O parto da cutia

parto da cutia

Sempre me perguntam qual foi o momento mais emocionante que já vivi em campo. Com mais de uma década de estrada na área da fotografia de natureza e conservação, já presenciei situações incríveis, dignas dos melhores episódios dos aventureiros da National Geographic e Discovery Chanel, que assistia na televisão quando criança.

Porém, uma das lembranças mais marcantes para mim não veio de uma paisagem surreal, ou de um animal extremamente raro, mas sim de um momento simples e ao mesmo tempo fantástico, pelo qual todo animal tem que passar, de uma forma ou de outra. Um momento em que a confiança valeu mais do que o acontecimento em si.

O nascimento de qualquer animal é um dos mais frágeis de sua existência. Tanto para a mãe, por estar debilitada, quanto para o filhote, por estar indefeso, com movimentos limitados e sem conhecer nenhum dos perigos desse mundo cruel no qual acabou de chegar. Foi em uma dessas situações que me vi presenciando o parto de uma espécie selvagem no meio da floresta.

Estávamos andando nos arredores da Reserva Biológica de Sooretama, no Espírito Santo, mais precisamente nas matas da Floresta Cupido & Refúgio, lugar abençoado naquela região, onde a preservação só ocorreu graças à consciência ambiental dos proprietários. Hoje em dia, é uma área excelente para observação e fotografia de natureza.

Poucos metros após entrar na floresta, ouvimos um barulho alto na serapilheira (folhas caídas no chão), característico de quando um animal nota sua presença, antes de você avistá-lo, e dispara mata adentro. Normalmente, olho para tentar identificar o bicho, que logo desaparece. Porém, naquela situação, o animal não se afastou muito.

Eu e minha equipe ajoelhamos para demonstrar que não representávamos ameaça. Percebi que se tratava de uma cutia, um pequeno roedor que habita o chão da floresta e mede cerca de 40 centímetros de comprimento.

A cutia é um animal bastante arisco e difícil de ser observado, por ser presa de muitas outras espécies. Ela, ao perceber que não tentamos perseguí-la, hesitou por alguns momentos e aos poucos começou a voltar para o mesmo lugar onde se encontrava antes de perceber nossa presença. Logo percebi que se tratava de uma toca. Ao lado da mesma, imóvel, estava um pequeno filhote. A mamãe cutia bravamente voltou para perto de sua cria, acabou de limpá-lo e o empurrou para dentro do abrigo. Neste momento, ela nos olhou e começou a se limpar tranquilamente.

Como percebi que ela estava bem calma, mas ainda atenta, pedi para minha equipe se afastar, enquanto eu continuei de joelhos. Sabia que, normalmente, esse tipo de animal dá à luz a mais de um filhote. Esperava que ela parisse outros filhotes.

Evitando contato visual, sem fazer barulho algum, tentei me fazer parecer como parte da mata. Nem mesmo me defendia dos milhares de mosquitos que se alimentavam de meu sangue. A cutia pareceu entender que eu não representava uma ameaça e sua expressão mudou. Estou acostumado com animais em casa, sei perfeitamente como é um olhar de medo ou de tranquilidade. Meu coração se alegrou quando a mamãe aceitou minha presença naquele que era o momento mais sublime de sua vida.

Aos poucos, percebi que ela começava novamente o processo do parto, com os filhotes nascendo a seu tempo, um a um, bem na minha frente. Acompanhei ao menos mais três nascimentos. Ela paria os filhotes, limpava-os, interagia com eles por algum momento, dava de mamar por alguns minutos e os empurrava para dentro da pequena toca, que nada mais era que um buraco no chão.

Com as pernas dormentes e já sem baterias para a câmera, resolvi sair silenciosamente. Parece que a mamãe cutia nem percebeu que eu partia. Continuou com o que estava fazendo. Voltei para casa refletindo sobre aquela experiência. Até hoje, acredito que, naquele momento, o pequeno ser me aceitou. Um momento de fragilidade, onde aquela sintonia me marcou, fazendo com que aquele fosse um dos dias mais emocionantes da minha vida.

Não sei qual foi o meu papel naquela situação, porém aquela pequena cutia, ao não me considerar uma ameaça, mudou algo dentro de mim… Empatia é a palavra. Um sentimento que já era bem desenvolvido, tornou-se uma missão de vida. Já se passaram alguns anos desde o ocorrido, mas até hoje conto essa história para as crianças em minhas apresentações em escolinhas. Vez ou outra entra um cisco nos olhos de alguém. :)

Fotógrafo de natureza e conservação, é fundador do Instituto Últimos Refúgios, ONG sem fins lucrativos que busca sensibilização ambiental através da cultura, em especial, fotografias e vídeos. Leonardo já realizou diversas exposições no Brasil e também na Alemanha, Itália e França. Tem cinco livros publicados, quatro documentários em vídeo, séries para TV/Youtube e matérias veiculadas na BBC, National Geographic Brasil, Fantástico, Google Arts & Culture

Leonardo Merçon

Fotógrafo de natureza e conservação, é fundador do Instituto Últimos Refúgios, ONG sem fins lucrativos que busca sensibilização ambiental através da cultura, em especial, fotografias e vídeos. Leonardo já realizou diversas exposições no Brasil e também na Alemanha, Itália e França. Tem cinco livros publicados, quatro documentários em vídeo, séries para TV/Youtube e matérias veiculadas na BBC, National Geographic Brasil, Fantástico, Google Arts & Culture

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