Olhos do além

Queria ver o que eles veem. Eles, os olhos das carpas. Se tivéssemos aquele cone que detecta a luz ultravioleta estaríamos vendo o quê? Tendo essa intimidade visual, saberíamos lidar melhor com esse vilão da luz? Usaríamos menos benzofenona e PABA do protetor solar que, em vez de nos proteger, aumenta os riscos de câncer?  Devidamente untados e prontos para ver reduzida a nossa vitamina D por falta do sol na pele limpa de produtos, chegaremos, enfim, ao mundo dos raquíticos da moda? Nossa… Que humor negro!

Tá bom. Vamos falar do violeta, essa cor que está presente no mundo místico. A chama violeta cura, dizem. Transmuta sentimentos mais densos por estar numa frequência de vibração mais elevada. Então, siga meu raciocínio: se o violeta tem o poder de transformar, de curar, o que não fará o ultravioleta? E não estou falando dos sistemas de purificação de água e ar que usam o ultravioleta. Ou dos monocromadores presentes nas cenas de um crime para obter provas forenses com a detecção de fluidos corporais, como sêmen, sangue e saliva.

O que instiga minha curiosidade e me dá inveja é imaginar o mundo enxergado pelas carpas. Vê ela mais tons no meu, no nosso invisível? O ultra, o que vai além, tem mais o quê? Por que nos foi negada essa viagem espectral? O que veem esses homens com olhos de peixe, de Buy Chaves?

No conforto e na angústia de saber que sempre há algo que não vemos, vou navegando na massa vil, seguindo essa correnteza da cidade que toma conta da cabeça e quase afoga. Sufoca.

Na ignorância cega, a boa desculpa com toques de frustração, nesse mundo em que o desvendar cheira mais à discreta e sutil podridão dos argumentos que boiam na superficialidade. Olhando as três raças de Buy me vem à cabeça uma frase comum que esses dias mesmo escutei e me deixou reverberando raiva: não, o Brasil não tem racismo. Já ouviu, não? Sempre usada, claro, por aqueles que carregam o preconceito estampado naquele olhar de peixe morto. Dê, céus, um olho de peixe bem doído para todos que caminharem por aí repetindo esse tipo de coisa. Só com muito sangue frio para suportar mais de três minutos de conversa.

Me transforme em pecilotérmico, por favor. Para respirar num mundo fluído e silencioso. Carpas, me emprestem escamas para me proteger, para escapar lisinho de certas situações…  Ou ao menos me empresta o pincel para criar olhos de peixe em mim, Buy.

Esse catarinense que consolidou sua carreira de artista no Amazonas é um autodidata. Buy Chaves tornou-se conhecido por suas pinturas inspiradas pelo povo e ambiente amazônicos.

Um ambiente que está em risco por várias razões, entre elas a inserção de peixes exóticos nos rios da região. A prática pode causar diversos danos irreparáveis. O cultivo da invasora tilápia, por exemplo, significa competição direta por recursos como abrigo, alimentação, ninhos, entre outros, o que pode levar populações locais de peixes à extinção.

Um sumidouro de espécies. Peixes para ficar na lembrança. Comecem os beijos de despedida aqui, lá… E além.

Obras: 1. Psicanalista Baré, 2. Sonho caboclo, 3. Solidão urbana, 4. O rei e a formiga, 5. Não identificada,, 6. Três raças, 7. Kiss me, 8. Beijo daqui. 

Fotos: Blog Buy Chaves e catálogo do artista

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

Karen Monteiro

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

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