Óleo de pequi: dos indígenas do Xingu para você

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Quem já provou, ama ou não quer nem saber: o sabor peculiar das receitas preparadas com óleo de pequi (Caryocar brasiliense) não admite opiniões mais ou menos. Amado ou detestado, o azeite de cor alaranjada, feito da polpa do pequi, é rico em carotenoides – os precursores da Vitamina A – mais vitaminas B, C, E e nutrientes como cálcio, ferro e fósforo. Além disso, tem baixa acidez (na verdade, tem pH neutro ou é até ligeiramente básico) e um teor próximo de 60% de ácidos graxos insaturados, conforme caracterização feita na Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa). Na alimentação, a grande vantagem da gordura insaturada de origem vegetal é o fato de ela não contribuir para o aumento do colesterol ruim, embora seja um alimento calórico de qualquer maneira.

Diversas cooperativas do Cerrado brasileiro – onde os pequizeiros são abundantes – já comercializam óleo de pequi e conservas de pequi em pedaços. Mas a partir de 10 de dezembro, uma marca muito especial chega ao Mercado Municipal de Pinheiros, em São Paulo: o azeite aromático de pequi extraído a frio pelos índios da etnia Kïsêdjê, do Xingu. O lançamento (convite ao lado) ocorre no box Amazônia/Mata Atlântica, com a presença de Winti Kïsêdjê, da Associação Indígena Kïsêdjê (AIK); de Eduardo Malta, consultor do Instituto Socioambiental (ISA), e do chef Alex Atala, pelo Instituto Atá.


A extração do óleo a frio, com técnicas tradicionais indígenas, preserva a cor, o sabor e o aroma do pequi. O processamento para a comercialização contou com apoio técnico do ISA e apoio financeiro do Instituto Bacuri e do Grupo Rezek. Os potes de 180 gramas serão vendidos a R$ 33,50. O produto também pode ser encontrado no mercadinho Dalva e Dito e, em breve, chegará a outros pontos de venda brasileiros.

Para esse povo indígena, o óleo de pequi tem outra serventia, além da alimentação. Depois de passar por uma fervura, para aumentar a durabilidade, é usado como hidratante nos cabelos e na pele, garantindo, ainda, um belo tom dourado à pele. Essa qualidade do óleo de pequi como cosmético se deve aos tais ácidos graxos, com destaque para os ácidos palmítico, oléico, mirístico, palmitoléico, esteárico, linoléico e linolênico, conforme estudo realizado por um grupo de pesquisa em Farmácia, na Universidade de Cuiabá (MT).

E os pequizeiros do Xingu não servem apenas para garantir a colheita de frutos e consequente produção de óleo: são também fundamentais para a recuperação de terras degradadas da Área Indígena Wawi, onde fica a aldeia Ngôjwêrê. Com orientação de Eduardo Malta, que é especialista em restauração florestal, desde 2006 homens e mulheres trabalham no plantio de novos pequizeiros, ao redor das árvores centenárias em produção. Com o tempo, esse plantio (60 hectares) contribuirá ainda para estabilizar a produção de óleo, pois o pequizeiro tem um ciclo bianual natural, com grande variação na produtividade. No ano passado, por exemplo, foram produzidos 260 litros de óleo e, neste ano, somente 65 litros.

O pequizeiro nativo também varia muito quanto ao porte: é possível encontrar tanto arbustos, com um metro de altura, quanto árvores copadas de tronco grosso, com mais de sete metros. A madeira tem utilidade nas roças, como mourão de cerca. As flores são claras, com formato apropriado para a polinização feita por morcegos. Os frutos são apreciados (e distribuídos) por emas e as sementes são disseminadas por cotias e gralhas.

É uma verdadeira rede de vida para assegurar a renovação natural dos pequizeiros no Brasil Central. A essa rede da fauna silvestre, somam-se os produtores do Cerrado e, há 10 anos, o povo Kïsêdjê também dá sua contribuição. E você, aí na ponta do consumo, vai experimentar um arroz de pequi para ver se entra nessa?

Abaixo, vídeo promocional do lançamento no Mercado de Pinheiros, que ainda mostra como é produzido o óleo:

Leia também:
Óleo de Pequi chega ao Mercado de Pinheiros, em São Paulo (site ISA)

Fotos: Divulgação/Instituto Socioambiental

 

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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