O que as memórias de infância têm a ver com direitos e Carnaval?

Em outubro do ano passado, o programa Criança e Natureza movimentou as redes (e a cabeça de muita gente) com a campanha #memóriasdainfância, com relatos de profissionais de educação relembrando os bons momentos vivenciados na infância, repletos de brincadeiras e experiências na natureza

As fotos e os textos da campanha me levaram a embarcar nessa viagem e, em meio a muitas lembranças de brincadeiras infinitas na rua, trilhas em parques urbanos e banhos de mangueira no quintal, uma memória em especial me chamou atenção: os bailes de carnaval que curti ao longo dos anos 90. Além das marchinhas e fantasias, o que – quase – todos tinham em comum era o fato de acontecerem ao ar livre, em clubes de campo, nas ruas sem saída ou em volta da piscina de algum amigo. 

Lembro-me das danças em roda, das folhas secas transformadas em confetes, das fantasias onde tudo o que remetia a natureza era a preferência: sol, florzinha, tartaruga, zebra, moita e por aí vai… Os anos foram passando, as fantasias foram mudando, as matinês ao ar livre da cidade do interior deram lugar a blocos matutinos – que seguem ao longo do dia todo pelas ruas do Rio de Janeiro e que, de certa forma, também me remetem à infância, ao desejo de festejar e brincar essa festa tão brasileira na rua, ao ar livre. 

O fato de falarmos de festa popular também traz à tona situações que, infelizmente, ainda são comuns em nossa sociedade, como crianças em situações de vulnerabilidade, seja trabalhando ou expostas a violência de todos os tipos. Nessas horas, mais do que nunca, é preciso colocar em prática o que diz oartigo 227 da Constituição Federal, que concede prioridade absoluta aos direitos das crianças e adolescentes brasileiros. 

Celebrar a vida, o lazer, a cultura e a dignidade, o respeito, a liberdade, a convivência familiar e comunitária, a salvo de toda forma de negligência, discriminação e exploração, deve ser comum à todas as infâncias, tem tudo a ver com o carnaval e com todas as festas populares mas, acima de tudo, é um direito! As crianças – tanto aquela que fui, pulando carnaval fantasiada de sol, rodeada de pessoas queridas que zelavam pelo meu bem-estar e de todas as demais, quanto aquelas com que hoje me deparo, emsituações opostasao que diz a lei – estão sob nossa responsabilidade e também do Estado Brasileiro. 

Festejar o carnaval, data significativa para o nosso povo, é também e reafirmar o nosso compromisso com a vida, com a alegria, com a fantasia, e uma oportunidade simbólica e expressiva de, mais uma vez, honrar as infâncias. Afinal, se uma festa ao ar livre, no meio da rua, é boa para as crianças, há de ser boa para toda a sociedade! 

Edição: Mônica Nunes

Foto: Juliana Simões

Raika Moisés

É mãe do João Miguel, jornalista de formação, doutoranda em Comunicação e Cultura pela ECO/UFRJ, com pesquisa sobre relações raciais, desigualdades, gênero e diversidade. Há mais de dez anos trabalha em organizações da sociedade civil na defesa, garantia e promoção de direitos. Desde 2017, é assessora de comunicação do programa Criança e Natureza, do Instituto Alana

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