O velho sofá revive em bolsas customizadas

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selo-economia-criativa-especial-XTirar o couro de sofás descartados foi a melhor ideia da designer Anneke van der Heide, de Amsterdam (esta é mais uma reportagem da série especial de Economia Criativa, realizada a partir de convite do Ministério das Relações Exteriores de Amsterdam). A ideia virou meio de vida: ela deixou seu trabalho como estilista e montou uma empresa de reciclagem de courochamada Xofa – onde também dá aulas, organiza oficinas e acolhe estagiários dispostos a transformar resíduos nobres em bolsas, carteiras, porta-niqueis e pastas customizadas.

Tudo começou em 2012, quando Anneke pedalava rumo ao trabalho, no centro da capital holandesa, e passou por um sofá de couro branco disposto na calçada, no dia de coleta seletiva de móveis e utensílios domésticos. Ela já havia reparado no descarte de sofás de couro antes e isso a incomodava: muitas vezes o couro estava em bom estado e a destinação para o lixo não parecia certa. No dia do sofá branco, porém, o incômodo passou da conta. Anneke voltou para casa em busca de uma faca e retirou todo couro do sofá ali mesmo, na rua. Depois colocou a criatividade de designer para funcionar e fez as primeiras nove bolsas.

O teste mostrou que cada bolsa ou pasta levaria, em média, duas a três horas para ficar pronta. O consumidor poderia encomendar o modelo e acrescentar ou tirar bolsos, divisórias e fechos. O preço de venda ficaria entre 169 e 450 euros. E fazer carteiras e porta-níqueis aumentaria a taxa de aproveitamento dos retalhos.

Daí para calcular o descarte de todo aquele couro como fonte potencial de matéria prima foi um pulo: entre 300 e 400 sofás de couro são destinados ao lixo todos os anos, apenas em Amsterdam, a maioria em bom estado e com grande variedade de cores. Mesmo que algumas partes estejam danificadas, sempre tem um pedaço aproveitável, cuja vida útil pode ser prolongada. Para as empresas responsáveis pela coleta, pulverização e incineração dos sofás, a retirada do couro é um favor, pois o material não queima bem e ainda emite muito carbono.

A designer então montou um plano de negócios; fez um acordo com as empresas de coleta; levantou o capital inicial por meio de “vaquinha virtual” ou crowdfunding (16 mil euros); arrumou um espaço para funcionar como estoque de couro, oficina de costura e escola de design e largou o emprego para montar a Xofa. Hoje a retirada do couro é feita por moradores de rua e grupos sociais assistidos pelo exército da salvação, que ganham por quilo retirado. As peças customizadas são produzidas pela própria designer ou por seus alunos de design.

“Iniciamos com vendas online e fizemos um trabalho de divulgação no aeroporto de Schiphol, com bons resultados. Aos poucos, as lojas estão descobrindo a marca e a história de sustentabilidade por trás dela”, comenta Anneke van der Heide. “Isso mostra como até as pequenas mudanças podem ter grandes impactos”.

Na primeira imagem, que abre este post, a designer Anneke van der Heide em sua oficina de reciclagem de couro. Abaixo, mais algumas imagens e um vídeo que produzi – Do sofá ao Xofa -, que revela mais detalhes de seu trabalho.

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O “esqueleto” do antigo sofá agora exibe os produtos do couro reciclado

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Nas fotos acima e abaixo, a paleta de cores é variada e a qualidade do couro, excelente

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Acima e abaixo, os retalhos que sobram da fabricação de bolsas servem para fazer carteiras

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A marca Xofa começa a ser conhecida como símbolo de sustentabilidade

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Economia Criativa

Esta reportagem faz parte do Especial que apresenta uma série de 10 reportagens sobre reciclagem de resíduos na Holanda que realizei a convite do Ministério das Relações Exteriores daquele país. Lá, visitei empresas recicladoras holandesas que podem nos servir de exemplo e inspiração para o desenvolvimento de uma Economia Circular brasileira.

Saiba mais no primeiro post que escrevi – É hora de apostar na Economia Circular  – e acompanhe os temas que fazem parte deste especial:

  1. Reaproveitamento de couro de sofás (este post)
  2. Novas funções para velhas estruturas de aço 
  3. Colchões de espuma para isolamento térmico
  4. A difícil arte de separar fibras têxteis
  5. Os 3Rs no universo das filmagens
  6. Lixeiras com eficiência máxima
  7. Carga pesada no desmonte de navios
  8. Reciclagem de eletrodomésticos
  9. Do papel ao papel
  10. Almere, uma cidade com meta Zero Resíduos

Fotos: Liana John

 

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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