O tal do sábio

o tal do sábio

Parede que é só destruição, mas tem um escape. Não digo que é uma esperança líquida e certa. Mas tem caminho… Provavelmente com dor. Mas a saída… Aha… Ela há.

Nunca tinha ouvido falar desse artista… Bom, não é lá tão comum ouvir falar de artistas chineses contemporâneos por aqui, apesar de alguns considerarem que a China vive um florescimento artístico, com muita gente produzindo. O tempo vai dizer quem permanece pra contar história. Acho que Ai Nisha fica. Não tem quase nada dele na internet para nós mortais do outro lado do planeta podermos matar a curiosidade e conhecer mais de Ai, que tem 36 anos. Só acessar o site da Bienal Internacional de Curitiba 2017 – que traz uma breve descrição de vários artistas chineses expostos no MUMA / Portão Cultural –  é pouco…

A exposição, aliás, é de tirar o chapéu. E colocar o capacete porque é bem capaz de você ficar com medo de ser atingido pelo desmoronar. Ai… Atropelo, aterro.

É tudo ruína, é solidão, é mágica trágica na obra “Sinking“. É silêncio depois do estrondo. Mania de tristeza. Euforia de dor. Tentativa de amor. Que vai sendo construindo depois do furacão, do terremoto invencível. Há linhas que brotam dos escombros, que fazem visualizar o que pode ter sido, o que talvez será. Há portais que são prenúncio de túnel com neblina iluminada de mistério. Há sagacidade quase vivaz nessa desolação. Vejo sinal de inteligência calculada nessa aflição. Tem sabedoria também.

Sabedoria como nessa tela chamada “Os Sete Sábios do Bosque de Bambu” – também conhecidos como os Sete Dignos do Bosque de Bambu. Diz o Google que eles eram “um grupo de estudiosos, escritores e músicos chineses do século III dC. Embora os vários indivíduos existissem, sua interconexão não é inteiramente certa. Vários dos sete estavam vinculados com a escola Qingtan do Daoismo”.

Os Sete Sábios tiveram suas vidas colocadas em perigo quando a dinastía Jin “confucionista” chegou ao poder.  Queria perguntar para Ai o que mais o inspirou. Se a atitude dos Sete Sábios que escreveram poemas criticando o tribunal, a administração… Se a literatura influenciada por Taoístas. Nem todos os sete sábios tinham pontos de vista semelhantes. Alguns dos sete tentaram negociar a vida por meio de posições políticas. Assumiam papéis de brincalhões. Viravam excêntricos alimentados com álcool, evitando o controle do governo e alguns acabaram se juntando à dinastia Jin As, que foi flagelada pelas crises e autoridades militaristas  ao longo de seus 104 anos de existência.

No trabalho de Ai, os sábios transitam nos escombros, procuram vida embaixo dos destroços. Homens que só ganham identidade a partir do título da obra. E mesmo assim podem ser confundidos. Como saber quem é quem? Não há olhos. Não há boca. Melhor não tê-los para não correr risco de enxergar o que não quer se ver ou ter vontade de falar o que não pode ser dito. Melhor permanecer um incógnito em meio às pedras, troncos que já foram talvez casa. Como reconstruir abrigo? Melhor ser abrigo para si mesmo e se esconder no anonimato?

Ou seguir o fluxo da ordem natural universal que é equilíbrio. A fonte da existência e a não-existência. O yin yang do universo. O bem, o mal. O tal. O Tao dos sábios.

BIENAL INTERNACIONAL DE CURITIBA 
Data: até 25 de fevereiro de 2018
Local: em vários espaços de Curitiba, PR
Acesse o site para escolher a programação. A exposição com artistas chineses acontece no MUMA, na Avenida República Argentina, 3.432 – no bairro do Portão

Fotos: divulgação

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

Karen Monteiro

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

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