O pior do fogo pode ainda estar por vir

O pior do fogo pode ainda estar por vir

A quantidade de incêndios na Amazônia entre os meses de janeiro e agosto cresceu mais de 80% em 2019, quando comparada com 2018. Houve anos piores, mas ainda estamos no início da estação do fogo, e os próximos meses são de alto risco.

Ao cruzar os dados, observa-se uma enorme sobreposição entre as áreas de alertas de desmatamento e as áreas de focos de calor (fogo) detectados por satélite. O fogo de fumaça densa e alta é típico de queima de floresta. Não se trata de uma simples limpeza de pasto, em geral caracterizada por uma fumaça mais rala e rasteira.

Os incêndios florestais dependem essencialmente de dois fatores: combustível e ignição. A floresta derrubada quando seca é o combustível e a ignição em estação seca é quase sempre uma ação antrópica – causada pelo homem. Não é acidente.

É parte da dinâmica do desmatamento em regiões tropicais. Primeiro, se põem abaixo as grandes árvores; depois passa-se o “correntão” para derrubar a vegetação mais baixa; e após algumas semanas secando, ateia-se fogo, a fim de terminar o serviço.

A floresta que queima agora foi derrubada em abril, maio e junho. O que veio abaixo em julho e agosto vai queimar em setembro e outubro. Como a área detectada de desmatamento cresceu muito em julho (278%) e agosto (118% até o dia 23), o pior do fogo ainda está por vir.

É fundamental reduzirmos o combustível e evitarmos a todo custo novas ignições. É preciso que se determine a moratória do uso do fogo na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal até o final da estação seca, ou seja, pelo menos até o final de outubro. Junto com esta medida, é essencial uma campanha ostensiva de comunicação, nos moldes das campanhas para eliminar os focos de reprodução do mosquito da dengue, para restringir o uso do fogo como prática agrícola.

Por outro lado, é urgente uma ação de força com o objetivo de estancar o desmatamento que está acelerando. Mais de 90% do dele é ilegal, e muitas vezes, está ligado às máfias de roubo de madeira, ao garimpo e à grilagem de terras. Esses grupos criminosos são alimentados pela impunidade.

São necessárias ações exemplares de fiscalização. Primeiro, nas áreas protegidas como Unidades de Conservação e Terras Indígenas, focando nos garimpos e nas regiões recentemente desmatadas, com apreensão de máquinas e equipamentos e, se necessário, sua inutilização.

E em segundo lugar, é preciso promover o imediato embargo de todas as áreas do Cadastro Ambiental Rural com desmatamento ilegal — começando por aquelas identificadas nos alertas do Sistema de Detecção de Desmatamentos em Tempo Real (Deter) e com laudos completos já detalhados pelo MapBiomas Alerta.

A fim de lidar com a pressão da grilagem, deve-se estabelecer a distinção para uso sustentável das Terras Públicas Não Destinadas na Amazônia. Para estimular atividades sustentáveis, tem que se restringir o crédito rural às atividades que não envolvam desmatamento, combater os madeireiros que atuam ilegalmente e ampliar significativamente as áreas de concessão florestal.

O que vivemos é uma crise real, que pode se transformar numa tragédia anunciada com incêndios muito maiores que os atuais se não forem freados imediatamente. É hora de juntar forças, e não dividir.

Nós temos que aprender com a história. Todos os momentos de sucesso em derrubar as taxas de desmatamento — como entre 2004 e 2012 — foram forjados em um ambiente de ações compartilhadas entre os governos federal e estaduais, organizações não governamentais, o setor empresarial, cientistas e a comunidade local. Falta-nos hoje liderança para agregar. Para desagregar, está sobrando.

*Texto publicado originalmente em 27/08/19 no jornal O Globo

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Foto: Marizilda Cruppe

Tasso Azevedo

Engenheiro florestal, consultor e empreendedor social em sustentabilidade, floresta e clima. Coordenador do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) do Observatório do Clima e colunista de O Globo e revista Época Negócios. Foi diretor geral do Serviço Florestal Brasil, diretor executivo do Imaflora e curador do Blog do Clima

Um comentário em “O pior do fogo pode ainda estar por vir

  • 13 de setembro de 2019 em 8:30 AM
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    Concordo que as queimadas tem aumentado muito, só que até o presente momento não vi de nenhum órgão seja governamental ou não a tomada de uma atitude eficiente para combater as queimadas. Em diversos países quando se fala em queimadas, quando estas queimadas são mostradas pelos órgãos de imprensa vemos aviões e helicópteros auxiliando no combate as chamas. Aqui no Brasil o máximo que se vê são bombeiros e voluntários “tentando” debelar as chamas sem ver seus esforços terem um rápido resultado. A anos fico pensando o porque de tal diferença ??? Se o governo gasta milhões de reais fazendo doações a ONGs que “dizem” estar preocupadas com a conservação seja da Amazônia ou de qualquer outro bioma, porque estas ONGs ou os órgãos do governo não tomam uma atitude eficaz fazendo que deputados ligados ao meio ambiente façam algum projeto de lei criando um plano real de combate a incêndios. Na forma que tenho visto o tratamento deste assunto oque tenho notado é que falta muita vontade seja de uma ou de outra parte para que o assunto seja iniciada sua resolução. é lamentável isto, ver que na realidade tudo não passa de um jogo de interesse de ambas as partes.

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