O titã visgueiro e seu poder cicatrizante

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Entre os grandes “senhores” das matas brasileiras, o visgueiro se destaca por seu tronco com mais de metro de diâmetro e 30 a 40 metros de altura, muitas vezes limpo, sem qualquer ramificação nos primeiros 10 metros a partir do chão. É um titã nativo das áreas mais densas da Mata Atlântica e da Floresta Amazônica, com ocorrência também nos países vizinhos Bolívia, Peru, Colômbia, Venezuela, Suriname e Guiana, e na América Central: Panamá, Costa Rica, Nicarágua e Honduras.

Mas não é exatamente o tamanho que chama a atenção no visgueiro: são suas flores vermelhas, que crescem como bolas, penduradas na ponta de compridas hastes de quase um metro de comprimento. A árvore toda florida parece irreal, como se tivesse sido enfeitada artificialmente. Essas flores diferentes, polinizadas por morcegos, deram o nome científico à espécie – Parkia pendula – e ainda inspiraram vários dos nomes comuns, como é o caso de fava-de-bolota, pau-de-arara e rabo-de-aranha.

O visgueiro é uma boa opção ornamental para praças grandes, parques urbanos e áreas em restauração. Sobretudo porque suas sementes – protegidas dentro da vagem por uma espécie de resina (o visgo que dá nome à árvore) – conseguem nascer em condições adversas, mesmo fora da floresta de origem.

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Outra qualidade interessante do visgueiro está na sua casca grossa, com poder cicatrizante. A medicina popular já usa o pó da casca para colocar em feridas há muitos anos. E essa atividade foi comprovada em diversos trabalhos científicos, a exemplo da pesquisa realizada pela bióloga e doutora em Ciência Biológicas pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Marília Cavalcanti Coriolano. Especializada no estudo das lectinas, ela conduziu um ensaio com camundongos, comparando a cicatrização de lesões cutâneas em animais imunossuprimidos e normais. Em todos os casos, as lectinas do visgueiro ajudaram muito na cicatrização. As lesões dos camundongos tratados, em alguns casos, fecharam em 3 a 4 dias, enquanto as do grupo de controle levaram três vezes mais tempo, fechando apenas em 12 dias.

As lectinas (não confundir com lecitinas) são proteínas não imunológicas com a capacidade de aglutinar hemácias (glóbulos vermelhos do sangue), graças à sua propriedade de se ligar reversivelmente aos carboidratos (açúcares, amido). Essa capacidade é que lhes confere poder cicatrizante.

Assim sendo, não é má ideia ter uma árvore dessas por perto, especialmente em tempos de aumento no número de doenças imunossupressoras, doenças autoimunes e alergias, como os que vivemos. E isso, sem contar o aumento no uso de medicamentos que também são imunossupressores, como é o caso de corticoesteroides.

Para aqueles sem espaço ou sem paciência para esperar uma árvore dessas crescer, a dica é fazer uma viagem a Maragogi, no litoral norte de Alagoas, onde um senhor visgueiro de 500 anos e 22 metros de altura virou atração turística. Os interessados chegam aos seus pés no meio de uma caminhada circular de 6 km, com duração média de duas horas. Além de conhecer o visgueiro, dá para tomar banho de bica e apreciar um bom passeio em uma das poucas reservas de Mata Atlântica do  Nordeste.

Fotos: Wikimedia Commons (tronco de um visgueiro da Amazônia, ao alto, e flor de visgueiro, ao centro)

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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