O que colocar no lugar do ter, do comprar, do consumir?

O aniversário de 10 anos do projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana, comemorado em 2016, nos faz refletir sobre os enormes avanços obtidos pela sociedade brasileira no campo da conscientização sobre a cultura do hiperconsumo na qual estamos inseridos e os impactos do consumismo na infância. Ao longo desses anos, diversos atores se uniram à causa comum posta pela pergunta: como proteger a infância da comunicação mercadológica dirigida às crianças?

Essa batalha foi e continua a ser travada em várias frentes, tendo em vista sua relação sistêmica com diversas questões inerentes à infância contemporânea –  entre as quais a revolução digital e a erosão do brincar livre na natureza – e seus consequentes efeitos deletérios como a obesidade infantil, a erotização precoce, o estresse, a violência familiar e o consumo de álcool e  tabaco por pessoas cada vez mais jovens.

Um dos grandes feitos alcançados nesses dez anos de trabalho foi lançar luz ao fato de que não é apenas à família que cabe a responsabilidade de cuidar e proteger a criança dos apelos do consumo, como se isso fosse possível. Assegurar os direitos fundamentais das crianças é responsabilidade compartilhada e dever da família, da sociedade e do Estado, conforme está expresso no artigo 227 da Constituição Federal.

Hoje, podemos contar com avanços no campo jurídico, na mobilização da sociedade, na educação e na pesquisa. Somos uma sociedade que não aceita mais que um grande astro da televisão aberta lance uma camiseta voltada para meninas como os dizeres “Vem ni mim que eu tô facin“ (sic). Pressionadas por cidadãos mais atentos e esclarecidos, as empresas estão começando a repensar suas práticas e já temos exemplos de setores que se comprometeram a não anunciar mais para crianças com menos de doze anos de idade.

Mas resta uma pergunta: como será o adulto que essa criança se tornará amanhã? Que esforços são necessários para equipá-la de ferramentas pessoais para lidar com a pressão de um mundo onde a linguagem publicitária é quase onipresente e a comunicação mercadológica invade as casas e os espaços de convivência comunitária, transformando-as em consumidores desde o nascimento, ou até mesmo durante a gestação?

Sabemos que o mercado deseja que as pessoas dependam de objetos, numa clara exaltação de valores materialistas e individualistas. Esses objetos são quase sempre associados a momentos de prazer e alegria. Na verdade, querem nos fazer acreditar que só seremos felizes se adquirirmos bens e serviços, incessantemente. Sair desse ciclo vicioso é tarefa hercúlea e complexa e exige, no que diz respeito às crianças, envolvimento de todas as esferas nas quais elas estão inseridas: cidade, família e escola.

Acredito que uma das pistas nesse intrincado caminho, que é formar cidadãos capazes de lidar com a pressão do consumismo no futuro, está citada no artigo A Publicidade Dirigida ao Público Infantil: Considerações Psicológicas, de Yves de La Taille, publicado inicialmente no parecer sobre o Projeto de Lei (PL) 5921/2001, a pedido do Conselho Federal de Psicologia, e posteriormente publicado no livro Criança e Consumo: 10 anos de transformação.

O texto do PL afirma que: “As crianças e os adolescentes não têm a mesma capacidade de resistência mental e de compreensão da realidade que um adulto e, portanto, não estão em condições de enfrentar em igualdade de forças a pressão exercida pela publicidade no que se refere ao consumo. A luta é totalmente desigual”.

Em sua explanação sobre a dimensão afetiva da “capacidade de resistência mental”, Yves de La Taille afirma que devemos falar de “vontade” e “força de vontade”. Segundo ele, “Para resistir a propostas que procuram nos fazer sonhar com momentos de prazer e alegria, precisamos ter, nós mesmos, outros desejos de prazer e alegria”.

Precisamos investir tempo, energia e esforços em ajudar as crianças estabelecer um reservatório, uma base de experiências concretas, diretas e reais, baseadas em valores opostos ao da lógica do consumo na direção da afetividade, da beleza natural e da simplicidade, para que possam valer-se quando for preciso se confrontar com as ilusões do comprar, quando lhes disserem que é preciso ter para ser feliz.

A construção desse reservatório de experiências é feita no dia a dia, por todos nós, responsáveis pelas crianças, nas cidades, na família e na escola. Precisamos perceber que quando levamos uma criança para brincar na praça ao final do dia, quando abrimos espaço para o convívio interidades na prática escolar, por meio de tempo desestruturado destinado ao brincar livre, ou quando trabalhamos ao lado de nossos vizinhos para revitalizar um espaço público, estamos contribuindo para adicionar pequenos tijolinhos que vão ajudar a criança a construir referências de prazer e alegria que, um dia, serão contrapostas a propostas ligadas ao consumo.

Para que um adulto seja capaz de discernir sobre a fantasia, o sonho e o estímulo ao consumo de supérfluos, sobre o qual se baseia a comunicação mercadológica cada vez mais sofisticada, ele precisa ser capaz de mobilizar recursos internos ligados a projetos pessoais, valores e um estilo de vida consistentes o suficiente para fazer frente ao apelos da satisfação a partir de bens adquiridos. E esses recursos internos são desenvolvidos na infância, a cada momento passado ao ar livre, lendo um livro, ouvindo uma música, cozinhando, usando as mãos e o corpo, quando para ser feliz simplesmente basta estar vivo.

Neste final de ano, nós do projeto Criança e Natureza endossamos o convite feito pela Cientista Que Virou Mãe sobre construirmos uma cultura diferente dentro da nossa própria família. Vamos perguntar para as crianças o que, para além de brinquedos, elas gostariam de fazer? O que faltou para elas durante o ano que podemos fazer agora, juntos, como presente? Que tal propor um vale-caminhada? Ou um vale-acampamento? As ferramentas do Grupo Natureza em Família estão disponíveis para ajudar com ideias de atividades, lugares legais para conhecer, dicas de mobilização de famílias e como revitalizar a praça do seu bairro.

Que possamos usar as férias para construir “outros desejos de prazer e alegria”, lá fora, ao ar livre!!

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Foto: Rinaldo Martinucci/Divulgação Instituto Alana

Maria Isabel Amando de Barros

Engenheira Florestal e mestre em Conservação de Ecossistemas pela ESALQ/USP, sempre trabalhou com educação e conservação da natureza. É cofundadora da OutwardBound Brasil e atuou na gestão e manejo de unidades de conservação na Fundação Florestal do Estado de São Paulo. Depois do nascimento da Raquel e do Beni passou a estudar a relação entre a infância e a natureza no mundo contemporâneo. Desde 2015, trabalha como pesquisadora do programa Criança e Natureza do Instituto Alana.

3 comentários em “O que colocar no lugar do ter, do comprar, do consumir?

  • 8 de janeiro de 2017 em 2:00 PM
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    Maravilha de texto. Gostei muito.

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  • 16 de janeiro de 2017 em 6:20 PM
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    Precisamos ter uma nova conduta frente a guerra do consumismo. Resistir as tentações e sentir prazer na vida simples. Sentir o seu verdadeiro significado.

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  • 23 de julho de 2017 em 1:30 PM
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    Gostei muito do artigo. Sou estudante de magistério e em breve estarei em sala de aula educando crianças. Participo de um grupo de desenvolvimento pessoal e de uma escola de arte. Sempre que possível divulgo as informações do Instituto Alana e me coloco a disposição para parcerias e troca de informações. Parabéns e obrigado!

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