Organizações ambientalistas e de proteção animal são incluídas no programa antiterrorismo do Reino Unido

Na semana passada, o jornal britânico The Guardian teve acesso a documentos do programa de antiterrorismo do governo, Prevent, e encontrou os logotipos do Greenpeace, dos movimentos Extinction Rebellion (XR) e do PETA (proteção animal) listados junto com organizações extremistas de extrema direita e de supremacia branca.

Estas ainda dividem a lista com os movimentos de ativistas oceânicos do Sea Shepard, apoiado pelos atores Sean Conery e Pierce Brosnan (dois ex-agentes 007, no cinema) e o Stop the Badger Cull, apoiado por Brian May, guitarrista da banda Queen.

Todas são organizações pacíficas, mas foram incluídas num guia de 24 páginas produzido pela Counter Terrorism Policing, atualizado e distribuído em junho do ano passado, que é utilizado em todo o país no programa de treinamento de funcionários públicos que trabalham em escolas, hospitais, universidades e conselhos locais para que delatem suspeitos “radicais” ou pessoas com potencial para cometer atos de violência terrorista.

A delação é realizada em um portal on-line, monitorado por agentes de segurança da Ação contra o Terrorismo, sempre que essas pessoas treinadas suspeitem de qualquer indivíduo ou atividade. Clare Collier, diretora de advocacia da organização Liberty, especializada na defesa de direitos civis, declarou ao The Guardian que “as medidas antiterror do Reino Unido foram projetadas para cooptar trabalhadores do setor público, como professores, para espionar os jovens sob seus cuidados. Este guia, só aumentará a confusão e as pressões que eles enfrentam”. Olha o perigo!

Depois da reportagem publicada, a polícia declarou que “foi um erro que um guia explicitamente sobre extremismo incluísse a XR ao lado de grupos islâmicos jihadistas e de extrema direita. “Definitivamente, nosso foco não está em protestos legais ou em causas legítimas adotadas por ativistas em todo o país”, disse o coordenador-adjunto sênior do Counter Terrorism Policing, Dean Haydon, ao jornal. Ele também disse que o uso do guia estava limitado ao sudeste da Inglaterra.

O Prevent foi fundado em 2003 para identificar possíveis autores de atos terroristas e, após os atentados de 7 de julho de 2015, em Londres, que fizeram 52 vítimas fatais, o programa foi reformulado e aprimorado.

Caça às bruxas

Neste momento de tantos ataques à democracia, ao meio ambiente, à luta contra as mudanças climáticas – à Greta Thunberg – e aos direitos dos cidadãos, em tantas partes do mundo, a medida é vista, por críticos ao programa Prevent, como uma espécie de caça às bruxas.

A atuação de algumas organizações pode até ser radical – como as realizadas pelo Greenpeace e o XR -, mas variam conforme o tema e nunca promovem a violência ou atitudes extremistas. Portanto, não se encaixam nessa classificação. Em agosto do ano passado, por exemplo, ativistas da XR picharam a embaixada brasileira com tinta vermelha, em protesto contra a politica ambiental desastrosa de Bolsonaro. Isso aconteceu depois de alguns meses em que manifestantes tomaram as ruas do Reino Unido, quase que diariamente, para protestar contra a inação de governos para combater as mudanças climáticas.

Para Clare Collier, da Liberty, o documento do Prevent encontrado pelo The Guardian evidencia que os protestos pacíficos estão ameaçados. “Há muito tempo alertamos que a agenda de combate ao terrorismo do governo é uma das maiores ameaças à liberdade de expressão no Reino Unido. Se você é apaixonado por qualquer tema ambiental ou social desde mudanças climáticas, justiça social ou combate ao racismo -, hoje, corre o risco de ser rotulado de extremista e seus dados passados ​​à polícia”.

Ela acredita também que o documento “reforça as preocupações de longa data de que a definição incrivelmente ampla do governo para extremismo oferece cobertura policial para caracterizar atividades políticas não violentas como uma ameaça, além de monitorar e controlar qualquer comunidade que deseje”. Abre precedentes, claro.

E no Brasil?

No sábado, 22/2/2020, o ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, divulgou, em seu Twitter – sem nenhum comentário -, a notícia sobre a notícia que o jornal O Estado de São Paulo publicou a respeito da reportagem do The Guardian. Ele reproduziu a página impressa do jornal e não o link do site (veja abaixo).

A perseguição de Bolsonaro às ONGs em nosso país é conhecida. Quando teve uma oportunidade, as acusou de queimar a Amazônia por terem perdido “a mamata” do Fundo Amazônia, que seu ministro fez questão de destruir. Quem conhece essas organizações e como funcionava o fundo, sabe que ele mentiu, mas, em resposta, elas se uniram e divulgaram nota de repúdio às suas declarações.

Até agora, nenhuma organização ambiental ou de proteção animal se manifestou, por aqui. Talvez o feriado de Carnaval tenha atrapalhado. Mas, assim que tiver informações a respeito, complemento este post.

Foto: Greenpeace/Divulgação

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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