O Maglev-Cobra da UFRJ é bem legal, visite-o!

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A última terça-feira (16/02) pode entrar para a história como o dia que marcou uma mudança drástica no futuro da mobilidade urbana do Rio de Janeiro e, quem sabe, de outras grandes cidades brasileiras. Depois de quase duas décadas de pesquisa e árduo desenvolvimento, o Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ) começa a operar suas primeiras viagens demonstrativas do Maglev-Cobra, o primeiro trem de levitação magnética em funcionamento no país (foto acima). Isso é o que o meu amigo/boss Matthew Shirts, entusiasta da mobilidade sustentável, chamaria logo de cara de “cool stuff”.

Comuns no Japão, China e Alemanha, os maglevs (em inglês: Magnetic levitation transport) são em aparência semelhantes aos trens ou aos VLTs com a diferença de que são propulsionados pelas forças atrativas e repulsivas do magnetismo, que fazem os comboios levitarem pouco acima dos trilhos, seja com o uso de ímãs supercondutores (suspensão eletrodinâmica) ou por eletroímãs (suspensão eletromagnética).

Contudo, os pesquisadores brasileiros criaram o primeiro veículo no mundo a transportar passageiros utilizando a tecnologia de levitação magnética por supercondutividade, algo em estado inicial nos outros países. E é aí que entra a encantadora nerdice para entender o nosso trem flutuador – “the really cool stuff”.

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De acordo com a Coppe/ UFRJ, o princípio de levitação para transporte desenvolvido na UFRJ é baseado no efeito de exclusão de campo magnético do interior dos supercondutores (chamado também de Efeito de Meissner-Ochsenfeld), que foi descoberto em 1933 e só pode ser explorado devidamente a partir do final do século XX graças ao avanço técnico em novos materiais magnéticos e pastilhas supercondutoras de alta temperatura crítica. Ou seja!!! A tecnologia do maglev nacional se locomove através da formação de um campo magnético de repulsão entre os trilhos e os módulos de levitação, as pastilhas supercondutoras que substituem as rodas e são compostas de ítrio, bário e cobre. Ah! E tem uma coisa bem legal nisso… Para criar este campo magnético, que faz o trem levitar, os cientistas resfriam os supercondutores a negativos 196º Celsius, utilizando nitrogênio líquido.

O nitrogênio líquido é um meio refrigerante que custa menos de R$ 0,30 por litro e não polui o meio ambiente. Mas essa não é a única entre as vantagens econômicas e de sustentabilidade do Maglev-Cobra da UFRJ.

A energia estimada para seu uso é de 25 quilo-joules (kJ) por passageiro-quilômetro, bem menos que o consumo de um ônibus comum que é de 400 kJ ou de um avião de 1200 kJ por passageiro transportado a cada quilômetro. Na ponte aérea Rio-São Paulo, a produção de dióxido de carbono (CO2) média para cada passageiro é de 98 kg. “Se a viagem de trem gerasse crédito de carbono haveria uma razoável fonte de financiamento para o setor, uma vez que o Maglev, no mesmo trajeto, produziria apenas 2,6 kg de CO2”, disse o pesquisador Eduardo Gonçalves David do Laboratório de Estudos e Simulações de Sistemas Metroferroviários (LESFER) da universidade.

A implantação do Maglev, segundo o coordenador do projeto Richard Stephan, custaria um terço do valor do metrô por quilômetro (R$ 33 milhões de reais). Com escala comercial, o maglev brasileiro teria impactos significativos para a indústria, pois teria repercussões em diversos etapas da cadeia produtiva, desde as fábricas de ímãs e supercondutores até as áreas de pesquisa científica em engenharia (mecânica, elétrica, eletrônica e de materiais). “Nossa expectativa é de que o veículo seja certificado em 2017 e, em 2020, entre em operação, em uma linha de 5 km, na Cidade Universitária, ligando a Estação de BRT Aroldo Melodia ao Parque Tecnológico, conforme previsto no Plano Diretor da UFRJ para 2020″, explica o professor.

Em parceria financeira com o BNDES, os acadêmicos que encabeçam o projeto vêm sugerindo rotas e locais que o modelo de transporte sustentável poderia atender, caso do já citado trajeto Rio-São Paulo e da Ilha do Fundão, na capital fluminense.

Seria uma bela alternativa ao carro particular, não? Veja no vídeo abaixo.

Por enquanto, o veículo demonstrativo está restrito à Cidade Universitária, fazendo um curto trajeto entre os centros de tecnologia (CT e CT2) do campus. O Maglev-Cobra transporta até 30 passageiros por viagem e circula a uma velocidade de 10 km/hora, que no futuro pode ser 10 vezes mais em percursos longos (alguns maglevs japoneses já chegam a quase a 600 km/h !!!). E como se já não jogasse na cara da sociedade tanta sustentabilidade, a linha experimental construída é alimentada por quatro painéis de energia solar.

Se você ficou tão entusiasmado com o Maglev-Cobra quanto eu e o Matthew, as viagens abertas ao púbico são realizadas todas às terças-feiras, em dois horários: 11h às 12h e 14h às 15h. Um programão pra quem curte sustentabilidade e tecnologia.

Fotos: Divulgação, Coppe/UFRJ

Jornalista e cientista social, com pós-graduação em Cultura e Artes pela Unesp. Editor associado da agência Xibé, é repórter multipremiado em diversos veículos, entre eles, a revista National Geographic Brasil, para a qual escreveu grandes reportagens sobre lixo e água. Entre outros, recebeu o Prêmio de Jornalismo Mobilidade Urbana Sustentável 2013 e o 19º Prêmio Abrelpe de Reportagem, em 2014.

Julio Lamas

Jornalista e cientista social, com pós-graduação em Cultura e Artes pela Unesp. Editor associado da agência Xibé, é repórter multipremiado em diversos veículos, entre eles, a revista National Geographic Brasil, para a qual escreveu grandes reportagens sobre lixo e água. Entre outros, recebeu o Prêmio de Jornalismo Mobilidade Urbana Sustentável 2013 e o 19º Prêmio Abrelpe de Reportagem, em 2014.

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