Orquídeas em perigo: destruição invisível, extinção silenciosa

Orquídeas são, em sua maioria, epífitas (mais de 75%), que significa planta que vive sobre outra sem a prejudicar, mas não são parasitas. Vivem sobre galhos e troncos de árvores, e também sobre rochas (rupícolas) ou no solo (terrícolas).

No mundo, existem cerca de 30 mil espécies de orquídeas, que habitam todo o globo terrestre, com exceção dos polos e regiões desérticas e, nas florestas tropicais, está a maior concentração de espécies.

A Mata Atlântica é um dos biomas com maior diversidade de epífitas das Américas, sendo que, na maioria das vezes, as orquídeas são as mais numerosas entre as epífitas em ambientes úmidos tropicais, podendo também apresentar formas mico heterotróficas, rupícolas e terrícolas. Para entender a dimensão de sua diversidade, basta dizer que a família das orquídeas é constituída por cerca de 800 gêneros e aproximadamente 30 mil espécies, na sua maioria (75%) epífitas.

No Brasil, conhecemos mais de 220 gêneros e cerca de 2.500 espécies. Só na Mata Atlântica, existem cerca de 1.500 espécies e, destas, 750 ocorrem no estado de São Paulo.

Mas a grande questão a cerca das orquídeas, hoje, é que sofrem grande pressão antrópica devido à coleta indiscriminada, o comércio ilegal e a supressão de habitats. Por isso, elas estão entre as espécies de plantas mais coletadas ilegalmente em todo o mundo, apesar dos muitos esforços feitos para conservação, seja in situ ou ex situ (fora do lugar de origem), resgate, realocação, micropropagação, reintrodução de espécies e atividades de educação para conservação.

Orquídeas habitam nichos específicos, cada espécie depende de microclima ideal para se desenvolver com plenitude, incluindo, umidade relativa do ar, luminosidade, temperatura, ventilação, polinizadores específicos e a dependência da associação com fungos, conhecida como micocorriza, para germinação das sementes e desenvolvimento de novas plantas.

Na natureza, esse processo é lento e necessita de ambiente equilibrado para as sementes prosperarem, podendo levar até dez anos para a planta se tornar adulta e florescer, estando apta a se reproduzir e dispersar novas sementes. Sem um ambiente equilibrado isso não acontece.

As orquídeas estão entre as plantas mais cultivadas comercialmente em todo o mundo, seja por suas flores ornamentais, perfumes, propriedades medicinais, culinárias ou produção comercial de mudas, esse é um mercado que vem crescendo e movimenta bilhões de dólares ao ano.

Desde 2004, o comércio de orquídeas aumenta a cada ano, tendo saltado de US$ 376 mil para mais de US$ 10,8 milhões em 2013, acréscimo de 2782% em dez anos.

Mais de 95% das orquídeas comercializadas no Brasil é de espécies de híbridos (cruzamento entre duas ou mais espécies), produzidos em laboratório por semeadura ou clonagem. Em sua maioria, a produção nacional é dirigida para espécies estrangeiras e os principais gêneros propagados em larga escala são: Phalaenopsis, Dendrobium, Cymbidium e Vanda. Os únicos gêneros representantes com espécies brasileiras são Cattleya, Oncidium e Miltonia.

Existe também a produção de espécies nativas em menor escala feita por pequenos orquidários comerciais, voltados a atender o mercado orquidófilo de colecionadores, mas essa produção não alcança os grandes mercados e raramente chega ao exterior. A maioria das espécies podem ser compradas nesses orquidários, mas as pessoas preferem pagar menos e comprar as plantas coletadas do mato.

Soma-se a isso o fato de que a coleta de orquídeas selvagens não é computada, então, não se sabe ao certo quantas plantas são extraídas das matas e comercializadas ilegalmente, seja em feiras livres, na internet ou por outros meios. O que se sabe é que populações de orquídeas selvagens estão desaparecendo de seus habitats muito rapidamente. Mais rápido do que são descobertas.

Uma legião de colecionadores aficionados por novas espécies, raridades, descobertas, variedades albinas, entre outras, que não se importam com a origem das plantas, alimentam essa cadeia destrutiva. Cada planta selvagem coletada deixa de ser polinizada, gerar frutos e dispersar suas sementes para garantir sua reprodução e sobrevivência, colocando em risco a sobrevivência da espécie no habitat.

