Olhar e vigiar: como percebemos a infância?

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Como é chato ser criança hoje em dia”. O desabafo da avó, ao meu lado, consistia no fato de que seus netos pareciam estar sendo sempre monitorados. O que se observa nos dias atuais, ao contrário do que as gerações passadas viveram, é um nítido controle das situações de infância, uma vez que a supervisão às crianças é um sintoma social.

Para os norte-americanos, os pais que vigiam sistematicamente a vida dos filhos, são chamados de helicopter parents ou, em tradução livre, pais helicópteros. O termo, popularizado desde o início do século, designa aqueles pais que debruçam excessivos olhares às crianças durante a maior parte do dia (ou da noite), quando brincam, quando se relacionam com os outros, quando decidem o que vão vestir ou comer e, até mesmo, quando querem ficar sozinhas. Recentes estudos apontam que, pais demasiadamente envolvidos na vida dos filhos, podem prejudicar o desenvolvimento da autonomia e gerar transtornos afetivos, como estresse, depressão e ansiedade na criança.

Na tentativa de cercá-las de todos os cuidados e privá-las dos supostos perigos, pais e escola se alternam com a destreza de uma prova de revezamento. À medida que nos obstinamos pela ideia fixa da segurança, mais nos aparelhamos com recursos que monitoram as crianças diariamente, como se fossem suspeitas por sofrer ou cometer um crime. Em grande parte do mundo, o monitoramento eletrônico é uma realidade.  Desde espaços públicos aos espaços privados, a implantação dos sistemas de vigilância ganha legalidade.

No Brasil, algumas escolas justificam a instalação de câmeras sob o pretexto de garantir a segurança e diminuir a violência e o vandalismo, uma vez que, segundo o art. 7º. da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), “possuem autonomia administrativa e operacional para se organizar”.  O fato é que o recurso do monitoramento pedagógico é oferecido aos pais como um diferencial, amparado na falsa ideia de que a família, desta forma, se aproxima da vida escolar de seus filhos. Irônico é pensar que muitos pais acreditam nesta aproximação virtual, em tempo real, como forma suficiente de estar perto dos filhos.

É comum confundirmos a ideia de “olhar uma criança” com a necessidade de vigiá-la. Enquanto a primeira alternativa só é válida segundo a condição de liberdade, a segunda aprisiona, cerceia. A queixa da avó, saudosa de sua infância, é que raramente deixamos as crianças livres do olhar adulto, na maioria das vezes, vigilante e inquisidor, e que o prazer de ser criança pode estar ameaçado, o que é ainda pior.

Olhar uma criança pode ser mais do que a ideia reduzida de tomar conta, na tentativa de corrigir um deslize, alertar contra o perigo ou repreender um comportamento. Poucas vezes o olhar do adulto é efetivamente para a criança, no sentido de percebê-la em sua essência e admirá-la em seu mundo particular. Vivemos atualmente aterrorizados e cheios de medo e, por conseguinte, em uma contradição: na tentativa de zelarmos pelo cuidado de nossas crianças, criamos pessoas mais desprotegidas, mais suscetíveis aos impactos da vida e menos resilientes.

Alguns produtos oferecidos no mercado prometem garantir esta ilusória segurança aos pais. Para exemplificar, um deles é conhecido como mochila-guia e lembra, inevitavelmente, uma coleira de cachorro (embora muitos não aceitem a comparação).  Trata-se de uma mochila presa às costas da criança e conectada, com uma espécie de corda, até às mãos do adulto. Segundo a psicóloga clínica Cecília Zylberstajn, “muitos adultos transferem para o acessório os limites que eles mesmos deveriam dar aos filhos. Desta forma, deixam de ensiná-los a lidar com situações de risco e a se comportarem em público”.

O segundo artifício é ainda mais assustador, devido à inovação tecnológica inserida na engenhoca. Refere-se a uma pulseira, para bebês e crianças pequenas, com localizador, via aplicativo celular. Ou seja, à medida que a criança dá seus passos e afasta-se da presença “segura” dos pais, o celular apita, avisando sobre o ‘fujão’. É fácil prever, neste sentido, que os pais  dedicarão mais do seu tempo a olhar para a tela do aparelho celular, ao invés de debruçar olhar e atenção aos filhos, que se encontram tão próximos. Eis aqui a segunda contradição: na tentativa de aproximarem-se dos filhos, os pais se afastam, amparados em estratégias que os mantêm “atualizados”, mas não os substituem.

