Organizações criam soluções inovadoras para a venda de produtos da biodiversidade amazônica

Tenho trazido aqui muitas histórias de empreendimentos e negócios de impacto baseadas na valorização da sociobiodiversidade amazônica. São iniciativas incríveis, que valorizam a Amazônia em sua totalidade – seus povos e a riqueza que a floresta guarda.

Muita gente me pergunta como adquirir os produtos e serviços desses negócios. No entanto, um dos maiores desafios para quem trabalha desse modo é a falta de estrutura e os altos custos logísticos para adquirir insumos e escoar e comercializar os produtos.

Na semana passada, estive em Manaus participando do Lab Amazônia: Desafio Logística e Comercialização de produtos da Sociobiodiversidade da Amazônia. Promovido pela Plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA) e pela Climate Ventures, com apoio do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam), Centro Internacional de Agricultura Tropical (CIAT) e Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID). O evento reuniu pessoas de diversas organizações na busca por soluções: empreendedores de impacto amazônicos, empresas de transporte e logística, integrantes de organizações da sociedade civil e de empresas.

Ao todo, cerca de 40 pessoas se reuniram para buscar soluções a partir das seguintes questões: Como viabilizar ferramentas ou instrumentos de comercialização que permitam reduzir os custos de logística e comercialização para pequenos/médios negócios sustentáveis na Amazônia? Como uma rede de colaboração entre empresas de transporte, prestadores de serviço e outros atores estratégicos pode ajudar a reduzir os custos e aumentar a repartição dos benefícios para as comunidades, melhorando o escoamento de produtos locais? Como é possível criar mais valor para os produtos da sociobiodiversidade amazônica por meio de storytelling, parcerias comerciais e outras soluções que valorizem os impactos sociais e ambientais desses produtos?

Essas questões não são novas. Mas o que se pretendeu com o Desafio foi encontrar soluções novas para perguntas que já estão postas. A partir do início do funcionamento do Programa de Aceleração da PPA – que selecionou 15 negócios de impacto para apoiar ao longo de 2019 – as dificuldades de logística e comercialização foram apontadas como um fator determinante para o sucesso desses arranjos produtivos que envolvem empreendedores e comunidades que tiram seu sustento do uso sustentável de produtos da floresta Amazônica, tais como cacau, café, cupuaçu, açaí, peixes, pimenta, guaraná, borracha, mel, dentre outros.

Com base nisso foi lançado o Desafio, que teve como objetivo trazer diversos olhares que pudessem gerar soluções inovadoras para essas questões, contribuindo para o fortalecimento dos negócios de impacto na Amazônia.

Mariano Cenamo, coordenador executivo da PPA e responsável por novos negócios do Idesam, avalia que o evento superou as expectativas: “Saímos com oito protótipos de soluções, vários deles com próximos passos muito concretos. Várias conexões individuais foram estabelecidas, o que era também um dos objetivos aqui, gerar contatos entre os próprios participantes. Muita gente compartilhando ideais e aprendizados sobre logística, transporte, custos, entreposto, distribuição, várias soluções pensadas sob demanda. Especialistas em logística conversando com o empreendedor que está ali, penando para conseguir fazer o produto dele e pegando muito caro por transporte. E esses especialistas, com um estalo de dedos, já deram dicas e sugestões sobre como melhorar. Esses são os resultados imponderáveis que a gente esperava ver”.

Metodologia inovadora para encarar problemas como oportunidades

Usando uma metodologia adaptada dos Labs de Inovação Aoka, o Desafio baseou-se em um processo de ação coletiva para que líderes de diferentes setores compreendam melhor oportunidades e desafios e busquem soluções concretas, que possam gerar benefícios para as organizações e o ecossistema no menor tempo possível.

Antes do workshop de um dia reunindo todo esse grupo, realizado no dia 28 de junho em Manaus, foram feitas entrevistas com empreendedores e prestadores de serviços para compreender os principais gargalos e oportunidades, além da curadoria e engajamento de parceiros para construção das soluções.

A participação dos empreendedores que sentem em seu dia a dia as dores dessas dificuldades de logística e comercialização forneceu contribuições importantes para o desenvolvimento das ideias. Alguns deles já estão investindo em centros de distribuição em São Paulo para minimizar custos de envio dos produtos. Outros relataram usar diversos modais, entre balsa, carro, caminhão, para poder fazer chegar os produtos da sociobiodiversidade até outros mercados. O alto custo do frete complica o envio de pequenas quantidades, e pode chegar a 40% do valor do produto.

Comunicar a cadeia de valores envolvida na produção de itens da sociobiodiversidade foi outro ponto de desafio apontado pelos participantes. A construção de mercados de modo multisetorial, envolvendo produtores, consumidores, chefs de cozinha, nutricionistas, todo um ecossistema para consolidar uma demanda mínima, diminuindo custos para os grandes centros, foi também levantada

Em espaço aberto de ideação, os participantes apresentaram ideias para solucionar os desafios, buscando aglutinar as pessoas em grupos de afinidade, e a partir disso partiram para a prototipagem de oito projetos, cujos temas são variados: mapeamento tributário, envolvimento de empreendedores focados em soluções, criação de um grande centro de distribuição em São Paulo, valorização do mercado local, escalonamento da produção de borracha, ampliação e reaproveitamento de estruturas de frete, criação de uma marca forte que fomente a comercialização dos produtos amazônicos, aglutinação de plataformas que já existem num grande portal da sociobiodiversidade englobando vários territórios.

Cada grupo vai avançar em um plano de ação para promover a implementação de soluções que resultem em benefícios concretos para os negócios, visando sempre a redução de custos e de emissões de CO2, maior eficiência, otimização de recursos e aumento de benefícios paras as comunidades produtoras.

Daniel Contrucci, da Climate Ventures, diz que o potencial desse Desafio é muito grande: “São redes de redes, organizações que estão representando diferentes regiões da Amazônia, e o que está saindo aqui é um marco em termos de colaboração em prol de algo que é muito maior do que a própria agenda dessas organizações e iniciativas participantes, e que diz respeito a um futuro mais sustentável para a floresta. Resolvendo alguns desses gargalos e potencializando o trabalho desses empreendedores, institutos e organizações será possível criar um marco para alavancar essa economia da floresta viva e mostrar que é possível ter desenvolvimento e melhoria na qualidade de vida dessas populações valorizando um conjunto de ativos que essa floresta tem para oferecer ao mundo. Essa economia da sociobiodiversidade é uma realidade e tem potencial para colocar o Brasil em um outro patamar”.

Foto: 100% Amazônia

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colabora com a revista Página 22, da FGV-SP e com a Plataforma Parceiros Pela Amazônia, e atua nas áreas de meio ambiente, investimento social privado, economia solidária e negócios de impacto, linkando projetos e pessoas na comunicação para um mundo melhor

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