Muitos orquidários ditos “comerciais” compram plantas de coletores extrativistas e as colocam em cultivo até que a planta crie raízes e novas brotações e as colocam no mercado como se fossem cultivadas, ‘esquentando’, assim, o comércio dessas plantas.

Também é possível encontrar à venda pela internet, em sites e nas redes sociais, espécies raras, ameaçadas, que nunca foram propagadas em laboratório e não existem em coleções de conservação de Jardins Botânicos. Geralmente, elas estão disfarçadas, presas em tronquinhos e em plaquinhas de madeira.

Você não ouve tiros, mas existem “caçadores” por aí em busca das maravilhosas e ameaçadas orquídeas. A família de plantas que mais cativa apaixonados em todo o mundo, ruma à extinção silenciosa e desaparece gradativamente dos habitats naturais. A coleta dirigida (coleta focada em umas ou mais espécies), está levando muitas orquídeas a extinção local, se aproximando, a cada dia mais, da extinção na natureza.

O comércio ilegal de vida selvagem movimenta milhões de dólares em todo o mundo e não poderia ser diferente no lugar com a maior biodiversidade do planeta, o Brasil.

Mas é claro que orquídeas selvagens vendidas nas calçadas ou feiras, sem dúvida, não têm o mesmo apelo para sensibilizar pessoas e autoridades do que um filhote de Preguiça ou Sagui exposto numa gaiola. Triste fim para nossa rica e ameaçada biodiversidade.

Por outro lado, é bom ressaltar que há muitos orquidários comerciais fazendo um bom trabalho, propagando orquídeas por sementes ou clonagem, espécies nativas e exóticas, além de uma infinidade de híbridos. Essas plantas cultivadas são mais saudáveis que plantas selvagens e mais adaptadas ao cultivo doméstico.

Assim, procure sempre saber a procedência da planta antes de comprar. Não colabore com essa lamentável prática, não compre plantas coletadas. Procure saber sua origem e se foi propagada por sementeira, clonagem ou divisão de mudas.Não compre plantas com raízes e folhas quebradas, com líquens e restos de cascas de árvore aderidos às raízes, expostas em calçadas e feiras livres.

Quando você compra ou vende uma planta selvagem, desrespeita a natureza e quem dedica a vida produzindo plantas domesticadas, que impedem o comércio ilegal.

Para saber mais, leia a reportagem da National Geographic: Are Traders and Traffickers Winning the Orchid Battle? (Os comerciantes e os traficantes ganham a batalha das orquídeas?).

Abaixo, algumas imagens de meu arquivo que ilustram bem este artigo.

Marca deixada por extração ilegal de orquídeas no Parque Estadual da Cantareira, na capital paulista

Orquídeas nativas selvagens, coletadas das florestas, expostas em feira de rua, na cidade de São Paulo.
Entre elas, a ameaçada Sophronitis coccinea e diversas micro orquídeas.

Sophronitis coccínea

A orquídea da Mata Atlântica, Gongora bufonia recebe a visita do seu polinizador,
a abelha das orquídeas Euglossa sp. Notem o polinário da orquídea aderido ao dorso da abelha

Abaixo, duas espécies raras de se encontrar em seu habitat devido à pressão da coleta ilegal, mas que podem estar em sua casa:

Oncidium harrisonianum

Cattleya guttata

Fotos: Luciano Zandoná

Biólogo, mestre em Biodiversidade Vegetal e Meio Ambiente, é especialista em conservação de orquídeas e faz parte do Orchid Specialist Group da IUCN. Entre outras atividades, integra as equipes de Monitoramento e Resgate de Flora do Instituto de Botânica no Rodoanel Norte, e é responsável pela equipe de resgate de flora da Secretaria do Meio Ambiente de Guarulhos e também da coleção científica didática do Parque Estadual da Cantareira e do Legado das Águas

Luciano Zandoná

Biólogo, mestre em Biodiversidade Vegetal e Meio Ambiente, é especialista em conservação de orquídeas e faz parte do Orchid Specialist Group da IUCN. Entre outras atividades, integra as equipes de Monitoramento e Resgate de Flora do Instituto de Botânica no Rodoanel Norte, e é responsável pela equipe de resgate de flora da Secretaria do Meio Ambiente de Guarulhos e também da coleção científica didática do Parque Estadual da Cantareira e do Legado das Águas

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