Ocos urbanos, cheios de surpresas

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Quando uma palmeira perde sua ponta mais alta – cientificamente chamada de gema apical – ela está condenada à morte. Se a palmeira é adulta, bem desenvolvida, ela ainda pode durar alguns anos até virar pó, mas não produz mais folhas, flores ou frutos: fica reduzida ao caule, morto em pé.

Quando uma cidade opta por um paisagismo urbano cheio de palmeiras, o plantio deveria  considerar a rede elétrica, para a concessionária de energia depois não sair cortando gemas apicais pelas ruas, deixando um rastro de caules degolados por colocar em risco a fiação. O crescimento das palmeiras, convenhamos, é bem mais fácil de prever do que o de árvores copadas, já que a grande maioria sobe em linha reta com um punhado de folhas igualmente distribuídas no topo.

Mas nem tudo é perda, se há bioconexões entre a zona urbana e áreas naturais. Em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, os numerosos caules de palmeiras cortados de propósito ou atingidos acidentalmente por raios não são inúteis. Eles acabam criando ocos, depois ocupados por araras para fazer ninhos. Os casais de araras-canindé (Ara ararauna) são mais à vontade, instalam-se até mesmo em rotatórias, junto a avenidas movimentadas. Já os casais de araras-vermelhas (Ara chloroptera) pedem mais privacidade, preferindo as áreas verdes da cidade.

Macho e fêmea trabalham no buraco, alargando ou aprofundando os ocos com os bicos fortes e espalhando internamente as fibras retiradas das paredes, à guisa de forragem. Então a fêmea põe de 1 a 3 ovos e os choca durante 28 dias, com apoio do macho, de quem ganha até comidinha na boca! Quando os filhotes nascem, mãe e pai assumem a tarefa de buscar alimento. E nisso também contam com a colaboração – mesmo que involuntária – de quem planta árvores frutíferas e palmeiras no quintal de casa ou nas praças públicas.

O vai-e-vem de veículos e pedestres à volta dos ninhos não incomoda o casal. Nem as visitas semanais dos biólogos envolvidos com o Projeto Aves Urbanas – Araras na Cidade. Idealizado e coordenado por Neiva Guedes, do Instituto Arara Azul, o projeto tem a coordenação de campo de Larissa Tinoco Barbosa, doutoranda da Universidade Anhanguera-Uniderp e bolsista pela Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoas de Ensino Superior (Capes). Trabalham com ela, subindo e descendo escadas de alumínio para registrar o estado dos ninhos e pesar os filhotes, os biólogos Aline Calderan, Sabrina Appel (ambas da Anhanguera-Uniderp) e Edson Diniz.

Idealizado e coordenado por Neiva Guedes, do Instituto Arara Azul, o projeto tem a co

No ano em que foi criado (2011), o projeto registrou posturas de ovos em 17 ninhos, dos quais 13 casais tiveram filhotes e, no final, 16 juvenis voaram. No ano passado, foram monitorados 57 ninhos, 40 casais tiveram filhotes, 36 juvenis voaram. E neste ano já são 4 ninhos com ovos e um com dois filhotes!

Entre as principais causas de mortalidade dos filhotes estão atropelamentos e acidentes com a fiação, sobretudo nos primeiros voos, quando ainda são desajeitados e podem cair, voar baixo demais ou descer até o chão. Mas infelizmente também há casos eventuais de araras juvenis ou mesmo adultas mortas por linhas de pipas com cerol e por apedrejamento.

Em geral, os pesquisadores contam com a colaboração da população. “Um proprietário de terreno com palmeira oca, onde as araras voltam sempre para nidificar, nos entregou uma chave do portão dele, para fazermos o monitoramento mesmo quando ele não está”, conta Larissa. O terreno é um ferro-velho e de lá já saíram vários filhotes crescidos, voando.

Em sua borracharia, Alfredo do Amaral Gonçalves, já acompanha o desenvolvimento de filhotes há três anos e viu o casal de araras criar 6 filhotes na mesma palmeira, cada vez mais esburacada. “Um deles caiu no chão, na primeira tentativa de voar”, conta ele. “Fomos acudir e, naquela hora, passou um motoqueiro. Ele me disse: dou R$ 5 mil reais nessa arara, agora. E eu respondi: está mais fácil eu chamar a polícia, agora, do que te vender esse filhote”.

A preocupação com o tráfico é real, pois as araras têm alta cotação no mercado ilegal. Mas a vigilância é constante. “Além do nosso monitoramento, a população vizinha aos ninhos está sempre atenta e denuncia à polícia ambiental qualquer movimentação estranha”, prossegue a bióloga. “Uma vez estávamos no parque linear, na periferia da cidade, monitorando alguns ninhos em buritis, e a polícia ambiental chegou. Eles vieram em razão de uma denúncia de moradores, que viram as escadas encostadas nas palmeiras, mas não sabiam que éramos nós. Isso mostra a ligação estreita da população com as araras, aves-símbolo de Campo Grande”.

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Fotos:  Aline Calderan (dois filhotes de arara-canindé dentro do ninho)
Edson Diniz (fêmea de arara-canindé, saindo do ninho)
Larissa Tinoco (ninho de araras com ovos)

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

4 comentários em “Ocos urbanos, cheios de surpresas

  • 18 de agosto de 2015 em 6:29 PM
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    A ocorrência das araras-canindé e vermelhas em Campo Grande-MS, vem sendo acompanhada desde 1999-2000, quando faltou frutos na zona rural. Aqui, encontraram comida em abundância, se estabeleceram e começaram a se reproduzir. Hoje fazem parte do cotidiano da cidade. É um dos maiores orgulhos da população que faz de tudo para mantê-la livre e cruzando o céu da cidade. Campo Grande, acabou virando a capital das araras.

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    • 2 de setembro de 2015 em 7:30 AM
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      Ao acompanhar sua turminha no monitoramento de ninhos de arara, fiquei com inveja de Campo Grande e de suas aves urbanas, Neiva! Parabéns pela iniciativa, executada com a competência de sempre!

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    • 2 de setembro de 2015 em 7:27 AM
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      Obrigada por nos acompanhar Christian! Seja bem-vindo!

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