O poder das legendas


Desde que me conheço por fotógrafo e, até mesmo, antes disto, quando era um mero admirador dos olhares alheios e suas frugais revelações em forma de fotografia, tento entender o porquê da informação distorcida que algumas pessoas atribuem às legendas de seu próprio trabalho. Mentir para o leitor é, antes de tudo, mentir pra si mesmo.

Afinal, aquele fotógrafo, ou aspirante, sabe o que aconteceu, estava lá na cena que registrou, onde foi e sob quais circunstâncias. Então, porque atribuir-lhe uma história que não existiu? E agora, neste mundo digital onde as pessoas querem alcançar a perfeição a todo custo, a fotografia virou um mero instrumento de brincar em ser divino.

Assim os pássaros começam a ter cores extravagantes, os horizontes se tornam imagens psicodélicas e os insetos ficam tão coloridos que nem mesmo eles se reconheceriam num espelho. Foi-se o tempo das cores reais ou em tons pastel.

A interferência está institucionalizada e as legendas ainda mais banalizadas.

Talvez a sociedade tenha esta necessidade inerente à observação de uma fotografia: a de quantificar, mistificar, endeusar a imagem, e por conta disto, quem a produziu.

Sobre isso, Susan Sontag escreveu: “Todas as fotos esperam sua vez de serem explicadas, ou deturpadas por suas legendas”.

Sem questionar o gosto pessoal de distorcer a própria imagem que registrou, todo fotógrafo tem uma grande responsabilidade, como ser humano que é, de atribuir à sua obra a exata informação sobre a cena que documentou. Pode até haver um certo “polimento” na história, mas não distorção. Afinal, polir é dar brilho, distorcer é alterar.

Se existe a premissa de que a fotografia eterniza um momento, que cada um possa ser nobre o suficiente para eternizar uma verdade.

Geólogo formado pela USP e especializado em Espeleologia, é fotógrafo e escritor desde 1992 e um dos mais ativos profissionais na documentação de projetos conservacionistas e etnográficos da atualidade. Autor de 13 livros fotográficos, dois de poesia e centenas de reportagens publicadas em revistas nacionais e estrangeiras. Ministra palestras e encontros sobre fotografia, conservação e filosofia de viagem.

Adriano Gambarini

Geólogo formado pela USP e especializado em Espeleologia, é fotógrafo e escritor desde 1992 e um dos mais ativos profissionais na documentação de projetos conservacionistas e etnográficos da atualidade. Autor de 13 livros fotográficos, dois de poesia e centenas de reportagens publicadas em revistas nacionais e estrangeiras. Ministra palestras e encontros sobre fotografia, conservação e filosofia de viagem.

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