As crianças superprotegidas, muitas vezes privadas da experimentação, não reconhecem os próprios limites e, por consequência, deixam de exercitar o autoconhecimento. Se tornam adultos frágeis, com pouca autoestima e, uma vez que ocupam lugares muito seguros, resguardados e livres de impactos, passam a ser desvalorizados e não reconhecidos como capazes e competentes. O tiro sai pela culatra: ao sitiá-los com as mais variadas formas de proteção, os deixamos vulneráveis. “Nos tornamos tão obcecados pela segurança que, já de cara, privamos nossos filhos da possibilidade de assumir riscos e de pagar pelas suas consequências, tanto em nível físico quanto emocional”, explicou a psicóloga social Hanna Rosin, em um artigo publicado na revista The Atlantic (abril/2014) .

É sabido que crianças superprotegidas são menos autoconfiantes e tendem a se sentir menos aptas a lidar com a vida. Isto não quer dizer que devamos afrouxar nosso olhar sobre a criança em situações de risco, como, por exemplo, perto de uma janela, na piscina ou na rua. Mas, que precisamos priorizar a qualidade do nosso olhar, com intenção e sem pretensão. Os benefícios deste propósito garantem, no mínimo, crianças que crescerão com maior capacidade de olhar para o outro e não tanto para si mesmas.

Um estudo sobre os saberes docentes aponta que “saber olhar para o aluno” ou “saber fazer uma leitura do aluno” é indispensável à função do professor, dado que o professor que oferece escuta e se dedica a perceber o aluno em sua inteireza cumpre, de fato, a função de ensinar e, desse modo, promove a aprendizagem do educando. Quantas vezes nos dedicamos a olhar com verdade para nossos filhos e alunos? Ou melhor, quantas vezes deixamos de vigiá-los para, simplesmente, notá-los?

A criança revela seu próprio universo quando, minimamente, nos esforçamos em dirigir a elas o nosso olhar. Podemos fazer isto nos comportando como meros espectadores, sem interferência à realidade imaginada ou, simplesmente, participando de seu repertório de brincadeiras, jogos e conversa. Nas duas possibilidades podemos observar, com sensibilidade, como a criança enfrenta e resolve conflitos, como lida com as perdas, com a dúvida, com o problema, com a indiferença, com o êxito, enfim, como se articula num processo natural de crescimento.

David Reeks, documentarista do projeto Território do Brincar, cineasta acostumado a filmar crianças, diz que é necessário ser muito rápido ao captar as imagens infantis e que, nos momentos de filmagem,  quando perdia uma boa cena, de nada adiantava pedir à criança que repetisse o momento. Segundo ele, “perdia a magia”. Fazendo uma analogia desta experiência, pode-se dizer que, quando perdemos a oportunidade de olhar de fato para nossos filhos e alunos, perdemos momentos que não voltam mais e, ao nos darmos conta de que cresceram, nos surpreendemos como alguém que se distrai ao ‘perder o timing’.

O exercício do “olhar” nos aproxima de nossos filhos e alunos e, à medida que oferecemos escuta, com ouvido e coração abertos, passamos a nos comportar com empatia, sem impor nossas vontades e expectativas. Aprendemos, desde pequenos, que não devemos tocar uma obra de arte ao admirá-la em um museu e, mesmo assim, conseguimos nos emocionar ao observá-la. Também assim é possível ceder espaço à emoção quando nos aproximamos da infância, sem precisarmos, para tanto, justificar uma razão.

Foto: iialvarez0/Pixabay

Luciana Franceschini Fonseca é Pedagoga (PUC-SP) e Mestre em Educação: Psicologia da Educação (PUC-SP). Atuou como professora de Educação Infantil e Ensino Fundamental, como pesquisadora do Projeto de Pesquisa Movimentos Identitários do Professor: representações do trabalho docente e como docente na área de Desenvolvimento Social. Atualmente é consultora da área de Educação e Cultura da Infância do Instituto Alana.

Luciana Franceschini Fonseca

Luciana Franceschini Fonseca é Pedagoga (PUC-SP) e Mestre em Educação: Psicologia da Educação (PUC-SP). Atuou como professora de Educação Infantil e Ensino Fundamental, como pesquisadora do Projeto de Pesquisa Movimentos Identitários do Professor: representações do trabalho docente e como docente na área de Desenvolvimento Social. Atualmente é consultora da área de Educação e Cultura da Infância do Instituto Alana.

Um comentário em “Olhar e vigiar: como percebemos a infância?

  • 16 de abril de 2016 em 10:14 AM
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    Lindo texto! Revelador e provocativo. Muito preciso nas colocações e na percepção sobre as reais necessidades das nossas crianças! Parabéns!

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