Olhar infantil: atento, amoroso e mágico

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Estar em um mesmo ambiente natural no cotidiano e estabelecer uma conexão direta e sensível com todos os seres não humanos nos permite observar o movimento da vida pulsando neles e… claro, também em nós. Tanto o ambiente natural como os elementos naturais dos ambientes construídos se transformam o tempo todo.

Entrar conscientemente no fluxo das coisas vivas nos ajuda a nos recarregar da energia que perdemos quando estamos fechados em casas e prédios. Por isso, devemos aproveitar as oportunidades que a natureza nos dá o tempo todo. Por exemplo, nas duas últimas semanas, em muitos bairros, a cidade de São Paulo tem estado colorida por seus ipês exuberantes. Algumas dessas árvores apresentam flores com cores extremamente brilhantes. Os ipês amarelos muitas vezes parecem forrados de flores de ouro. Mas, em poucas semanas, eles não estarão mais assim. E essas mudanças nos ipês são mais fáceis de notar porque eles, primeiro, perdem as folhas e as flores revelam um colorido muito forte. É impossível alguém passar e não notar!

Da mesma forma, todas as plantas das calçadas, dos jardins, das praças e dos parques estão se transformando sem parar. Nem todas as árvores e plantas exibem flores tão atraentes, mas em todas elas as flores – não importa o tamanho da exuberância – constituem o momento extraordinário em que o organismo se abre para o mundo. A planta, que vinha se transformando lentamente na direção de seu amadurecimento, quando produz as flores está no auge do seu ciclo reprodutivo. Os frutos e as sementes que delas sairão são os mecanismos que usam para “andar” pelo mundo, seja com a ajuda do vento, seja de insetos, pássaros e alguns mamíferos.

Agora, pense: quantas outras mudanças acontecem diariamente bem à nossa frente e mal percebemos? Essa é uma das melhores dádivas de estar do lado de fora. O lugar nunca é o mesmo.

Isso pode acontecer em qualquer ambiente, mas é muito mais claramente percebido quando estamos em uma floresta. A Ana Carol conta que, quando visitou as Escolas da Floresta na Inglaterra, o tempo se alternava muito: em um dia, o sol brilhava enquanto o tempo estava frio, em outro aquela névoa bastante tradicional de Londres tomava conta do espaço. Havia dias em que chovia por alguns minutos e logo parava completamente, e em outros dias a chuva não cessava. Ela experimentou temperaturas negativas, pequenos grãos de gelo, lama congelada, vento… Uma diversidade incrível de sensações!

E, num determinado dia, um garoto com quem ela conversava perguntou: “ Você sabe o que é surpresa?” Com ar de curiosidade, Ana Carol respondeu: “Não sei”. E, então, ele disse: “Surpresa é estar na escola da floresta. Você chega aqui e nunca sabe como vai ser e o que vai encontrar”. Que criança mais sabida!

Os  pequenos, que ainda não estão envolvidos pela rotina dos adultos, têm essa sensibilidade para perceber o ambiente ativamente. Se os adultos se permitirem se abrir para essas sensações, alterando o ritmo e a duração de suas atividades cotidianas, poderão se aproximar deste olhar atento, amoroso e mágico das crianças.

Foto: Renata Stort

Ana Carolina é pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica, e trabalha com primeira infância. Rita é bióloga e socióloga, ministra cursos, vivências e palestras para aproximar crianças e adultos da natureza. Quando se conheceram, em 2014, criaram o projeto “Ser Criança é Natural” para desenvolver atividades com o público. Neste blog, mostram como transformar a convivência com os pequenos em momentos inesquecíveis.

Ana Carolina Thomé e Rita Mendonça

Ana Carolina é pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica, e trabalha com primeira infância. Rita é bióloga e socióloga, ministra cursos, vivências e palestras para aproximar crianças e adultos da natureza. Quando se conheceram, em 2014, criaram o projeto "Ser Criança é Natural" para desenvolver atividades com o público. Neste blog, mostram como transformar a convivência com os pequenos em momentos inesquecíveis.

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