O que levas no coração, encontras no teu chão

dente de leão ajuda a saber a condição do chão para o cultivo

Olhar o jardim do ponto de vista botânico, observando as plantas que nascem espontaneamente e sobrevivem em qualquer estação do ano, pode ajudar na análise do solo, quanto à sua fertilidade, acidez, textura e drenagem.

Algumas plantas comuns servem como indicadoras, ou seja, termômetros de como o seu terreno está drenando a água, e até mesmo, se o seu jardim está sendo regado suficientemente.

Preste atenção no tamanho das plantas que crescem por lá e faça um esboço mental de suas copas, projetando-as para baixo. Isto te dará uma boa idéia de onde o subsolo concentra maior quantidade de água no seu terreno e poderá ajudar bastante na hora de escolher o melhor lugar do jardim para plantar uma árvore frutífera ou colocar um canteiro de flores e hortaliças.

Abaixo vou fazer uma pequena lista de plantas indicadoras para que você comece a observá-las e descubra as condições do seu terreno.

Ao planejar um jardim ou a sequência de cultivares numa horta,  a observação destas plantas pode indicar muitas coisas. Basta que você comece associar alguns dados.

Umidade

A maria sem vergonha  (Impatiens  walleriana) é uma planta perene florífera, muito conhecida e difundida no Brasil. Produz flores rosas ou vermelhas de talo verde quase translúcido, com bastante água no seu interior, folhas simples e tenras. Quando a seca atinge o seu pico, a planta é a primeira a manifestar deficit hídrico em suas folhas que ficam murchas, voltando ao estado túrgido rapidamente, uma vez que os níveis de umidade no solo se restabeleçam. Portanto, a maria sem vergonha é excelente para colocar no jardim perto de outras que necessitem de irrigação constante para a produção de frutos e flores e não demonstrem com tanta facilidade, como o limoeiro, acerola , jabuticabeira, mamoeiro, pitangueira, camélia, hibisco e rosas.

Na horta, a maria sem vergonha pode ser usada junto aos canteiros das plantas perenes, como o gengibre, cúrcuma,  ervas aromáticas e algumas bianuais, como cebola e alho.

Ao  contrário de indicar falta de água no terreno, o agriãozinho da terra (Heterantera limosa Willd) e a hortelã do brejo (Heterantera reniformis) indicam os lugares encharcados no solo. Os dois são plantas invasoras, que não prejudicam em nada o cultivo, por serem prostradas (deitadas rente ao solo), servindo de forração entre uma colheita e a outra. Se você encontrar desta erva em sua horta, aproveite! Seu lugar será o melhor para fazer a semeadura da alface, rúcula e cebolinha, que podem ser transplantadas para lugares mais drenados, depois de obterem as terceiras folhas definitivas crescidas.

Fertilidade

Os índices de fertilidade do solo também podem ser observados através da presença do caruru ou bredo (Amaranthus deflexus L., Amaranthus  hibridus L., Amaranthus  spinosus L.  e o Amaranthus Viridis L.), uma planta muito vigorosa. Invasora que produz cachos de sementinhas redondas e diminutas, muito usada no Nordeste para preparo de pratos regionais e cereais para crianças. Também alimenta pássaros e cresce dez vezes mais rápido que qualquer hortaliça, podendo ser deixada para crescer por favorecer o controle biológico, porém com alguma restrição (desbaste), desde que o objetivo seja de cultivar múltiplas  espécies, pois ela concorre demais com as outras hortaliças.

Aconselho retirá-las até que as hortaliças estejam  bem estabelecidas. Depois que suas mudas já estejam adaptadas com raízes firmes, pode-se  deixar uma ou outra entre os cultivares.

Na imagem que abre este post, está o dente de leão (Taxaracum officinale Weber). Ele possui propriedades nutritivas, além de curativas. É uma erva que cresce em forma de roseta com folhas  dentadas e produz flores amarelas. É aquele famoso pompom de onde saem suas sementes voadoras, que as crianças adoram assoprar. Pois bem, ele cresce em solos ricos e bem drenados.

Já o plântago, tchanchagem ou plantagem (Plantago  tomentosa Lam.) indica a presença de terrenos leves e ensolarados. Cresce nos campos abertos e nas bordas arenosas dos terrenos, onde a água escoa. Prefere clima fresco e muita luminosidade, germinando melhor no princípio da primavera. Apesar de ser uma invasora, deve ser deixada no terreno, pois suas sementes servem de alimento para passarinhos, trazendo-os para perto da horta, onde podem atuar como agentes de controle biológico, comendo insetos e larvas.

O plántago favorece o cultivo da couve, brócolis e flores anuais ou bianuais. De origem europeia, a planta tem seu nome derivado da palavra plantagus, que denominava planta dos pés, assemelhando-se às solas de sapatos. Cresce em forma de roseta e possui nervuras paralelas, produzindo uma haste floral múltipla, originando uma espiga cheia de sementes de textura escamosa, muito apreciada pelos pássaros. Possui propriedades medicinais importantes: é anti-tumoral, anti-microbiana e anti-inflamatória.

Acidez

Quando houver muita tiririca (Cyperus esculentus L. ou Cyperus ferax L.Cyperus Iria L.), o terreno provavelmente possui terra ácida e esta deve ser corrigida com calcário ou farinha de concha. Já a beldroega (Portulaca oleracea L.), na imagem abaixo, cresce em terrenos bem drenados arenosos e argilosos,  levemente ácidos, cobrindo facilmente canteiros inteiros. Precisa ser colhida e controlada porque possui sementes muito eficientes, podendo facilmente roubar todo o terreno da horta para si. No entanto, serve perfeitamente para o descanso do solo entre cultivos ou períodos de menor atividade, criando uma rede protetora do solo e sendo facilmente retirada quando chegar a hora do plantio.

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Temperatura

A cor da grama também revela  quando as temperaturas começam a baixar, ficando bem ressecadas, com filamentos avermelhados, indicando o bom momento para a sua cobertura. Use uma fina camada de terra, para que na primavera e no começo das chuvas, não haja buracos ou reentrâncias no campinho de futebol e nos gramados.

Horas

As plantas podem indicar até mesmo as horas do dia, como é o caso da onze horas (Portulaca grandiflora), que abre suas flores no horário que lhe dá o nome e aparece com suas lindas flores rosas ao final deste texto. Basta que nos fixemos em seus hábitos para saber o que querem nos dizer.

Enquanto isso, aproveite para marcar no calendário a florada dos ipês roxos que já começou, deixando  a rota dos pássaros muito mais iluminada!

Na semana que vem, falarei um pouco  mais sobre plantas que nos ajudam a contar o tempo.

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Fotos: domínio público/pixabay

Liliana Allodi

Geógrafa, paisagista, educadora ambiental e ilustradora científica. Começou a carreira em São Paulo como consultora paisagística. Durante 10 anos viveu no exterior (Austrália, Israel e USA) e neste último país, firmou suas habilidades para trabalhar com crianças. Atualmente dá aulas de horticultura para alunos do Ensino Fundamental, em Brasília. Também desenvolve projetos junto à Cia da Horta para centros de ensino, clubes e empresas.

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