O poder das histórias pessoais em campanha contra proibição do aborto

O dia 25 de maio de 2018 foi uma sexta-feira histórica para os irlandeses. Após meses de um debate intenso, quase dois terços da população votante em um referendo nacional disse “Sim” para o fim da legislação que proibia o aborto. Este resultado foi ainda mais surpreendente pela tradição religiosa católica da Irlanda. E o Sim ganhou mesmo em pequenas cidades e comunidades rurais, consideradas bastiões dos apoiadores da proibição do aborto.

Em um artigo bem interessante, a ativista digital Clodagh Schofield, que esteve diretamente envolvida com a organização da campanha pelo Sim, compartilha suas aprendizagens de mobilização ao redor de temas complexos como este. Seus conselhos podem ser úteis nos tempos de confrontação e recusa ao diálogo, que estamos vivendo no Brasil.

A principal estratégia empregada foi a de estimular conversações diretas entre as pessoas sobre o aborto. O interessante é que, apenas quatro meses antes de o referendo acontecer, uma pesquisa havia mostrado que mais de 50% da população se sentia desconfortável ao falarsobre o assunto com parentes e amigos.

Isto criava uma barreira de partida para a campanha expor sua visão sobre a importância de acabar com a proibição ao aborto e deixava um campo aberto para os defensores do Não espalharem mensagens reducionistas sobre o tema. De fato, falar sobre aborto, mesmo entre pessoas que se conhecem, é um tipo de conversa muito difícil e a tática foi a de tentar facilitar estas conversações.

Para isso, foram usadas diferentes ferramentas, de grupos de voluntários treinados para falar sobre o fim da lei anti-aborto à segmentação do público entre favoráveis, contrários e indecisos quanto ao fim da legislação de forma que aqueles que estivessem a favor pudessem conversar diretamente com quem estivesse contra.

Houve treinamentos online para as pessoas que conduziriam estas conversas, de forma que estivessem preparadas com argumentos e contra-argumentos. Um aplicativo, o Mobilisr, foi criado para permitir que as pessoas mandassem mensagens diretamente para seus contatos pessoais no Facebook Messenger, WhatsApp e Telegram.

Em vez de se debater diretamente com os argumentos e ataques levantados pelos contrários ao fim da legislação anti-abortista, os defensores do Sim buscaram usar mensagens centradas em temas como cuidado, compaixão e cuidado com a saúde das mulheres.

Ou seja, buscaram focar na visão e nos valores do movimento e não na agenda dos opositores.

Houve cuidado em contar histórias reais individuais, em vez de falar de mulheres coletivamente. A ideia era abrir caminho para conversas baseadas na experiência concreta das pessoas, especialmente considerando-se que uma grande parte da população indicava conhecer ou conviver com alguém que havia passado pela experiência do aborto, feito de forma clandestina ou em outros países.

Um exemplo interessante para levar a atenção do público para as histórias individuais foi a página de Facebook In her shoes, criada de forma voluntária, e com um formato extremamente simples, mas efetivo. De forma geralmente anônima, as mulheres mandavam suas histórias pessoais acompanhadas de uma foto de um par de seus sapatos, sandálias, chinelos etc. Os posts rapidamente viralizavam, ajudando as pessoas a, literalmente, se sentirem nos pés das mulheres passando por situações de aborto sem nenhuma assistência pública.

Uma história particular catalisou a atenção pública a ajudou bastante na vitória final do Sim. A dentista de origem indiana Savita Halappanavar estava no 17o. mês de gestação quando começou a sentir dores nas costas. Ao procurar um hospital em Glasgow recebeu o diagnostico de que estava sofrendo aborto espontâneo.

Ela foi internada para avaliação e continuou sentindo fortes dores. Requereu, então, que o aborto fosse feito, mas isto foi negado pelo corpo médico. Como o feto ainda estava vivo e a avaliação era de que a saúde dela não estava em imediato risco, os médicos alegaram que estavam com as mãos atadas. Em poucos dias, o coração do feto parou de bater e ele foi retirado. Mas já era tarde. Savita estava com septicemia (infecção generalizada) e morreu poucos dias depois.

O caso se transformou em um ponto de virada importante no debate sobre o aborto na Irlanda. Os pais de Savita publicaram um vídeo muito tocante, contando a história da filha e pedindo aos votantes que decidissem pelo Sim, para que a lei fosse extinta. Pesquisas feitas logo depois da votação indicaram que pelo menos 8% dos que compareceram às urnas atenderam a este apelo.

A votação que, de fato, liberou o aborto em um país onde, até alguns anos atrás, seria impensável pensar em um amadurecimento da sociedade. Mas indica, especialmente, a importância de estar atentos ao momento e de propor que as pessoas sejam as condutoras da campanha a partir de suas experiências e histórias pessoais.

Principalmente, é preciso abrir canais de conversação entre as pessoas no seu cotidiano, saindo da esfera dos conceitos generalistas de fundo ideológico e/ou religioso.

Fotos: Divulgação 

Jornalista, com mestrado em relações internacionais, é especialista em temas ligados à mobilização e engajamento em causas de impacto social. Morou oito anos no Peru, de onde conheceu bastante da América Latina. Trabalhou em organizações como Oxfam GB, Purpose, Instituto Akatu e IFC/Banco Mundial. Foi sócio de duas consultorias – Gestão Origami e Together – e, hoje, é Diretor de Engajamento do Greenpeace Brasil

Renato Guimarães

Jornalista, com mestrado em relações internacionais, é especialista em temas ligados à mobilização e engajamento em causas de impacto social. Morou oito anos no Peru, de onde conheceu bastante da América Latina. Trabalhou em organizações como Oxfam GB, Purpose, Instituto Akatu e IFC/Banco Mundial. Foi sócio de duas consultorias - Gestão Origami e Together – e, hoje, é Diretor de Engajamento do Greenpeace Brasil

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