O que um corte de cabelo pode revelar sobre autonomia do corpo, intuição e linhagens

Durante alguns meses, Clarineta Cara de Borboleta me pediu para cortar os cabelos bem curtos como os meus. Não dei bola. Tive receio de que pudesse passar por um arrependimento que demoraria outros tantos meses para ir embora. Mesmo que eu e seu pai ampliemos o repertório dela para além das referências de princesas  , ela vive nesse mundo ainda repleto destas personagens de cabelos longos, brancas, de corpos homogêneos, de comportamentos frágeis e dóceis, que vivem esperando um príncipe e que nunca soltam pum. E, claro, como muitas outras meninas, ela acaba escolhendo roupas e brinquedos de princesas sim!

Além disso, todas as suas amiguinhas e primas não têm cabelos curtos. Pensei: será que ela quer mesmo? Será que vai dar conta de lidar com uma possível duradoura frustração? Ah, e fora que seu cabelo é encaracolado. Vários lindos cachos desapareceriam daquela composição tão deliciosamente harmoniosa que ela é! Mas este já era um não desejo bem meu.

Enrolei o quanto pude até que chegou o dia de irmos ao cabeleireiro. Entramos no salão e pedi ao profissional que tirasse as pontinhas. Ela concordou sinalizando com um “sim” que era aquilo mesmo. Quando acabou, a pergunta que eu temia: – Mamãe está curto? – Está mais curto, filha. O cabeleireiro trouxe o espelho, ela olhou, tirou as fivelas que ganhara, paguei e saímos. Ao virarmos a esquina, uns 20 passos do salão, ela dispara a gritar comigo. Porque você &%$#@! E eu não entendia o restante da frase.

Enquanto as pessoas observavam o pequeno surto, pedi que se acalmasse e repetisse, pois não a entendia. Com as mãos em movimento na direção de trás para frente na cabeça, ela gritava chorando com seus 4 anos e meio: – Eu não quero este cabelo!!

Combinei que voltaríamos sem problemas. Quando retornamos, pedi que contasse como gostaria. Enfaticamente orientou o moço: – Quero igual “o” da minha mamãe! E assim foi feito. Demorei uns dias para me acostumar com o novo visual dela porque eu me via nele; ficamos muito parecidas.

Vínculos afetivos e preparo para um corpo livre e autônomo  

Clarineta nasceu prematura de 35 semanas. Ela chegou a este mundo no dia em que quis. Com saúde perfeita, precisou de poucos dias no hospital. Por esta condição, não tive o parto humanizado para o qual tinha me preparado na Casa Ângela, Zona Sul de São Paulo. Foi lá que autonomia e respeito pelos bebês por meio de práticas socioeducativas da Pedagogia Waldorf e da abordagem de Emmi Pikler começaram a se materializar com força. Toda minha gratidão e admiração àquelas mulheres.

Destaco duas experiências com ela ainda recém-nascida que me dizem muito sobre a cena do cabelo. “- Conte para ela tudo o que está acontecendo na casa. Quem vai chegar, o que terá para jantar mesmo que ela só mame, os momentos do banho, da leitura, da música … tudo. Você pode se sentir meio esquisita porque, normalmente, mães e pais não têm este hábito no pós-parto diante da nova rotina.

Ela não vai entender as palavras, mas começar a aprender sentindo o que é vínculo afetivo e confiança pela entonação da sua voz,” orientou Dr. José Moacir de Lacerda Júnior, que também conheci na Casa, parceiro há quase cinco anos de cuidados extremamente significativos para mim com Clarineta. E assim é feito até hoje.

Outra orientação dele tem a ver com um estudo sobre liberdade de movimentos e o desenvolvimento da autonomia da criança até os 3 anos de Emmi Pikler. Clarineta passava, então, horas em seu tapetinho no chão com poucos meses de vida sem estímulo motor meu ou de seu pai. Alcançar algum objeto, encostar o pezinho em outro ou virar de barriguinha para baixo. Cada movimento foi conquistado por ela, cada um. Demorei, inclusive, para sentir segurança de que já era “hora” de sentá-la aos 8 meses! E ela andou sozinha a 1 ano e 4 meses.

“A construção que ela fez e está fazendo de sua vida com o suporte dado por você e pelo pai dela é uma condição absolutamente individual da família. Ela só pode SER porque vocês têm confiança de que ela pode SER. E de que ela tem o tempo para SER. Ela se sente livre para mostrar os seus descontentamentos independentemente de gostarem ou não. O tempo que a sociedade estipula para que as crianças SEJAM não é um tempo real.

Me lembro sempre do Rudolf Steiner: ‘Toda educação é autoeducação e nós, na qualidade de professores e educadores, em realidade formamos apenas o ambiente em que a criança se educa a si mesma. Devemos propiciar-lhe o ambiente mais favorável possível para que junto à nós ela se eduque da maneira como deve ser educada por seu destino interior.’Outra opinião importante para mim e que tem a ver com esse assunto, Thaís, é o que a Alice Miller aborda em seu livro O drama da criança bem-dotada.

A autora explica a formação de um falso selfiena medida em que a criança responde às mães e aos pais aquilo que desejam que ela seja e não aquilo que ela é. Formam falsos selfiespara que possam ser amadas. A filha de vocês não é aquilo que quiseram que ela fosse”, concluiu.

Senti uma felicidade interna e sorri.

Intuição e linhagens

Este texto é sim sobre autoconfiança de crianças, mas, sobretudo, autoconfiança em nós, mulheres. Este texto tem a ver com a aposta em uma educação que reverbera feliz e fluida em mim. Esta foi minha escolha como mãe que foi chamada a observar padrões de sua linhagem e da sociedade e diz sim ou não para o que quer reproduzir.

Ficaria feliz se muitas outras de nós despertassem para refletir os padrões de suas linhagens e, assim, fluíssem sendo quem são e não quem querem que sejam. E quando pudessem, respirassem, silenciassem, dessem ouvidos às suas intuições que, por vezes, estão tão adormecidas dentro da gente, dentro dos nossos corpos e mentes tão violentados pelo patriarcado. No fundo, a gente sempre sabe das coisas dessa vida.

Foto: Thais Chita

Jornalista e pós-graduada em Gestão da Comunicação: Políticas, Educação e Cultura pela Escola de Comunicação e Artes da ECA/USP, atua há 18 anos na área da Educação em Direitos Humanos, especialmente com DH de crianças e adolescentes. É co-coordenadora do programa Território do Brincar, co-realizado com o Instituto Alana. Medita e faz brigadeiros

Thais Chita

Jornalista e pós-graduada em Gestão da Comunicação: Políticas, Educação e Cultura pela Escola de Comunicação e Artes da ECA/USP, atua há 18 anos na área da Educação em Direitos Humanos, especialmente com DH de crianças e adolescentes. É co-coordenadora do programa Território do Brincar, co-realizado com o Instituto Alana. Medita e faz brigadeiros

Um comentário em “O que um corte de cabelo pode revelar sobre autonomia do corpo, intuição e linhagens

  • 12 de dezembro de 2018 em 5:03 PM
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    Nesse processo de ouvir minha intuição, qd soube q estava grávida de uma menina já tinha certeza de q ela escolheria furar a orelha p por brincos e qd. Ela escolheu ter os cabelos curtos igual ao pai, ainda q no salão todos tentassem dissuadi-la, e ontem com oito anos e dez meses decidiu furar a orelha. Creio q esse processo decisório só lhe fará bem. Foi bom ler seu texto e reconhecer ações.

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