O parto do tatu-bolinha

tatu

Aproveitando o entusiasmo trazido pela Carol – nós duas dividimos este blog no Conexão Planeta, que tem o mesmo nome do programa que desenvolvemos no Instituto Romã –, desde sua visita às Escolas da Floresta, vamos retomar o tema da intimidade e do risco necessários ao brincar com a natureza.

Quando as crianças estão livres para criar suas brincadeiras e curiosas por tudo o que acontece com as plantas e os animais, precisam ao mesmo tempo saber até onde podem ir para não se machucar e não agredir os outros seres vivos. Esses momentos de desenvolvimento da intuição compreendem uma abertura para o desconhecido, pois um animal ou planta nunca antes vistos não revelam se são frágeis ou muito sensíveis ao contato, ou se picam ou machucam de alguma forma. É preciso desenvolver sensibilidade e empatia que, sem o risco, não acontecem.

Os educadores que trabalham com esse tipo de abordagem devem saber quais são os riscos e podem ajudar as crianças a conhecer os limites, sem tolher-lhes a liberdade de explorar e de aprender pela experimentação. A Carol tem uma bela história que ilustra muito bem esse momento:

“Era uma escola como muitas. Quase tudo era cimento, quase tudo era muro, quase todos os brinquedos eram de plástico. Quase tudo. Em um cantinho, uma árvore alta e frondosa se escondia em um pequeno canteiro, junto a grama e outras plantas que resolveram nascer por ali. 

Eu era professora nessa escola. Tentava de todo jeito colocar as crianças da minha turma para brincar com a natureza. Na sala de aula havia cestos com sementes, gravetos, pedras, flores e folhas. As crianças criavam construções, desenhos, poções. Na área externa, muitas eram as maneiras de tentar aproximá-los dos canteiros, das folhas que caiam no chão, dos passarinhos.

Mas os canteiros possuíam uma barreira chamada adulto. Quando uma criança estava próxima dele e sem a minha companhia, logo se escutava: “Não chega ai que tem formiga!”, “Não entra ai que você vai se sujar!”.

Entre reclamações e resmungos dos educadores, uma das crianças encontrou um tatu-bolinha. Encontrar um bichinho desses, em tal situação, é uma preciosidade e tanto. Logo, o alvoroço começou. Todos queriam chegar perto ou ter o tatu em suas mãos. Neste momento, comecei a mediar o passeio do tatu entre tantas mãos. Ele caminhava por uma mão pequenina, eu o colocava de volta na minha. Aproximava-o daqueles que não queriam pegar, mas estavam curiosíssimos para observar.

Tatu vai, Tatu vem, uma criança disse espantada: “Carol, tem um monte de bolinha branca na sua mão!”. Eis que me vi em uma cena daquelas que pensamos que só é possível assistir no Discovery Channel. As bolinhas brancas que corriam pela minha mão eram micro-tatuzinhos que estavam nascendo. E não paravam de nascer bem ali, na minha mão! Corri para perto de um canteiro, e junto com as crianças tentávamos colocar o máximo de tatus-filhotes na terra, mostrando-lhes que, nela, com a mãe, estariam seguros. Uma experiência única e que foi rapidamente registrado nesta única foto”.

Estar em contato com a natureza é essencial para as crianças experimentarem a liberdade e aprenderem espontaneamente. Mesmo em ambientes onde parece quase não haver possibilidades – tanto pelo excesso de concreto e consequente falta de terra e áreas verdes, quanto pelas pessoas que não entendem a sua importância -, a natureza prepara suas surpresas!

Se houve algum dano para os filhotes do Tatu (não sabemos, mas acreditamos que todos sobreviveram), ele foi equilibrado pela semente de encantamento e entusiasmo plantada no coração daquelas crianças. Sem correr esse risco, como elas irão aprender a delicadeza e a beleza das coisas vivas?

Foto: Renata Stort

Ana Carolina é pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica, e trabalha com primeira infância. Rita é bióloga e socióloga, ministra cursos, vivências e palestras para aproximar crianças e adultos da natureza. Quando se conheceram, em 2014, criaram o projeto “Ser Criança é Natural” para desenvolver atividades com o público. Neste blog, mostram como transformar a convivência com os pequenos em momentos inesquecíveis.

Ana Carolina Thomé e Rita Mendonça

Ana Carolina é pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica, e trabalha com primeira infância. Rita é bióloga e socióloga, ministra cursos, vivências e palestras para aproximar crianças e adultos da natureza. Quando se conheceram, em 2014, criaram o projeto "Ser Criança é Natural" para desenvolver atividades com o público. Neste blog, mostram como transformar a convivência com os pequenos em momentos inesquecíveis.

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