Os 3Rs na produção de cinema e TV

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A produção de filmes para o cinema e programas de TV ainda é um universo pouco permeável aos conceitos de redução, reutilização e reciclagem, os 3Rs da sustentabilidade na gestão de resíduos. Em geral, o tempo escasso e o estresse de trabalhar contra o relógio levam os produtores a buscar os recursos onde quer que estejam disponíveis, sem dar prioridade à economia de recursos naturais ou à destinação dos materiais após o uso. Por isso, no início de 2015, após 30 anos como produtora das TVs educativa e comercial da Holanda, Els Rientjes decidiu fundar sua própria empresa – a Green Film Making – com a proposta de “levar a indústria cinematográfica para o futuro”.

“Eficiência é a palavra-chave”, diz Els, a bordo de um escritório localizado no futurista Eye Film Museum, de Amsterdam. “Chego às pessoas não só pela minha história, mas também pela mensagem, demonstrando que a produção com o máximo de sustentabilidade é possível e pode até economizar dinheiro”.

Na prática, Els usa seu conhecimento de produtora para fazer a ponte entre fornecedores e equipes de cinema e TV, apresentando soluções sustentáveis para cenários, locações e atendimento às necessidades das filmagens realizadas fora dos estúdios. Um dos primeiros fornecedores com os quais ela passou a trabalhar, por exemplo, é a Interface, uma empresa produtora de carpetes feitos a partir de redes de pesca recicladas. A empresa pode oferecer diversos produtos para os cenários de filmes, a preços competitivos, enquanto evita que velhas redes sejam descartadas nos mares, onde causariam impacto na vida marinha como redes-fantasmas.

Da mesma forma, um portfólio de recicladoras é colocado à disposição dos produtores, oferecendo opções para outros elementos de cenário, maquiagem e figurino. “Mostro que o produto não precisa ser feio para ser sustentável: as roupas podem atender às exigências da direção de arte mesmo sendo recicladas ou reutilizadas, tudo depende de como é feita a pré-produção, que é crucial para as escolhas”, observa Els Rientjes. Na maioria das vezes, os diretores não se interessam pela maneira como as coisas são feitas: eles querem resultados. “O trabalho da Green Film Making é procurar fornecedores que podem me ajudar a ajudar os filmes a serem mais sustentáveis”, acrescenta ela. “E depois da produção ainda discuto o que fazer com as sobras dos têxteis e de todos os resíduos que não são lixo”.

Até os serviços de alimentação e transporte dos atores e o fornecimento de energia podem ficar mais “verdes”. Para serem selecionadas, as empresas de catering (serviço de alimentação) precisam caprichar no R de redução: nada de talheres, pratos e copos de plástico ou isopor. O máximo de tolerância é com descartáveis de papelão, cujos impactos ambientais são menores.

No fornecimento de energia, a Green Battery oferece placas solares sobre rodas, capaz de garantir energia suficiente para a iluminação (com lâmpadas LED) em locações externas. O equipamento chega a 30 kVa no pico de produção e garante 10 kVa de energia contínua, além de armazenar eletricidade suficiente para 5 horas de produção, em dias nublados. Isso reduz o uso de geradores a diesel e suas emissões de carbono. Para felicidade dos responsáveis pelo orçamento, em média, cada bateria solar custa 85 euros por dia, contra os 135 euros necessários para alugar um gerador. Mas a melhor notícia vai para a turma do áudio: as baterias solares não fazem qualquer barulho! Já os geradores que elas substituem são absolutamente “escandalosos”.

Mesmo os banheiros químicos, utilizados por toda a equipe de externa, têm uma alternativa mais fácil de transportar, mais eficiente no consumo de energia e, sobretudo, mais econômica no consumo de água. Graças à ponte estabelecida por Els Rientjes, os WC-flex da empresa Locatiewerk já foram adotados por diversas equipes, em locações fora dos limites da capital holandesa. E os banheiros são transportados por carros elétricos, que também servem para o deslocamento de técnicos e atores, com redução no consumo de combustíveis fósseis e motores silenciosos (para a alegria dos técnicos de áudio, mais uma vez).

“Gosto de trabalhar com startups e recicladoras como a Interface”, conclui a diretora da Green Film Making. “Os jovens criadores das startups aceitam melhor as mudanças, são mais abertos a uma nova maneira de fazer as coisas. E estão mais interessados em filmes sustentáveis”.

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  1. A partir de seu escritório no futurista Eye Film Museum, Els Rientjes (foto de abertura) quer levar a produção de cinema e TV para um futuro com menos resíduos

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2. Carros elétricos fazem todo tipo de serviço nas locações externas

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3. Até os banheiros químicos usados pela equipe de produção são mais sustentáveis

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4. Silenciosos, os carros elétricos chegam até a entrar nas filmagens

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5. A Green Battery garante a iluminação com painéis solares transportáveis

Fotos de abertura e 1: Liana John
Fotos 2, 3, 4 e 5: Divulgação Green Film Making

Economia Criativa

Esta reportagem faz parte do Especial que apresenta uma série de 10 reportagens sobre reciclagem de resíduos na Holanda que realizei a convite do Ministério das Relações Exteriores daquele país. Lá, visitei empresas recicladoras que podem nos servir de exemplo e inspiração para o desenvolvimento de uma Economia Circular brasileira.

Saiba mais no primeiro post que escrevi – É hora de apostar na Economia Circular – e acompanhe os temas que fazem parte deste Especial:

1. Reaproveitamento de couro de sofás
2. Novas funções para velhas estruturas de aço
3. Colchões de espuma para isolamento térmico
4. A difícil arte de separar fibras têxteis
5. Os 3Rs no universo das filmagens (este post)
6. Lixeiras com eficiência máxima
7. Carga pesada no desmonte de navios
8. Reciclagem de eletrodomésticos
9. Do papel ao papel
10. Almere, uma cidade com meta Zero Resíduos

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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