O risco de dizer ‘Não pode, é perigoso!’

criança subindo na árvore
Não faça isso! Tenha cuidado! Não corra! Desça daí! Não pegue isso! Venha aqui!.

É muito interessante prestar atenção ao tipo de linguagem que usamos com as crianças, quando estamos ao ar livre, em ambientes naturais. Como podemos encontrar o equilíbrio entre manter nossas crianças ativas e saudáveis, ao mesmo tempo em que as protegemos de acidentes e lesões sérias? (leia o texto Superando o Medo da Natureza).

A resposta não é fácil. Uma reflexão se impõe, em especial, para quem já se deparou com imprevistos ou para quem já viu uma criança insegura em seus movimentos ou motoramente incapaz.

Um paradoxo do nosso tempo é que, como sociedade, buscamos segurança a qualquer custo e, no entanto, esta segurança alimenta uma complacência que, por fim, desgasta nosso espírito. Por que alguns de nós escalam montanhas enquanto o conforto do lar é tão mais seguro?

Segundo Edward Abbey, no livro The Journey Home, nós sentimos prazer na consumação do esforço físico, mental e espiritual. “We love the taste of freedom. We enjoy the smell of danger” (em tradução livre, “Nós amamos o gosto da liberdade. Nós gostamos do cheiro do perigo”), afirma em certa passagem da obra. E, nesta busca, encontramos sentido e significado para nossa existência.

Para os adultos, esse contexto é administrável, pois, como indivíduos autônomos, eles podem deliberadamente buscar alternativas em suas práticas individuais. Mas, para as crianças, essa complacência é crítica em sua condição de ser humano em evolução.

Um exemplo marcante desse fato são os pátios das escolas, quase sempre apertados e repletos de brinquedos plásticos baixos, grama artificial e areia colorida. Em muitos casos, não há a possibilidade de subir, escalar ou correr – para que não haja risco algum.

Para as crianças, a conquista do movimento corporal é seu grande desafio e meio de apreender o mundo nos primeiros anos de vida. Assistir a uma criança aprender a correr, escalar e pular, desejando ir mais longe e mais alto a cada dia, é assistir de camarote à força da vida em uma de suas formas mais autênticas. E isso exige lidar com uma certa dose de risco.

O ambiente artificial praticamente elimina o perigo e mantém o risco previsível. Já o ambiente natural é onde está a aventura, a beleza indomável e os imprevistos também. Espinhos, escorregões ou uma picada de formiga dificilmente acometerão as crianças nos ambientes estéreis que criamos para elas, mas está justamente na ausência destas e de outras possibilidades a perda da experiência direta e, consequentemente, a perda da conexão sensível com o mundo natural. A afirmação é de Heloísa Bruhns, em seu livro Esporte e Natureza, publicado em 2000.

Mas, dentro da concepção de risco há uma importante distinção a ser feita entre o risco real e o percebido. O real é aquele que existe em andar de bicicleta fora da ciclovia, em uma avenida movimentada, ou deixar uma criança que não sabe nadar sozinha ao lado de uma piscina. O risco percebido é aquele que a criança sente como excitante e emocionante, em que há, sim, a ameaça de algum machucado, sem consequências graves.

E é aí que entra nossa intervenção como pais e educadores. Em sua dissertação de mestrado apresentada na Universidade de São Paulo (USP), Flavio Kunreuther afirma que cabe a nós proporcionar experiências adequadas às crianças, tanto em termos de dificuldade e progressão, quanto em termos de riscos reais e percebidos.

É nosso dever deixá-las perceber quais limites estão aptas a transpor e incentivá-las a ir adiante sempre que quiserem. As crianças são seres capazes de ouvir o que lhes diz seu corpo ante um desafio, e a sua apreensão de habilidades como confiança, autonomia e resiliência é muito mais rica quando a decisão de empreendê-lo for própria e não do adulto. Nesse caminho, passo a passo, poderão se tornar adultos mais preparados e equipados para os riscos e desafios que a vida oferece.

Devemos olhar esse processo com confiança, sensibilidade e participar quando necessário. Com isso, podemos ajudar a criança excessivamente confiante a perceber a consequência do que não é capaz de fazer e impedi-la de se machucar. Também precisamos incentivar a criança insegura, porém habilidosa, a ir além do que lhe parece factível. Estas são intervenções válidas, desde que aplicadas no seu tempo, sem censurar a iniciativa da criança, mas também sem deixá-la se ferir.

Foto: divulgação/acervo Nosso Quintal

Engenheira Florestal e mestre em Conservação de Ecossistemas pela ESALQ/USP, sempre trabalhou com educação e conservação da natureza. É cofundadora da OutwardBound Brasil e atuou na gestão e manejo de unidades de conservação na Fundação Florestal do Estado de São Paulo. Depois do nascimento da Raquel e do Beni passou a estudar a relação entre a infância e a natureza no mundo contemporâneo. Desde 2015, trabalha como pesquisadora do programa Criança e Natureza do Instituto Alana.

Maria Isabel Amando de Barros

Engenheira Florestal e mestre em Conservação de Ecossistemas pela ESALQ/USP, sempre trabalhou com educação e conservação da natureza. É cofundadora da OutwardBound Brasil e atuou na gestão e manejo de unidades de conservação na Fundação Florestal do Estado de São Paulo. Depois do nascimento da Raquel e do Beni passou a estudar a relação entre a infância e a natureza no mundo contemporâneo. Desde 2015, trabalha como pesquisadora do programa Criança e Natureza do Instituto Alana.

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