O que a Política Nacional de Resíduos Sólidos tem a ver com a economia solidária?

Quando um problema vira solução de primeira linha, ainda mais se envolve reciclagem de materiais, o planeta agradece. Imagine quando a solução, além de contribuir com a questão ambiental, promove a inclusão de catadores e catadoras.

É essa história que trago aqui hoje.

Em São Bernardo do Campo, um condomínio com 1.192 apartamentos que tinha problemas com o destino final dos resíduos encontrou resposta no trabalho da Cooperativa de Trabalho Nova Fênix dos Catadores e Catadoras de Diadema, a Cooperfenix.

O material descartado por mais de quatro mil pessoas se acumulava em espaço designado para isso pelo Condomínio Anima Clube Parque, sem a destinação adequada, e tornava-se cada vez mais um problema para os moradores.

De uma conversa entre Ana Lúcia, empreendedora da Rede Balsearsobre a qual já falei aqui no blog – e uma assessora da Unisol Brasil, Elizabete Rocha, veio a solução. A Cooperfenix, na época com 17 catadores e catadoras, vinha registrando uma retirada mensal de material muito baixa, o que fazia com que a renda média ficasse entre R$ 200 e R$ 300. Havia dias em que eles nem tinham o que separar.

Com a atuação da cooperativa no condomínio, os resíduos passaram a ser devidamente encaminhados para a reciclagem e contribuíram para mais do que dobrar a quantidade de material recolhido pela cooperativa, ampliando também o faturamento mensal.

“A parceria está sendo ótima pra gente. Tínhamos uma renda muito baixa, coletando e separando cerca de 12 toneladas por mês. Passamos para 35 toneladas. Outros condomínios próximos, que viram que estávamos coletando resíduos, nos procuraram. Vieram mais dois. Em um mês o aumento foi absurdo. Nossa renda média aumentou para cerca de R$ 1.000 a R$ 1.100 agora. Esse contato com a Ana foi maravilhoso”, diz Maria Mônica da Silva, da Cooperfenix.

A Política Nacional de Resíduos Sólidos, de 2010, prevê a integração dos catadores e catadoras nos processos de reciclagem. Eles prestam um verdadeiro serviço ambiental às cidades, evitando que esse material vá parar nos aterros e depósitos irregulares.

“Todas essas toneladas de materiais que separamos deixam de agredir o meio ambiente. Isso tem uma importância estupenda para o planeta. Porque você deixa de extrair novas matérias primas da natureza e coloca o resíduo de volta na cadeia produtiva. Isso tem um valor inestimável para o meio ambiente e para a sociedade. Em especial porque o trabalho que a gente faz aqui não é só separação, triagem e comercialização. Estamos transformando a vida de pessoas”, explica Mônica, que continua: “Esse tipo de articulação que estamos fazendo com os condomínios significa, de fato, praticar o que a gente fala na economia solidária. Sair do discurso e ir para a prática. O fato de a Ana se preocupar porque estávamos em 17 pessoas e, em alguns dias, sem trabalho gerou essa possibilidade, e isso sim é praticar a Economia Solidária. Porque ela trabalha em outra área, mas entendeu a nossa necessidade”.

A Cooperfenix existe há um ano e meio e tem sede na cidade de Diadema. Hoje a cooperativa tem dois galpões em Diadema e é composta por 38 catadores e catadoras. “Eu sou catadora a minha vida toda. Fui renascendo, incluindo, reciclando não só resíduos, mas vidas. Tem pessoas que trabalham aqui com a gente que têm problema com álcool e outras drogas. É um trabalho importante que fazemos aqui, de inclusão mesmo. Com solidariedade, autogestão e democracia”, acrescenta Mônica.

Política Nacional de Resíduos Sólidos, Economia Circular e Economia Solidária

Você já deve ter ouvido falar de economia circular. A forma mais simples de defini-la é como oposição à economia linear que conhecemos e praticamos – extrair, produzir, descartar. A economia circular propõe que os recursos que extraímos e produzimos permaneçam em circulação por meio de cadeias inteligentes e integradas. Não existe lixo, e sim permanente reintegração desses recursos em circulação na cadeia (veja o especial que o Conexão Planeta publicou sobre economia circular este ano)

A economia circular contribui para a minimização dos impactos ambientais. Mas não só isso. Ela tem potencial de estruturar uma cadeira de recuperação de materiais a partir da integração de cooperativas de catadores e catadoras de materiais recicláveis, promovendo também a inclusão dessas pessoas. Ou seja, ela é também solidária.

Fica aqui o convite para entender um pouco mais sobre esses processos e como nossos catadores e catadoras são fundamentais na implementação real da Política Nacional de Resíduos Sólidos. E também sobre como a economia circular e a economia solidária se irmanam nesse processo.

A publicação Política Nacional de Resíduos Sólidos: implementação e monitoramento de resíduos urbanos, lançada pelo Instituto de Energia e Ambiente da USP e pelo Observatório da Política Nacional de Resíduos Sólidos, é uma boa introdução a esses temas.

E aí, como o seu condomínio lida com os materiais recicláveis?

Foto: Pixabay/bluebudgie

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

Deixe uma resposta