O pato-mergulhão e eu

A primeira vez em que tive oportunidade de ver uma família de patos-mergulhão foi em 2004, e confesso que fiquei muito curioso sobre esta ave tão arisca e pouco conhecida.

A falta de documentação sistemática e profissional me levou a uma dedicação assídua à espécie na Serra da Canastra, que culminou na matéria Quase uma Lenda, publicada em 2006 na revista Terra da Gente. Foi a primeira publicação sobre esse pato numa revista não científica.

Nos três anos seguintes, voltei consecutivamente para documentar a época de reprodução e nascimento dos filhotes, assim como o trabalho desenvolvido por pesquisadores. Quanto mais eu ficava camuflado, dia após dia, fotografando o comportamento daquelas aves aparentemente tão frágeis, mais eu queria ficar ali, imóvel, alheio a todo e qualquer pensamento, simplesmente observando. Foi tanto tempo de tocaia que cheguei a contar quantos segundos um pato ficava de olhos fechados, em seu momento de sono e vigília!

Mas creio que o auge da dedicação (para não dizer obsessão) aconteceu quando me pendurei numa corda para fotografar a fêmea saindo do ninho com seus filhotes. Foram quatro dias consecutivos em que me instalei numa corda de rapel num barranco de terra muito íngreme.

Para não interferir no comportamento da fêmea, me colocava nessa posição sempre ao amanhecer, antes de sua saída matinal da cavidade. Ficava ali, deitado sob um pesado manto camuflado, apenas com a lente para fora do pano. Assim, a única visão que eu tinha era do buraco. Esta situação se prolongava até o final da tarde, quando tínhamos a certeza de que a fêmea não mais sairia do ninho.

No quarto dia, sob um calor desgastante e com muitas picadas de carrapato por todo o corpo, num certo momento escutei um barulho sutil de terra caindo. Olhei através da lente e vi a cabeça da fêmea para fora do buraco. De repente os filhotes apareceram! Foram saindo devagar, desconfiados até desaparecerem do meu campo de visão.

Foram quatro dias, cerca de 40 horas parado na mesma posição, para observar não mais do que 3 minutos do comportamento de uma das aves mais raras e ameaçadas do mundo. Mas valeu a pena. É o que sempre digo: fotografar é ser amigo do tempo.

No vídeo abaixo, realizado pela National Geographic, relato minha experiência com o pato-mergulhão na Serra da Canastra.

Geólogo formado pela USP e especializado em Espeleologia, é fotógrafo e escritor desde 1992 e um dos mais ativos profissionais na documentação de projetos conservacionistas e etnográficos da atualidade. Autor de 13 livros fotográficos, dois de poesia e centenas de reportagens publicadas em revistas nacionais e estrangeiras. Ministra palestras e encontros sobre fotografia, conservação e filosofia de viagem.

Adriano Gambarini

Geólogo formado pela USP e especializado em Espeleologia, é fotógrafo e escritor desde 1992 e um dos mais ativos profissionais na documentação de projetos conservacionistas e etnográficos da atualidade. Autor de 13 livros fotográficos, dois de poesia e centenas de reportagens publicadas em revistas nacionais e estrangeiras. Ministra palestras e encontros sobre fotografia, conservação e filosofia de viagem.

Deixe uma resposta