução do prédio e reconstituição de acervos. A destruição de várias coleções e o colapso parcial da estrutura interna do prédio devem afetar, em grau variado, as atividades de 89 professores e quase 500 estudantes de especialização, mestrado, doutorado e em estágio de pós-doutorado.

Um dos programas afetados é o de arqueologia, que perdeu laboratórios e possivelmente boa parte da coleção de artefatos e fragmentos ósseos humanos de um período que vai de 40 mil a 10 mil anos atrás – o mais famoso deles é o crânio de Luzia, o mais antigo remanescente humano da América do Sul, resgatado dos escombros. Outra área bastante afetada é a zoologia, que perdeu as coleções de insetos, aracnídeos e moluscos. Já o herbário, localizado em outro prédio, escapou ileso.

A tragédia de setembro motivou a visita a outras instituições semelhantes, conhecidas como museus universitários, que, de modo semelhante ao Museu Nacional, são centros de produção de conhecimento: promovem exposições, realizam pesquisas científicas e atuam na formação de pesquisadores.

Um deles é o Museu Paraense Emílio Goeldi. Criado em 1866 em Belém, no Pará, é o segundo mais antigo museu de história natural do país. Seu acervo de 4,5 milhões de itens está bem acondicionado em vários prédios de um campus distante do local de exposições. Mas, por falta de verbas, o acervo não está protegido como deveria de sinistros como um incêndio.

Em São Paulo, o Museu Paulista, mais conhecido como Museu do Ipiranga e ligado à Universidade de São Paulo (USP), está fechado desde 2013 por problemas estruturais no prédio e busca formas de captar os recursos necessários para a reforma e para garantir seu funcionamento pós-reinauguração.

Manter e preservar acervos grandes é uma atividade complexa e cara. Começa com a criação de ambientes com condições de segurança, iluminação e umidade adequados para a exposição e exige o trabalho constante de técnicos e especialistas de diferentes áreas para a conservação das peças.

Embora possa não ser viável para todos os museus de pesquisa, a parceria público-privada tem funcionado no Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, onde há cerca de 1.200 sítios arqueológicos com pinturas rupestres datadas de pelo menos 4 mil anos atrás. Ali, no município de São Raimundo Nonato, a Fundação Museu do Homem Americano mantém um museu para a exibição de ossadas e artefatos humanos encontrados na região. Em dezembro, planeja inaugurar em um munícipio vizinho o Museu da Natureza, com exposições focadas em material geológico, climático e dos animais que viveram no passado remoto na região.

Foto: Museu Nacional do Rio de Janeiro/Divulgação

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