Tempero Bom: cozinha que inclui e traz novas perspectivas

Pica daqui, corta de lá, sova a massa, tempera acolá… o cheiro de pudim, dos pães, das esfihas e de tudo o mais que se imaginar escapava do forno e rapidamente impregnava toda a atmosfera da casa. O cardápio incluia ainda sonhos, empadas e canapés de salada, e foi cuidadosamente preparado com a participação de todos os integrantes do empreendimento.

Um grupo de oito pessoas prepara cuidadosamente os produtos a serem servidos num coffee na Pinacoteca de São Bernardo, no estado de São Paulo. É o empreendimento solidário Tempero Bom que, na véspera do evento Arte como estratégia de cuidado em Saúde Mental, realizado naquele espaço, cuidava de tudo com muita atenção na cozinha.

Acompanhei esse frenesi da produção, que aconteceu no Núcleo de Trabalho e Arte de São Bernardo do Campo, o Nutrarte, equipamento que integra a Rede de Saúde Mental (já falei dele aqui). O Tempero Bom é formado por oito pessoas de idades variadas, sendo sete usuários da Rede e um familiar.

O grupo trabalha com culinária e produz sob encomenda pães, bolos, salgados, doces e outros itens para cafés e coquetéis. Além disso, começa agora a trabalhar com listas para produção de pães e bolos sob demanda e faz também venda direta em unidades de saúde da cidade.

Três técnicos do Nutrarte acompanham o trabalho e o grupo, além da formação técnica em culinária, recebeu recentemente conhecimento e assessoria em empreendedorismo e economia solidária, por meio da Rede Design Possível (iniciativa da qual já falei aqui no blog).

Desde que foi criado, o empreendimento vem atendendo cada vez mais eventos de portes e formatos variados. O maior deles foi um congresso para 600 pessoas realizado pela Associação Brasileira de Saúde Mental (ABRASME).

“O Tempero Bom já está criando asas. Ganhando autonomia. Os participantes se fortaleceram muito com a união. Até agora entregamos todos os pedidos para eventos. E com as formações que temos tido nos últimos meses, eles estão cada vez mais profissionais. Esse olhar de geração de renda, de produção solidária, instiga mais o usuário da Rede a estar nesses lugares e a se comprometer com o que está fazendo”, avalia Cristina Maria R. de Souza, técnica do Nutrarte.

O Nutrarte funciona há sete anos e, além de desenvolver oficinas para geração de renda, é uma espécie de incubadora e ajuda a estruturar empreendimentos com o objetivo de promover a inserção pelo trabalho e a geração de renda para os usuários da Rede.

Ali, o ser humano é o centro de tudo. É o lugar onde a doença ou a limitação não se colocam como entraves para os processos. Onde as dificuldades e os obstáculos são vistos, muitas vezes, como oportunidades. Onde a reforma psiquiátrica e a economia solidária se encontram e se casam no caminho da inserção pelo trabalho. Da autonomia, da autogestão, do cuidado consigo e com o entorno.

“Trabalhar com os fortes é mais fácil. A nossa estratégia é buscar também estratégias para aqueles que estão precisando de um salto diferente”, define o coordenador do Nutrarte, Marcos Silveira de Almeida. “Essa articulação com a economia solidária para a gente é fundamental, porque amplia os pontos de comercialização, amplia as trocas de saberes, as capacitações, as formações. As Redes, não só a de Saúde Mental, mas as redes de economia solidária em geral, são muito importantes, de grande valor, e acho que não conseguiríamos fazer um terço do que temos feito se estivéssemos sozinhos. Juntos, nos fortalecemos”, salienta.

Tenho insistido bastante em mostrar aqui a relação entre saúde mental e economia solidária porque é um casamento que realmente dá certo. A estruturação de empreendimentos baseados em cooperativismo social e economia solidária é ainda algo relativamente novo no Brasil, embora em conexão absoluta com a saúde mental. Parece haver total sentido em promover a inclusão pelo trabalho a partir dos princípios desse tipo de economia. E mais do que isso, promover a autonomia dessas pessoas.

Foto: Carlos Hansen

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

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