O poder de uma boa história para mobilizar as pessoas


Contar – e escutar – histórias
faz parte da natureza humana. Antes da invenção da escrita, era basicamente por meio da oralidade que se compartilhavam informações, conhecimentos e histórias que permitiam aos grupos humanos se manterem coesos frente ao ambiente hostil.

Também era essencial para transmitir e reter conhecimentos.

Mesmo com a invenção da escrita, que produziu uma forma mais permanente de registro das histórias e transmissão de conhecimento, o ato de contar histórias seguiu sendo fundamental para a humanidade. Todas as culturas encontraram suas maneiras de proteger a oralidade como elemento de coesão social.

Histórias são poderosas por várias razões.

Antes de mais nada, histórias criam conexão emocional. Falam ao coração e despertam a imaginação. Mesmo um relato baseado unicamente em fatos, se contado de uma certa forma, pode nos levar da pura apreciação intelectual para uma um estado de enlevo emocional.

Exatamente por criarem esta ponte emocional com experiências ou sentimentos, que cada um de nós carrega consigo, histórias são ótimos canais para fixar conceitos e ideias.

Por exemplo, a empresa de roupas outdoor Patagonia usa de vários recursos de storytelling para convencer as pessoas a reciclar suas roupas antes de comprar novas. Embora isto pareça contrário ao próprio negócio, na verdade reforça a imagem de inovação e sustentabilidade da empresa.

O que leva ao terceiro ponto: histórias ajudam a criar ou reforçar o sentido de pertencimento. A conexão criada com as histórias são mais fortes quanto mais próximas são da experiência, interesses e expectativas dos próprios ouvintes. Isto ajuda a criar um sentimento de comunidade.

Muito da estrutura básica do conceito de storytelling se baseia na ideia da Jornada do Heroi, também conhecida como monomito, um conceito sistematizado em 1949 pelo antropólogo Joseph Campbell e que estaria na base das diversas mitologias dos mundos Ocidental e Oriental. Essencialmente, é a descrição do arco narrativo de um personagem desde o momento em que se vê imbuído de uma missão que o tira do seu cotidiano, a rota que segue a partir daí, os apoios e dificuldades que enfrenta até alcançar seu objetivo final.

Esta é uma simplificação do conceito original, mas encontramos a Jornada do Herói em narrativas tão díspares como a história de Jesus Cristo, o mito grego de Jasão e o Velocino de Ouro ou, até mesmo, na saga Guerra nas Estrelas.

O fato é que este ciclo que incorpora um chamado à ação, os desafios enfrentados e a vitória final está na base das melhores histórias contadas em todos os tempos.

E que faz uma boa história?

Um elemento imprescindível é a autenticidade. A história tem de vir de dentro e refletir um estado de espírito que permita expor uma verdade interior. Se for uma história metafórica, isto tem de ficar claro. Sobretudo, não se deve nunca ‘vender’ como verdadeira uma história fictícia.

Basta lembrar o caso da Diletto, cujos picolés, segundo o storytelling da empresa, teriam sido criados por Vittorio Scabin, avô do fundador da marca, que os fabricaria na Itália e teria trazido a receita para o Brasil fugindo da Segunda Guerra Mundial. Mas, na verdade, o “Nonno Vittorio” nunca existiu. Quando a verdade por trás da storytelling da Diletto veio à tona a empresa recebeu muitas críticas.

Outro elemento importante para uma boa storytelling é construir uma narrativa que seja coerente, de preferência com começo, meio e fim. Isto serve tanto para histórias longas, como curtas. O importante é garantir sua consistência, de forma a facilitar a conexão com os interlocutores.

Finalmente, conhecer o público a que a história se destina é também fundamental. Embora parta de nós, a história se destina a outras pessoas. Sendo assim, é importante saber quem são. Que tipo de assuntos lhes interessa? Que linguagem é a melhor para se comunicar? Quanto mais bem ajustada for a história – na forma e no conteúdo – às diferentes audiências, mais impacto terá.

Um exercício que sugiro fazer é registar uma história que seja importante para você ou sua empresa ou organização e recontá-la pensando em diferentes audiências. Como seria esta história contada para um grupo de crianças do segundo ano fundamental (8 anos), adolescentes de periferia, aposentados, jovens profissionais entre 25 e 35 anos de idade?

Em resumo, compartilhar conhecimento intelectual é importante para mostrar que você domina efetivamente o tema de interesse.  Mas ainda mais importante é a capacidade de gerar vínculos emocionais, de ganhar o coração das pessoas.

Junte os dois, cérebro e coração, e você terá uma combinação poderosa.

Uma dica final que dou é lembrar que as histórias estão por aí, em todos os lugares. Ou seja, circule, fale com as pessoas – todas as pessoas – preste atenção nas falas, nos gestos. Escute, pergunte, instigue, registre. Tudo pode servir como ponta de lança de histórias que ajudam a criar conexões com as pessoas.

E são estas conexões que mudam o mundo.

Foto: Mike Erskine/Unsplash

Jornalista, com mestrado em relações internacionais, Renato sempre trabalhou com temas ligados à mobilização e engajamento em causas de impacto social. Morou oito anos no Peru, de onde conheceu bastante da América Latina. Trabalhou em organizações como Oxfam GB, Purpose, Instituto Akatu e IFC/Banco Mundial. Foi sócio de duas consultorias – Gestão Origami e Together – e, hoje, é Diretor de Engajamento do Greenpeace Brasil

Renato Guimarães

Jornalista, com mestrado em relações internacionais, Renato sempre trabalhou com temas ligados à mobilização e engajamento em causas de impacto social. Morou oito anos no Peru, de onde conheceu bastante da América Latina. Trabalhou em organizações como Oxfam GB, Purpose, Instituto Akatu e IFC/Banco Mundial. Foi sócio de duas consultorias - Gestão Origami e Together – e, hoje, é Diretor de Engajamento do Greenpeace Brasil

Um comentário em “O poder de uma boa história para mobilizar as pessoas

  • 14 de maio de 2018 em 10:13 AM
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    Que história mais importante do que a nossa própria quando a ouvimos ser contada pelo próprio coração no intervalo do silêncio entre um ribombar de foguetes e outro, permitidos apenas sons de passarinhos? Hora mágica essa, de auto avaliação sem traumas, onde reformas íntimas são possíveis e onde se recicla o lixo mental acumulado em décadas, supérfluos considerados imprescindíveis quando foram pensados ou sentidos, mas que em verdade, ocupam o lugar importante de nós mesmos, indevidamente. Nossa própria história, de preferência sem os floreados e berloques que adquirimos para enfeitar a vida, como se a vida não fosse ela só, belamente a íntegra do TODO; ouvi-la uma vez que ninguém a pode saber de cor tão bem como a sabemos e senti-la, chorando todas as lágrimas que sufocamos na pseudo coragem do ser superior que ainda não somos, para contá-la a alguém que precise ouvi-la porque esqueceu a sua própria, ou simplesmente nos conceda o beneplácito de escutá-la, apenas, sem olhar o relógio.

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